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Tratado pessimista sobre a humanidade
Alessandro Garcia
Embora desde as primeiras linhas a corrosiva linguagem de Pierre
Mérot torne claro o seu exercício em desfiar um corolário de
impressões ácidas e amargas sobre a humanidade, as instituições
e toda forma de relacionamento, é na página 153 de Mamíferos,
primeiro livro do autor publicado no Brasil, pela Cia. das
Letras, que talvez possamos nos dar conta mais intensamente da
crueldade do narrador de Mérot sobre os sofrimentos e
imperfeições humanas.
Diz o narrador a respeito dos três filhos de uma das tantas
mulheres derrotadas com que "o tio" – personagem central do
livro – se envolve depois de mais uma de suas noites de
bebedeira: "(...)A mais velha tem doze anos e faz xixi na cama.
É inteligente e desleixada. O terceiro filho é autista ou algo
do gênero. Ele teima em acreditar que dois e dois são cinco.
Sangra o tempo todo pelo nariz, geralmente no meio da noite. É
um cristo de dez anos, o centro doloroso da família, o sintoma
mais visível. Seria bom que a caçulinha não fosse asmática.
Infelizmente é."
Esta é uma amostra bastante elucidativa sobre como o sofrimento
humano se mostra motivo de riso em qualquer situação para o
narrador. E olha que até chegarmos à página 153 já passamos por
um caudaloso desfile de considerações as mais cáusticas
possíveis sobre toda ordem de princípio pré-estabelecido. Em
todo o livro não há a menor pausa para condescendências ou
pequenas doses de otimismo, por menor que sejam.
"O tio", o anti-herói aqui retratado é um fracassado de 40 anos
que habita um apartamento de 30 metros quadrados, é o refugo de
sua própria família – esta, a caricatura de uma sociedade,
entidade cujo fim não é nem de longe a felicidade de seus
membros. "O tio" é um derrotado por escolha própria que
freqüenta bares para se encharcar de álcool, levar para a cama
solteironas bêbadas cheias de filhos e masturbá-las com a escova
dental elétrica de seus rebentos. É um derrotado por escolha por
que "o tio" não é um débil mental, é um sujeito repleto de dotes
intelectuais, cuja única diversão, no entanto, parece ser
torpedear tudo à sua volta. Por isso se confunde com o próprio
narrador, ser onisciente que também toma para si os princípios e
identificações comportamentais do personagem. Aqui se nota o
difícil enquadramento da obra como "romance" – sua linha
estilística de experimentação circula por vezes pelo ensaio,
refletindo sobre a crise social e espiritual da humanidade; e
por vezes emana a autobiografia, com seus tom insolentemente
franco adotando vez ou outra o aspecto de um relatório clínico.
E deste relatório nada parece ser poupado: a democracia, as
mulheres, o sistema de ensino, a psiquiatria, o serviço público,
os editores e, claro, o casamento e a família. Tudo é trucidado
sob imenso cinismo do personagem, interessado em destruir o
menor sentimento edificante. No entanto, o "o tio" adora os
perdedores, os humilhados, os feridos de todo tipo, os órfãos
(aqui cabe uma pausa para que a crítica possa comparar Mérot à
Bukowski e inseri-lo na vala dos "marginais" interessados em
transmutar em peças literárias as situações mais sórdidas).
O que acontece é que, não obstante a adoração do tio por estes
tipos e sua abominação por uma sociedade na qual – queira ou não
– está profundamente inserido, "o tio" mantém o tempo inteiro
uma aura de superioridade em relação aos seus semelhantes –
motivo mais do que suficiente para desde já desatrelar o autor
desta comparação aos personagens de Bukowski, se bem que para
alguns basta que a trama recenda a álcool, com algumas
descrições de sexo e escatologias para ser atirado no mesmo
panteão. No entanto, "o tio" tem domínio e consciência de sua
altivez intelectual – freqüenta o meio educacional,
ridicularizado ao extremo por seus métodos de pedagogia
progressista, e se torna uma "puta especialista" – e é orgulhoso
de suas pequenas liberdades, de suas incursões embriagadas aos
redutos sórdidos dos perdedores, de seus "suicídios afetivos":
as tentativas de ficar muito tempo com um ser que lhe dá
pouquíssima satisfação. Mesmo assim, "o tio" parece nunca fazer
totalmente parte daquele inferno, só permanecendo nele por
opção.
Assim como o tio, na realidade portador de um impulso
incontrolável à transgressão, o que temos em "Mamíferos" é a
necessidade à qualquer custo de soar politicamente incorreto,
insolente e chocante à todo momento. Por isso, em diversas
vezes, notamos mais claramente o estilo de Mérot se tornando
maior do que o próprio livro, impondo-se ao narrador,
principalmente nas páginas finais do livro, com o narrador se
dirigindo ao leitor – um texto na segunda pessoa que desfila um
catecismo de "verdades definitivas" – convertendo-o no próprio
tio, depositário final das certeza de que o que já esta falido
só tende a piorar.
ALESSANDRO GARCIA é escritor e publicitário. Lança em 2006 a novela
"Submersão" no livro "Prosa de 4 Cantos" (Ed. Fósforo) e o livro de
contos "A Sordidez das Pequenas Coisas" (Ed. Fósforo). Escreve também
no blog Suburbana [http://suburbana.blogspot.com].
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