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Separação
Francisco Pipio
Partimos Dalva e eu, bem cedinho para o Fórum Distrital para uma
audiência já previamente marcada.
Eu na minha camisa de tergal e ela na sua blusinha
volta-ao-mundo. Era a nossa roupa da feira e da missa.
Dalva andava sisuda pé ante pé pelas calçadas e eu acabrunhado
rente ao meio-fio.
Cuidado para não ser atropelado, me alertou um passante vendo
uma carroça carregada de material de construção vindo em minha
direção. Eu estava mesmo distraído.
Dei um pulo sem cuidado para cima da calçada. Minha intuição se
encarregou de impedir que eu esbarrasse em Dalva.
Como já estava perto dela mesmo, arrisquei:
A gente devia resolver nossa situação lá com o padre.
Ela amarrou ainda mais a cara.
Você sabe: todo pobre tem medo de ficar cara-a-cara com um juiz,
reclamei.
Padre é pra fazer casamento, ela disse com sua experiência de
beata, apontando a fuça para frente sem olhar para mim.
Eu disse:
No juiz tudo fica mais complicado.
Já lhe disse padre é pra casamento.
E daí?, eu perguntei, dando a entender que já tinha relevado
suas traições.
Pensa que esqueci as surras que apanhei?, ela refrescou meu
juízo com sua voz de taquara rachada.
Já passou.
Sério?
Sério, eu confirmei arreganhando os dentes num sorriso solto.
Dalva silenciou. Tropeçou num cachorro vira-lata que bufava
esparramado como uma pedra na calçada que dava para o Fórum.
Embruteceu-se:
Nada de padre.
Hã!
E bradou:
Só se fosse para eu desdizer tudo o que disse no dia do nosso
casamento.

FRANCISCO PIPIO, é o
pseudônimo de José Francisco dos Santos, nascido
em 1967 em Graccho Cardoso, estado de Sergipe.
Poeta, contista e sociólogo, formado pela
Universidade Federal de Sergipe. Já participou
de vários concursos e coletâneas literárias. Foi
um dos ganhadores do Concurso Santo Souza de
Poesia, 2003 e Núbia Marques de Contos, 2004 da
Secretaria de Estado da Cultura de Sergipe.
Publicou o livro de poemas Asas do Entardecer
(Papel Virtual Editora, 2005).
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