Silêncio

Luís Felipe Maldaner

Frau Pelentz acordou cedo e foi logo para a cozinha. A manhã fria tornou o fogo urgente, era preciso aquecer o coração aflito. Com cavacos e lenha seca as chamas logo inebriaram o olhar dela, ajoelhada em frente ao fogão. Fechou a tampa frontal, fazendo desaparecer o reflexo vermelho em seu rosto, e levantou-se. Encheu a chaleira com água para o chimarrão e para o café. As manhãs se sucediam como a roda cansada e gemedora do carro de bois, que segue incólume o seu caminho. Assim, quando o Josef entrou na cozinha, já pôde sentir o ambiente aquecido, como em todas as manhãs de inverno, que não eram completamente iguais, tais como espelhos que dia a dia diminuem, quase que imperceptivelmente, a intensidade do seu reflexo, retendo, apenas, as marcas do tempo. Nada mais do que um bom-dia e foi sentar-se, como era seu costume, em cima do caixão de lenha, próximo ao fogão. Ela lhe alcançou o mate, no exato instante em que viu, de relance, o pequeno vidro tarja preta, na prateleira acima do fogão. Como sempre, ele pegou a cuia sem levantar a cabeça, de formas que não pôde ver a perturbação no rosto de frau Pelentz. Fora por demais descuidada e agora torcia para que o marido não o visse. Em seguida, como que disfarçando, ela foi ver se os pães tinham fermentado durante a noite. Estavam no ponto para ir ao forno.

Não demorou muito e o cheiro de pão se espalhou pelo ar. Josef sorveu o mate até a cuia roncar e a devolveu para a mulher. Ela serviu um para si e sentou-se.

– O café está pronto? – Ele perguntou, sempre em alemão.

– Ainda não.

Terminou o mate, serviu outro para o Josef e abriu a veneziana. Pôde ver a camada branca da geada e o reflexo dos tímidos raios de sol. O aroma do café se misturou com o cheiro de pão. Tomaram mais alguns mates, enquanto ela servia o café. Sentaram-se à mesa e comeram em silêncio. Josef, que parecia endurecer-se mais e mais, saiu para trabalhar na funilaria, sem dizer palavra. Assim que ele fechou a porta, frau Pelentz pegou o vidro e quedou-se a pensar na sua resolução, amadurecida ao longo dos últimos tempos. Embora decidida, com o coração perturbado, perguntava de si para si: seria hoje o dia? E reteve-se assim, num deixar ficar, o pensamento cruzando paragens as mais recônditas, nas quais só a alma inquieta da frau Pelentz poderia navegar. Depois do que lhe pareceu o mais longo dos instantes, como que acordando do torpor, procurou um lugar no fundo do armário e depositou o vidro ali. Em seguida, lavou a louça do café e varreu o chão. Colocou mais lenha no fogão, vestiu um casaco e saiu para colher algumas verduras na horta.

Entrou no galinheiro, espalhou milho pelo chão e apanhou os ovos. Foi deixá-los na cozinha, quando ouviu alguém batendo palmas na frente da casa. Abriu a porta e viu a Frau Madalena com o filho pequeno, chorando bastante. Logo percebeu do que se tratava e mandou que entrassem. Frau Madalena contou que o filho havia caído sobre o braço esquerdo. Ele estava brincando em cima de um andaime na construção da casa onde a filha iria morar.

Frau Pelentz pediu que o menino mostrasse o braço. Ela o conhecia, era coroinha na missa dos domingos. Sentiu um aperto no coração, lembrando-se do seu Joãozinho.

– Quantos anos?

– Sete – respondeu a Frau Madalena.

Joãozinho seria apenas um ano mais velho. Poderiam até brincar juntos, pensou Frau Pelentz, percebendo que seus olhos ficaram úmidos. Quase proferiu uma blasfêmia contra Deus, mas conteve-se. Deus não tinha culpa nenhuma. Foi a maldita flobé do Josef. Se ele a tivesse guardado direito, nada teria acontecido. A culpa não era só dele. A imagem também não lhe saía da cabeça. Se tivesse tido mais cuidado, se estivesse mais perto do Joãozinho, teria visto quando pegou na arma. Um arrependimento lhe corroia as entranhas, que seus dias tornaram-se plenos de um imenso vazio, como um deserto onde não existam oásis salvadores. Procurou dar atenção ao menino que estava ali, chorando. Pelo menos, este podia chorar, pensou com amargura. Voltou, então, a examinar o braço do menino e disse, em alemão, que o pulso tinha saído do lugar. Para arrumar, tinha de forçar um pouco, iria doer, e depois fazer uma tala com mastruz. Frau Madalena perguntou se era grave. Ela respondeu que não, só iria doer um pouco na hora de colocar no lugar.

Frau Madalena concordou. Frau Pelentz pegou o braço dele, passou um pano com mastruz ao redor do pulso e ficou alisando o braço. Quando o menino se distraiu, ela deu um único puxão e sentiu quando o pulso voltou para o lugar. Ele deu um berro, e a mãe tentou acalmá-lo, dizendo já passou, já passou.

Começou, então, a fazer a tala. Pegou uma atadura, passou duas voltas e pediu que Frau Madalena segurasse por um instante. Colocou mastruz para umedecer o pano, deu mais duas voltas na atadura e colocou dois pedaços de taquara seca em cima e em baixo do braço e, com a outra mão, deu mais voltas com a atadura. Mais um pouco de mastruz e mais um pedaço de taquara de cada lado e finalizou a tala, amarrando as pontas do pano.

– Pronto! Vai doer um pouco, mas é só cuidar para não bater de novo. Daqui a uma semana pode voltar aqui para ver como ficou. E leva esse vidro de mastruz para ir molhando a atadura uma vez por dia.

– Quanto eu preciso pagar? Perguntou Frau Madalena, também em alemão.

– Nada. Nada mais preciso cobrar!

A mulher agradeceu e saiu. Frau Pelentz lembrou-se da comida. Abriu o forno e examinou o assado de porco. Estava já bem tostado. Mexeu as batatas e percebeu que ainda não estavam bem cozidas. Colocou a panela no local da chapa em que o fogo era mais forte. Mexeu as brasas, colocou mais um pedaço de lenha. O arroz estava quase cozido. Lembrou-se de fazer um suco de limão. Foi até os fundos, apanhou alguns limões galegos. Espremeu-os, adicionou água e um pouco de açúcar. A sobremesa preferida do Josef, Frau Pelentz tinha feito na noite anterior. Arrumou a mesa e colocou, ao centro, um vaso com gérberas duplas.

Quando o sino da igreja começou a tocar, o Josef foi entrando em casa e foi direto lavar as mãos e o rosto. Estava faminto e respirou fundo como que procurando sorver todo o cheiro da comida que a mulher preparara. Voltou do banheiro e sentou-se à mesa. Só então viu as flores e perguntou o que estava acontecendo. Ela disse, nada, só queria alegrar a vida. Ele, sem compreender direito, fez uma expressão levantando a sobrancelha e enrugando a testa como quem diz “que seja”. Quando colocou a travessa com o assado de porco sobre a mesa, Josef não se conteve e esfregou as mãos, maravilhado. Foi só então que ele deu o primeiro sorriso do dia.

Ela sabia que era a comida a única alegria dele nos últimos tempos. Por isso caprichara tanto. Queria, precisava desafogar o coração. Haveria de revelar o desassossego que tanto lhe perturbava. Serviu o suco para ele e sentou-se. Josef serviu-se fartamente e começou a comer em silêncio, somente entrecortado pelo expressar da satisfação em cada novo pedaço de carne que Josef colocava na boca. Só depois de devorar mais da metade da comida que tinha servido, elogiou o almoço. Parece domingo, ele disse. Ela agradeceu com um sorriso. Havia de ter muito jeito com ele.

Serviu-se novamente e comeu tudo. Ficou surpreso quando a mulher trouxe a sobremesa. O que está acontecendo? Ele perguntou. Os olhos dele brilharam quando surgiu o pudim sobre a mesa. Tinha comido demais, mas não agüentaria ficar sem experimentar, nem que fosse um pedaço bem pequeno. Foi o que pediu. Ela sorriu novamente, colocando caldo por cima.

Empanzinado, foi sentar-se na cadeira de balanço no alpendre. Dali podia avistar o quintal. Era um mínimo instante em que se sentia reconfortado, desses em que a alma sossega e o pensamento voa por descobrir-se capaz de realizar obras, de plantar, de construir. Seu coração desassossegado vivia desses mínimos instantes, nada mais lhe trazia alegria, ou o desejo de viver. Apenas o trabalho, e a ele dedicava-se com suas últimas forças. Trabalhava para esquecer a dura vida. Levantou o olhar, buscando o firmamento, como que querendo encontrar Deus sentado à esquerda do filho, mas percebia-se indigno e fechou os olhos, pensando em orar.

A mulher ficou na cozinha, lavando a louça. Depois foi sentar-se no banco, escorando-se na parede da casa, construção em enxaimel. Viu o Josef de olhos fechados e novamente desistiu de iniciar a sempre procrastinada conversa. Não foi só este o motivo. Faltou coragem. Como reagiria? Matearam em silêncio até a hora de ele voltar ao trabalho.

Quando ele saiu, Frau Pelentz fechou a porta. Aumentou o volume do rádio para ouvir do alpendre. Era a hora do Deuth Fritz na rádio Cerro Azul. Poucas vezes sentara na cadeira de balanço do marido. A cuia jazia na mão direita, não sentia vontade de continuar o mate. Cerrou os olhos, e, logo em seguida, iniciou um movimento quase imperceptível, impulsionando o corpo para frente e para trás. Sua mão deslizou suavemente pela barriga, e novamente o Joãozinho lhe veio à mente, o filho único que Deus levara. Permaneceu assim, como que buscando um rumo à sua vida. Lembrou-se da chegada na cidade, da construção da casa, do plantio das árvores no quintal. Como foram duros os primeiros anos, e os seguintes, e todos os anos com seus tormentos. Valia à pena viver assim? Um calafrio subiu-lhe de repente. Era o vento frio soprando de mansinho, como a trazer-lhe de volta à realidade.

Teve um sobressalto com as palmas de alguém ao portão. Levantou-se, sem muita vontade, e foi até a frente. Era uma freguesa que queria comprar um vidro de mastruz. Despachou-a no portão, entregando-lhe a encomenda pela qual também nada cobrou. Não estava a fim de convidar para tomar mate, como faria em outros dias. Na passagem pela cozinha, viu que já passava das quatro e meia da tarde.

Resolveu caminhar um pouco pelo quintal. Passou a mão nas árvores, com saudades do porvir. Quando voltou para dentro, o cheiro de pão tomava conta do ambiente. Encheu o pote com schmier e verificou se a nata, que tirara do leite no dia anterior, já estava no ponto. Depois, colocou lenha no fogo, água para o café e o leite para ferver. Quedou-se, por instantes, a olhar o calendário da Farmácia São Roque. Estavam no mês de junho, dia de Santo Antonio.

Frau Pelentz se surpreendeu com a hora da Ave-Maria tocando no rádio, ao mesmo tempo em que ouviu o sino da igreja. Dali a pouco entrou Josef, pontual como sempre. Foi até o tanque nos fundos, tirou os sapatos, lavou os pés, as mãos, o rosto e voltou para dentro. Pediu um mate e chateou-se porque ela disse que ainda não estava pronto. Esperou, impaciente, sentado no caixão de lenha. As pernas cruzadas e o chinelo de couro balançando no ar. Sem demora, ela lhe entregou a cuia, e ele nem sorriu. Apenas comentou:

– O filho do Schneider encomendou as calhas para a casa que está construindo.

– Hoje de manhã arrumei o braço do filho da Madalena que brincava nessa mesma construção.

A conversa não prosperou. No rádio, estava começando a Voz do Brasil quando se sentaram à mesa para tomar café. Comeram em silêncio, pão com schmier e nata, e dois ovos cozidos.

– Josef, eu tenho de lhe dizer uma coisa – encorajou-se ela.

– O que foi mulher? Estou cansado das tuas lamentações. O João já foi, não volta mais. Esquece isso!

Foi o que fez. Calou-se.

Esperaram terminar a voz do Brasil, e Josef foi trancar as portas. Quando levantou o vidro da janela para fechar a veneziana, sentiu a força do frio. Tomou um copo de água, como costumava fazer antes de deitar. Estava na hora de dormir, pensou.

Ela fez menção de arrumar a mesa para o café da manhã, enquanto aguardava o Josef retirar-se. Assim que ele se encaminhou para o quarto, frau Pelentz pegou o caneco esmaltado e o encheu de água, como fazia todas as noites. Foi, então, que ela abriu o armário, tomou o pequeno vidro tarja preta nas mãos e o abriu com todo o cuidado. Derramou o seu conteúdo na água e mexeu bem, de modo que a água ficou um pouco turva. Seu olhar fixo no redemoinho de água escura que se formara, parecia estar olhando num buraco. Deu-se conta de que estava parada no meio da cozinha quando ouviu a voz do marido, chamando-a para deitar. Foi o que fez, levando consigo o caneco, como costumava fazer, e o depositou em cima do criado mudo, do seu lado da cama, caso sentisse sede durante a noite. O dia tinha terminado, e a noite seria muito fria. Foi, então, que o silêncio se fez na casa dos Pelentz.