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No Lami
L. Domingos Dalabilia
Não sou paranóico mas nesta madrugada sonolenta e fria uma vez
mais tive a sensação de que há anos durmo ao lado de uma cobra.
A bunda e as pernas, lisa e geladas como todo o resto do corpo,
a cada vez que me tocam sinto calafrios. Magra, muito magra, sem
curvas, sem mamas e dizer que gosto dessa companhia, desde
aqueles primeiros tempos, quando começou sussurrar seu nome, me
envolvia no seu abraço, me apertava inteiro, me sufocava. Nunca
foi de muita conversa, passa o tempo todo assoviando, sempre fui
bom de ouvidos, desde pequeno minha mãe de criação dizia, também
não tenho aquilo que chamam de braços e pernas, não me importo,
nunca vi isso mesmo, sou cego de nascença, nasci e me criei aqui
no Lami e quando vim ao mundo, dizem que meu pai ficou
assustado, tomou cachaça, bastante, saiu para pescar, não mais
voltou, morreu afogado ali na ponta da Ilha do Cego, minha mãe
de verdade, coitada, ouvi dizer, morreu nesse mesmo dia, do
parto. Então, dona Terezinha, boa gente ela, me pegou pra criar.
Eu não dava trabalho, ficava ali deitado ouvindo os irmãos de
criação me chamarem de tatu bola, comia, bebia, cagava e mijava
como qualquer ser vivente, a única diferença é que tinham que me
dar na boca e me lavar inteiro, nem lembro das primeiras vezes
que me jogaram n’água, aqui dentro desse manancial que atende
por Guaíba. Sempre era dona Terezinha quem me carregava, me
enxugava, me ensinou tanta coisa, me ensinou a falar, me ensinou
a pensar, descrevia como eram as pessoas, homens e mulheres, as
aves, os répteis, e também como eram quase todos os demônios!
Passaram os anos, eu já era “taludinho”, quer dizer, maior em
tamanho, parecendo uma tartaruga gigante, nem sei como é esse
bicho, mas era assim que estavam me chamando os de casa, pois é,
foi num dia desses que me levaram pra dentro de um velho barco,
chamavam-no “diabo”, era de um velho ranzinza, mau mesmo,
pescador, avô do Domenico, único amigo que tive, um garoto
ainda, doze pra treze anos, infância pior que a minha acho que
só a dele, sofria muito, quantas vezes ouvi seus gritos, o pau
do velho tá comendo o guri que chegou de Flamígera riam meus
irmãos. Mas, naquele dia então, eles me botaram dentro do
“diabo”, ligaram o motor e seguiram viagem Guaíba adentro, um
bom tempo, eu não enxergo, mas sei, não me perguntem como, mas
eu sei que foi nesse dia que resolveram acabar comigo, desde
manhãzinha ouvi os cochichos, eu só dava trabalho, despesa,
prejuízos, não servia pra nada. Dona Terezinha morrera naquela
semana, senti sua falta, alma gentil que falava comigo, eles,
eles não agüentavam mais minha presença na casa, tinham vergonha
e nojo. O barco parou um instante, senti quando me levantaram,
me jogaram naquelas águas geladas e afundei como uma pedra, nem
esperaram eu voltar à tona, ouvia o ronco do “diabo” indo embora
e, lá embaixo, as risadas do velho ecoavam nos meus ouvidos,
“diabo” era Ele, dos meus irmãos de criação já nem falo. Naquele
instante a única coisa que alguém na minha situação poderia
fazer eu fiz, tranquei a respiração, não sei por quanto tempo,
já havia brincado isso várias vezes, acho que pressentia, sabia.
Foi de repente, quando me dei conta estava sendo abraçado por
alguém, alguma coisa que me levou para superfície, consegui
respirar, senti um alivio intenso, senti-me livre, senti-me
vivo. Estava vivo! Faz anos, nunca mais ouvi falar naquela
gente, mas aquilo não era gente não. Gente é Lâmia, não fosse
Ela, eu estaria morto no fundo do rio. Trouxe-me à vida, à sua
toca, cuida de mim, sussurra aos meus ouvidos, me enlaça, me
abraça, me beija na boca, me faz feliz.
Lâmia: s.f. Monstro ou demônio fabuloso, que, segundo os
antigos, tinha cabeça de mulher e corpo de serpente.(Koogan/Houaiss)
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