Nas turbinas

 

Laís Chaffe

 

 

Vocês não imaginam o que esses olhos já viram. Quando eu digo isso, ninguém dá muita bola. Posso até ouvir vocês pensando: ih, lá vem choradeira de velha. Mas quando eu conto que faço faxina num club privée aqui de Brasília – é assim que hoje em dia os granfas chamam puteiro, sabiam? – daí a coisa muda de figura. É como se terminasse um comercial de crematório e começasse o último capítulo da novela das oito. Então eu falo que antes de ser faxineira eu era a garota número um do lugar, isso no tempo em que puteiro era night club. Bom, daí vocês passam a me tratar como se eu fosse o Sílvio Santos no domingo.

 

Lá vem aquele repórter de novo. Pra ele eu não falo nada, claro. Sigilo profissional. Nessa vida a gente tem de respeitar os segredos da clientela, mesmo depois que se aposenta. Vai deixar mais um cartão, dizer que tá na hora de eu gozar um merecido descanso, que o jornal pode me garantir uma vida tranqüila e confortável, blá, blá, blá. Gozar um merecido descanso. Ele fala bem assim. Acho que é o ambiente, sabe? Contamina. Todo mundo aqui só pensa em gozar.

 

Eu descobri o que era isso com onze anos. Verdade verdadeira. Eu disse descobri, não disse que senti. Quem sentia era ele, o desgraçado. Era diplomata. Do Itamaraty. Seja lá isso o que for. Minha família inteira trabalhava na casa dele.

 

Brasília tem forma de avião, sabiam? Meu pai era o homem que empurrava o carrinho de bagagens. A mãe limpava a merda dos banheiros.

 

Quando o pai morreu, me deixou de herança uma faca de prata do tempo em que era pescador numa praiazinha do Sul, não sei bem de onde. A faca é bonita. Prata. Dizem que mata lobisomem. Ou será bala de prata? Não importa. Se um dia eu cruzar com aquele homem, enfio a faca nele. Penso nisso cada vez que vejo o safado na televisão. É, ele continua influente. Agora entrou pra Academia Brasileira de Letras. Parece que andou escrevendo um ou dois livros.

 

Na verdade, o pai era jardineiro na mansão do homem. A mãe, empregada – acho que tá no sangue, né? Falo desse negócio de limpeza, porque puta ela nunca foi, pelo contrário, era uma mulher muito religiosa. Dois dos meus irmãos ajudavam o pai no jardim. E o mais velho era o motorista. Minha irmã ficava em casa, cuidando dos menorzinhos. Eu comecei ajudando a mãe sem receber um centavo, só pra comer por lá.

 

De sexta a domingo o movimento aqui é terrível. Faço doze horas diretas, da meia-noite ao meio-dia, quando o rodízio nos quartos é maior. Prefiro assim. Tem muito mais trabalho, mas ele é menos sujo do que o das minhas colegas que ficam com os dias da semana. Elas é que sofrem. Principalmente nas terças e quartas, porque na quinta os mais nojentos desaparecem da cidade. É interessante isso, não é? Envelheci e continuei no mesmo ramo de negócio, só mudei de setor. Agora eu faço a limpeza. Antes, ajudava na sujeira. Prefiro assim.

 

Meus pais vieram pra Brasília pra melhorar de vida. O pai disse que já tava cansado de ver a mãe limpando bosta de peixe e não queria esse futuro pra nós. Ele nem imaginava que só ia mudar o tamanho. Do peixe.

 

Onze anos. O patrão entrou na biblioteca e me viu numa escada, tirando o pó de uns livros. Eu tava de saia curta, acho que tive um pouco de culpa, mas eu era muito boba naquela época, nem foi pra provocar. Ele me chamou pra mostrar umas figuras de um livrão de arte. Senta aqui no colo do tio, ele disse. Eu sentei. Eram umas figuras bonitas. Ele começou a se esfregar em mim e a gemer e a dizer que era tudo muito lindo. Naquele tempo eu ainda não tinha menstruado, mas já tava criando corpo. Nem cheguei a perguntar o que era aquilo: ele tapou a minha boca com uma das mãos – a outra ele ocupava fazendo outras coisas – e disse pra eu continuar folheando o livro, bem quietinha. O tio não vai machucar. O tio vai respeitar. Mas não fala pra ninguém que esse é um segredinho nosso. O lábio do asqueroso tremia, a voz tremia, tremia tudo. Asqueroso eu digo agora, na época eu não entendia direito aquilo.

 

Acontecem coisas gozadas aqui nos fins de semana. Algumas até contei praquele repórter, sem dar o nome de ninguém, é claro, mas ele só riu e não pareceu muito interessado. Nem anotou nada. Contei do grupo do chocolate. Dois casais. Quando vão embora, lá pelas seis da manhã, tem chocolate derretido por tudo quanto é canto: lençóis, banheira, cortinas. Verdade verdadeira. Dá um trabalho danado.

Pra compensar tem um casal que quando sai a cama nem foi tocada, o vaso continua lacrado, a banheira seca. A gente passa pela porta e só ouve o ti-ti-ti. Eles falam, falam, falam e depois de mais ou menos uma hora vão embora. Acho que não fazem nada. Já procurei tudo quanto é pista e não encontrei. Talvez sejam os mais tarados de todos. Aliás, falando em pistas, um dia ainda abro um museu só com as coisas que o pessoal deixa nos quartos. Algemas, vibradores, chicotes, isso tudo nem me espanta mais, já juntei dúzias. Mas têm coisas que ainda me surpreendem: alicate, aparelho de pressão, máscara de mergulhar e até um cálice de prata cheio de hóstias dentro.  No meu tempo a gente não precisava de tanta coisa.

 

Aquilo tudo era muito estranho pra uma menina de onze anos, mas eu ficava quietinha porque no início ele me respeitava mesmo, se é que dá pra falar assim. Quer dizer, eu continuava moça. Ganhava balas, dinheiro e roupas novas, tudo pelo serviço impecável que eu fazia na biblioteca do homem. Era isso que ele dizia pros meus pais: serviço impecável. Na primeira vez, assim que baixou minhas calcinhas ele gozou. Pensei que tinha feito xixi nas minhas pernas, deduzi que xixi de homem era diferente. Aos poucos ele começou a demorar mais. No início eu achava aquilo muito estranho, mas ainda não sabia o suficiente pra sofrer como sofri depois. O pior foi quando eu comecei a gostar. Não. O pior foi quando eu descobri que era errado gostar daquilo. Eu já tinha uns treze, já tinha ficado mocinha. Mas ele ainda me respeitava. E eu só pensava naquilo, sonhava com o desgraçado, me tocava do mesmo jeito que ele. Um dia minha mãe me pegou com a mão no meio das pernas e disse que eu ia acabar no inferno se continuasse fazendo aquilo. Aí ninguém pode tocar, ela disse. Nem você, nem ninguém.

Fugi o quanto pude da biblioteca. Mas a vontade ficou ainda maior, agora que era proibido. Perdi a fala por duas semanas. Quando ele me colocou no colo de novo, fiquei de um jeito que nem dá pra culpar o homem. O negócio praticamente escorregou pra dentro, na entradinha, eu digo. Mas a partir daí a coisa ficou mais difícil, eu ainda era virgem, né? Mesmo assim ele não agüentou e enfiou tudo. Daí doeu. Eu tentava me livrar e ele me agarrava e dizia desculpa, mas eu não posso mais, desculpa, desculpa. E foi.

 

Aqui na casa só tem moça de maior. A proprietária não é trouxa, não quer se incomodar. Mas depois que a clientela sobe pros quartos, ela finge que nem vê o que acontece. Alguns trazem a meninada escondida nos porta-malas dos carros. Outros encomendam por telefone. Nos dias que eu faço limpeza, nunca vi nada de muito grave, porque se eu vejo alguma maldade, podem ter certeza que abro o bico. Até hoje, os mais jovenzinhos que vi trazerem pros quartos tinham pelo menos uns quinze anos. Já as moças que fazem a limpeza durante a semana dizem que perdem o sono com o que assistem. O pior deles é o velho da quarta-feira, elas contam. Ocupa sempre a suíte superluxo. E costuma trazer meninas. Às vezes elas saem chorando. Uma vez uma das minhas colegas viu sangue escorrendo pelas pernas de uma garota que devia ter uns onze anos. Como eu, tadinha. Não sei como agüentam. Eu guardo a faca de prata do pai especialmente pro lobisomem do Itamaraty. Mas até inaugurava num velho desses.

 

Minha mãe costumava dizer que depois que a porta foi arrombada... É isso. Na primeira vez ele até chorou. O diplomata. Depois foi perdendo totalmente o respeito. Primeiro começou a pedir pra eu usar a boca. Em seguida também passou a me comer por trás. Assim não tinha perigo de eu pegar barriga, ele dizia. Só usou uma pomada pra ajudar na primeira vez; a partir da segunda, foi no seco. Eu pedia a pomada, mas ele me mandava ficar quieta que assim era mais gostoso. Doía. E era gostoso. Acho que eu nunca prestei mesmo, desde menina. Aquele nojento só confirmou isso. Foi a segunda vez que me deu aquele negócio de perder a fala. Depois de uns meses, voltou.

 

Já falei que Brasília parece um avião? Pois é, tem gente que mora na asa esquerda, tem gente que mora na direita. Minha família ficava na pista. Quase uma hora de ônibus até a nossa casa. Sacolejando, passando em ruas esburacadas, eu com o traseiro daquele jeito. Numa dessas eu quase contei pra mãe. Cheguei em casa e mal podia caminhar de tanta dor. Ela foi direto pro quarto e nem viu. Fui atrás e, quando entrei, vi a mãe chorando e rezando pelo lobisomem. O asqueroso estava comprando remédio pra doença do coração que acabaria matando o meu irmãozinho mais novo.

 

Numa outra vez foi pro pai que eu quase falei tudo. Ele me viu soluçando no jardim da mansão e perguntou o que é que eu tinha. Por sorte ou por azar, nem sei, o patrão tava por perto e disse que era coisa da idade. Que eu precisava me confessar, e ele falaria com o arcebispo, que era o confessor da família. Nossa, confessar com o arcebispo! O pai quase morreu de orgulho. Na igreja, o homem foi bonzinho comigo. O patrão era uma boa pessoa, ele disse, mas a carne era fraca e por isso eu não deveria provocar. Pediu que eu não contasse nada a ninguém e passasse a usar saias mais compridas. Não adiantou. Pelo menos durante alguns anos.

 

Com o tempo, ele cansou de mim, ou a mulher dele descobriu, não sei. Só sei que ele me arrumou o emprego no night club, hoje club privée, e deu um jeito pra eu me tornar a número um da casa. Eu era bonita, não foi difícil. O único preço era servir alguns amigos importantes do Itamaraty. Como eu não sabia fazer outra coisa mesmo, aceitei. Na verdade, tinha pegado gosto. De vez em quando me dava aquele negócio de não poder falar, mas depois passava. Até que fiquei velha – já tenho quase cinqüenta anos – e consegui essa vaga como faxineira.

 

Neste fim de semana ganhei folga. De segunda a quinta, vou ter de substituir uma das colegas, que entrou de férias. Vocês já imaginam o que vai acontecer, não é? Na quarta-feira, vou dar de cara com o velho da suíte superluxo. Bem na hora que ele abrir a porta para as garotas. Nossos olhos vão se cruzar, ele não vai me reconhecer de primeira, mas numa segunda olhada vai levar um susto. Logo em seguida vai me dar uma piscadela e colocar o dedo sobre os lábios, fazendo aquele sinal pra eu ficar bem quietinha. Vai colocar dinheiro no meu sutiã e pedir que eu traga mais toalhas. Verdade verdadeira.

Vou descer, abrir o armário onde guardo minhas coisas, entre elas a faca de prata. Vou começar a tremer. Talvez eu não tenha força suficiente pra enfiar a lâmina no homem. Talvez ele nem morra. Uma colega, adivinhando minhas vontades, vai lembrar que essa gente sempre se dá bem, e eu é que vou acabar estragando minha vida. Quando ouvir isso, eu vou dar risada. E só aí vou perceber o cartão daquele repórter no lado da faca. Vou pegar o telefone; a colega ainda me azucrinando e dizendo que em pouco tempo todo mundo vai esquecer do escândalo, inclusive a mulher do diplomata, que o repórter vai ser promovido, e eu, demitida. Vou perder um bom emprego, ela vai dizer, e de novo eu vou dar risada, enquanto faço a ligação. Mas outra vez vai me dar aquele negócio da fala, sabe? O repórter dizendo alô, alô, e do lado de cá nada de voz, que desta vez vai sumir pra sempre. Sem ter outro remédio, vou levar as toalhas pro lobisomem. No meio delas, a faca.

Brasília é um avião. E eu um daqueles urubus que se despedaçam nas turbinas. Prefiro assim.