O bilhete

Thiago de Oliveira

Estava-se no auditório, aquele sem-fim de alunos, todos meio espantados ou aborrecidos, irremediavelmente resignados a escutar o que tanto falava a diretora, como sempre foi costume de tradição ocorrer naquele colégio, em início de ano letivo. Iam todos para o auditório principal, onde a diretora – Dona Luzia – se punha a falar exaustivamente em cima do palanque, exortando suas orientações para que os alunos aproveitassem melhor a vida educacional tal qual a oportunidade de estudar em tão valorosa instituição de ensino, e proferindo suas ameaças de represálias contra os desclassificados desordeiros que possivelmente atuassem durante o ano.

Aquela mulher era, não se pode suavizar, uma velha gorda feia, com óculos enormes e cabelo desguedelhado, antes mais odiada que temida pelos alunos, por suas malfeitorias de enganosamente apresentar a pais e mãesem ocasiões de, por motivo diverso, estarem presentes no colégio, com ela porfiando conversa – uma enegrecida imagem de seus filhos, aproveitando-se, para tal fazer, de pequeninas faltas por eles cometidas, como: um atrasado chegar em sala de aula; um se esquecer de algum livro; o não cumprimento de tarefas de casa ou classe...; e seja mais o que fosse possível citar, de forma aumentada e piorada, ao parente responsável. E, com tanto, Dona Luzia ainda possuía também o constante costume de ralhar, a gritos e injúrias, com as crianças; além, é claro, de freqüentemente aplicar-lhes os terríveiscastigos”; sendo todas estas coisas outros pontos a serem mencionados nas palestras de início de ano como únicos meios de se combater os abomináveis comportamentos dos alunos.

No que, bem agora, neste momento, no auditório, Dona Luzia alto exclamava suas admoestações para com os vários presentes, sentados, a observar os pronunciamentos. Todos, as numerosas crianças, silenciavam muito à austeríssima discussão da diretora, estando eles sob as graves vigilâncias dos professores que, posicionados ponto a ponto, aqui e ali, espalhados pelo recinto, fiscalizavam se a atenção prestada era a devida; e, entre os tantos, sendo juntamente vigiado, estando um, por nome Carlos, ele todo encolhidinho na sua cadeira, ansioso pela hora do sino tocar e permitir a saída de ir-se embora para casaele era o aluno novo.

E, então, vai que, a certo ponto daquilo, acontece de alguém, sentado logo atrás, se esticar, com a prontidão de cuidado, para perto de Carlos; no precisar de lhe dizer alguma coisa, com a voz bem baixa, fala: – “Êi! Pega... passa para frente!” Carlos, todo espantos, vira a cabeça, em movimento hesitante, e : o pedaço de papel se movimentando diante da sua face. Sem saber e sem pensar, ele agarra aquilo. Então, e, – agora? Dona Luzia, de que seria ela capaz com quem perturbasse aquela reunião? E esta pessoa, o que estava querendo? Voltando-se para trás mais uma vez, Carlos enxerga uma menininha loirinha e cheia de sardas sacudindo a mão: –Passa para frente! Ali, ó! Passa para !” E, olhando adiante, umas três filas de cadeiras à frente, ele vislumbra... – mas como?! A menina! A mesma menina loirinha e cheia de sardas!; ela sendo em toda gestos, sinalizando que era para ela a quem ele deveria passar o papel. Mas, no nervoso do pensamento, às dúvidas do se fazer, eis que, neste instante, o coração de Carlos acelera para fora de seu corpo, seus olhos arregalam-se em muito, pois em todo o lugar se escuta um gritoesse que ninguém nunca ficou sabendo de quem veio: – Rebeca está passando bilhete!”

Enorme espanto geral – o excitamento amedrontado. Todas as crianças, com vívida e incomum expectativa de rapidez, voltam os olhos para a menina Rebeca, como que, meio assim, adivinhando alguma coisa no oculto dos pressentimentos, no não saberainda sim sentindo – dos posteriores sucederes. Não demora muito, aproximasse por ali uma professora: o apuramento dos fatos. Carlos, em tão nervoso, sente vontade de atirar longe o papel na sua mão, a prova de seu envolvimento no delito; sem saber ele que fora denunciado pela clara e alvoroçada ansiedade de sua figura. Tanto, tanto, que, de repente, ouve-se: – “Foi para esse menino que ela passou, foi?!” pergunta de Dona Luzia, na frente, aos furiosos gritos, para a professora que chegara perto dali, e ao que esta responde de volta: –Mas eu acho que ela estava querendo passar era para a irmã...” – e dirigindo-se a Carlos: – “...não é verdade?” Ele soube confirmar com a cabeça, às sacudidas. Pois essas duas venham aqui na frente de todo mundo conversar comigo!...” – berrava que doía, a diretora – “...e esse sem-vergonha-zinho também!”

Pronto. Bastou, muito foi o’que. Deram-se, , os desesperados sentimentos, que não nas duas meninas irmãs, que se notasse no visível, mas sim em Carlos. Neste, era uma confusão raciocinante, o não-entendimento do porquê/como: a velocidade de seus movimentos de cabeça para um lado e outro – desses que a gente faz por nervoso não saber o que fazer, como quem busca alguma ajuda era superada pela velocidade de seus movimentos pensantes, que não se firmavam certos em despêndido de concentração nem na raiva e desgosto pela pessoa que os denunciara, nem no medo do que lhe poderia acontecer de agora em diante, nem no enorme embaraço que sentia por ser posto tão em evidência..: a cíclica ininterrupção.

Mas: – “Venham logo, aqui!” era novamente o berreiro de Dona Luzia, para apressar Carlos, que, sendo o único ainda sentado em seu lugar, absorto estava. As duas irmãs, senão que, jocosamente, pelo sim, caçoadamente, em seus risos e sorrisos, iam apressadas, mas sempre, juntas, se segredando, no de encontro com a diretora – o que mais nelas se estranhava: sua inexistente apreensão. A tal professora vai então em busca do braço de Carlos, fazendo-lhe, aos puxões, se erguer do assento, e atira-o ao espaço entre os blocos de cadeiras, a caminho do palanque, no acompanhar das irmãs.

E ele seguiu, nervosamente. E a expectativa entre todos que ali estavam crescia. E, pois.

No tanto, deteram-se, um entantoelas duas. Estando à fim de caminho, à beira do palanque. Retardaram o passo, de modo que, quando Carlos por elas passava, uma das duas pôde reter-lhe a mão – a que segurava o bilheteem furtivo. – “Me isso...” O que ele mal percebeu. Mas Dona Luzia.

Mas é mesmo um absurdo...” – foi dizendo a diretora, em direção deles, convocando estas perplexidades. – Que é desde pequeno que se avalia o prejuízo mesmo...” Depois, voltando a intenção de fala para o restante dos alunos, expectadores: – “É disciplina o que não se pode ensinar a vocês!? Se ganha algo me desafiando e desrespeitando deste jeito?!” E retorna o olhar nos três, fortemente, seus olhos queimando; com o se dizer: – “E não pense que eu não vi isso que você acabou de fazer, Rebeca!...” Mas, quase causando uma inquietação precipitada – e não entendida –, antes, sim, tivessem lhe dado o de ouvir, ao tanto, ao que escondia e profetizava, conforme que: – Meu nome não é Rebeca.” – foi a resposta.

Existindo, de fato, motivos para comum dizer-se: que a raiva cega; quem sabe, cumulativamente, também não ensurdece? Dona Luzia: – “E você, seu-zinho?”isso para Carlos – “Nem por ser novo aqui, não se envergonha de perturbar no primeiro dia de aula?!” Ele experimenta dar uma olhada de lado, para as duas... tendo visto: replicado igualmente, o largo sorrisinho pequeno, o cinismo desse; – ...conjuravam um segredo? Dona Luzia: – “Tem vergonha! Estás chegando aqui agora!” Disse: – “Escute o que eu te digo: se você for se valer por essas ..., você não vale é nada...” Disse: – Agora, pois bem, não me resta outra coisa, senão fazer aquilo a que vocês me obrigaram...” E, dito isso, seu rosto parece que mudou, sem ter, de verdade, mudado: assustava um pouco mais, de algum modo.

Mas uma das duas meninas apenas chega bem pertinho, no ouvido de Carlos, pousando uma das mãos nas suas costas, e dizendo: – “É agora que vem a droga do ‘castigo’, viu?” Dona Luzia escutou-a: – Não... Não... Para vocês, eu tenho umcastigonovo, fiquem sabendo...” E, atrás dela, detrás de uma mesa, sentado numa cadeira que estava de costas para o auditório – impedindo assim que se percebesse que alguém ali sentava –, levantando-se, aparece o coordenador, Seo Figueiredo, empunhando uma palmatória que mais parecia um porrete cheio de pontas. Neste momento todos se desgostaram de exclamar.

Não! – gritaram as irmãs, com forte alvoroço.

– Desta vez vocês aprendem a se comportar... – disse a diretora. – Vão aprender a nunca mais passar bilhetes enquanto eu estiver falando.

Isto não é um bilhete!

esse papel, que antes eu quero ler para todo mundo isso que nele há de tão importante.

Não! – gritaram. E a que estava com o bilhete na mão enfiou-o no bolso. – disse que não é!

Não brinque comigo, menina! Vai ser pior!

Mas isto não é um bilhete – disse ela, e voltou-se para Carlos: Não é, menino? Isto não é um bilhete, né não?

Sobressalta-se. Desafia-se o juízo. Nem se quisesse, não poderia com a situação. Sentia-se desorientado ao extremo e derradeiro grau; arrastado pelas correntes do destino, sem qualquer possibilidade de desvencilhar-se, por entre os decretos do infortúnio. Um instante basta, a mínima falta de atenção, e não sabemos mais onde estamos; um instante e... – o vácuo da sorte.

Apenas o silêncio, pesado, restou no auditório. Seo Figueiredo aproxima-se e entrega a palmatória à Dona Luzia, retornando em seguida para o seu lugar. A diretora mantém o instrumento semi-erguido, para a qualidade de ameaça ser maior: – “Vai ser pior, Rebeca... Vai ser pior...” E, , as duas meninas, quase imperceptivelmente, sorriem – um meio sorrisocom uma meia malícia; ao que, depois, uma delas faz: – “Ah, é? Então, tome...” – enfiando a mão no bolso e entregando o papel.

E então, tendo o tal bilhete em mãos, examinando-o de pólo a pólo, permaneceu a diretora em silêncio? Por um o-quê. Todos ali estando sempre muito atentos, esperando que ela lesse o papel, mas: o que ninguém entendia, o que estava ocorrendo – que ela ainda não lia. E, pronto; via-se agora a sua fisionomia alterar-se amargamente: a expressão torta de quem havia sido enganado diante das próprias vistas... Pois: somente o que era, o que estava acontecendo: que ela não poderia, de forma alguma, ler aquele bilhete. Simplesmente porque, de fato, como dissera a menina, aquilo não era um bilhete! Não é que o tal do papel estava totalmente em branco!

Parou-se o tudo. Suspendiam-se as suposições. Era esperar para não-ver. Um erro é um erro, ou um erro é um logro? Um erro pode ser uma ilusão? Apenas ria-se, muitos riam, porquanto, da parte das irmãs, para preencher o silêncio: – “É, hein?” – dissera uma, em tom de cinismo. – “ não sabe mais nem ler?” – completara a outra. Causaram risos de contra-vontade. E Carlos, à vista deste todo disparate, flexionou também um riso, para aliviar um pouco; que não era para ser, mas escapuliu, em vias de inocência.

Sendo que, dentro em pouco, surpreendia-se ele com o perigo – vexadamente notou a diretora o encarando com sua máxima fúria de vingança. E era raiva como nunca antes alguém tivesse visto.

não se ria mais, agora, ninguém. Dona Luzia descia do palanque e trazia aos outros náuseas de aflição com a mais próxima presença daquela palmatória. Olhava de um lado a outro, todo o auditório, com mais olhos. Não se ria mais. Parou de frente a uma das irmãs; intimidava pelo tamanho, pelo olhar e pelo tudo: –Mas nem pense que vocês vão escapar, Rebeca!”sua voz estava rouca, voava saliva da sua boca. –Eu...!” – ia continuando, quando bem lhe interrompeu a menina com quem falava: – “Meu nome não é Rebeca.” prontamente. E tiveram uma forte curiosidade estranhada, todos os alunos; redobraram a atenção: pressentiam o que não entediam, suspeitavam do que nem viam. Dona Luzia foi então se encaminhando à outra irmã, mas: –Meu nome não é Rebeca.” – repetiu-lhe também esta. Isso que soou como graça. – “Meu nome não é Rebeca.”novamente disse a primeira menina, quando lhe olhou a diretora; e: – “Meu nome não é Rebeca.”mais uma vez repetiu a segunda, calma e cinicamente.

Soou como graça, mas...

Era Carlos quem ria. Não podendo evitar o engraçado que a cena parecia-lhe, riu-se com a situação ambígua em que a diretora, confusa, hesitava. Outros riram – riam mais. O auditório todo ria agora: faziam coro, ecoavam. as duas meninas que, sem rir, fixaram um olhar intrigado na diretora – suas bocas com o mesmo leve sorriso –, assim como que impressionadas com o fascinante de ver aquela mulher subitamente incapacitada e constrangida, de tal maneira. Carlos ria, descompassadamente. Então, não era para se ririsso tudo? Quando menos se pode, sim, é quando mais nos descontrolamos, ah.

Rebeca.

Mas foi de chofre, o que serviu para interromper o tumulto: sem casos aos ou acasos, Dona Luzia berrou e estremeceu: –Me mostre a sua mão, rapaz!” E, não obtendo imediatamente o cumprimento da sua ordem, fez mais alto: – “Estenda essa mão, seu safado!” Carlos estendeu-a, timidamente. Com sua palma direita voltada para cima, olhou suplicante para a diretora. Mas ela, de nada não queria saber, urgia por corrigir, e isso faria, o quanto pior possível. – “Vire a mão, moleque!” – disse ela. –Palma virada para baixo!...”com crueldade ordenava.

Carlos quis então chorar: uma lágrima escorria pelo seu rosto contraído. Em sua mente precipitava-se novo turbilhão indefinível de amarguras, resultado do cruzamento da vergonha, medo da terrível dor iminente e raiva da sua desventura – o velho trio. Dona Luzia quis sorrir. Disse, ainda: – “E é pouco!” Seguiram-se mais lágrimas. Ela daria a pancada...

quecom loucuras! – aquilo de mais estúrdio deu-se a acontecer neste instante.

A estranheza deste fato simulava um episódio de sonho.

Pois eis que, bem neste exato momento, a gigantesca porta dupla do auditório se abre hermeticamente. O povo olhou, para testemunhar o quemuito se insinuava em suas premonições.

Estava ali o professor de Português, Seo Macedo, ele parecendo ter desvendado o mais importante de tudo. –Dona Luzia...” – disse ele de . – “Repare quem eu acabei de encontrar vadiando pelo parque...” – trazia pelo braço uma menininha loirinha, cheia de sardas, e era: – “...Rebeca!” Ela, como se agora oferecesse ao perceber sua existência, a terceira irmã, Rebeca. Foi para além do inverossímil. O desacreditável.

E, nisso, o sino toca, finalmente. Tocou e desencantou. Todas as crianças, mesmo sabendo que não podem sair até que se permissão, se levantam simultaneamente e correm para fora, num ato quase coreografado, de forma que nem os professores nem a diretora nada puderam fazer. Rebeca, ou Rebeca, e Rebeca, espalhando-se, desapareceram, foram-se; confundidas.

Carlos pôs-se a correr também. queria mesmo era ir para casa agora. Corria e enquanto isso tentava inutilmente convencer a si mesmo que amanhã seria outro dia e que todos teriam disso tudo se esquecido.

 

 

 

 

 

 

 

THIAGO DE OLIVEIRA nasceu em Natal-RN, no dia 28 de junho de 1983. Autor do livro de contos Infortúnio, foi premiado com uma menção honrosa no concurso Câmara Cascudo de prosa de 2006.