Júpiter

Lucas Barroso

Algo me dizia – quem sabe Deus – que seria mais um dia. O livro da noite anterior ainda estava marcado na minha cabeça. O rosto, o travesseiro, o desejo e o mesmo pé esquerdo de sempre também marcavam a manhã, ou, mais precisamente, a tarde.

Que sol! Que chuva! Que vento! Só falta a neve! São tantas cidades... que mundo barato! Que janela mais sem graça! O que esses cupins tem na cabeça? O que eu tenho na barriga? “Não, não quero as suas panquecas. Muito obrigado! Vou comer algo na rua, amor! Ah, e depois vou ver se acho um emprego, ok?”. Essas mulheres invisíveis de hoje em dia, suas dúvidas e seus medos. Sempre preferi as infláveis. Sem cabelos no ralo, sem ralo, descabelado. As bonecas também têm seus charmes. “Sem boa tarde hoje Dona Santa”.Política da boa vizinhança, artes cênicas, carros movidos à energia solar, ópera ao ar livre, pichações, elevador, perfume francês... quanto papo furado! Pelo amor de Deus, o que meu estomago tá falando! As paradas, os poros entupidos de tanta fumaça, o bigode que deveria estar aqui, a tia com o quadril largo beijando o menino. “Um cachorro quente sem cebola e, quase, sem molho, saindo!” É possível comer caminhando, acordar sonhando, andar lendo placas, letreiros luminosos, sorrisos. O miolo do pão, o miolo da cidade, como é doce, como é macio, parece meu primeiro travesseiro! Será que ele ainda existe? Astros cambaleantes, esbarrando em sacolas promocionais. Estamos sempre em alguma época. A caça, o caçador, a platéia de pé sorrindo, chorando, aplaudindo. Quem é a estrela desse lugar? Ou para ser mais exato, quem é a Lua? Quem é o Sol? Quem é o Deus Grego? Papel de cachorro quente aceite o que este lápis diz: sucesso é só uma palavra. Júpiter sabe disso, sempre soube. Coisas do zodíaco, aviões, bombas, Abraxas, telefones públicos, são tantas coisas fora de ordem. Muitos arriscam aquário, ou capricórnio, tanto faz. A agenda em branco espera um número apenas. Quer um número, grita por um. Mas as coisas estão fora de ordem. A modelo não me condena, convence-me de que tenho algo que ela aprecia. Mas a TV aqui de fora da vitrine traz um charme que não consigo explicar. E quem sou eu para saber explicar algo? Meus filhos sempre me perguntam, e eu sempre lhes respondo. A história está aí. A igreja esta aí. Os antigos vizinhos, e seus novos ideais, também estão aí. Ciranda, cirandinha... “A revista semanal, por favor!”. Afinal, preciso acompanhar o panorama político da Terra. As notícias, as fotos, e quantas fotos belas tem essa revista! Não, não quero mais essa revista. Não quero mais o seu dinheiro, seu computador, suas folhas, suas notas, suas fotos. Falo com zelador, imagino com o zelador, sonho com o zelador. Compraremos um barco, pescaremos a valer! E quando o zelador voltar, volto também. Depois cada um vai para seu canto. Cada um com suas sacolas promocionais da época, cheias de peixes, cheias de histórias. Quando eu subir as escadas em forma de caracol, ou de lesma, eu prometo que conto tudo às plantas. Eu nunca fui de guardar segredo. Nunca fui, todos sabem disso. Assovio uma canção, composta por um belo poeta abandonado. Conto as calçadas. Fecho a boca e assopro. Maldito poeta! Soube se abandonar, e ainda tirou proveito disso. “Estou bem, e você?”. Não me olhe assim. Minha ficha está, e sempre esteve, limpa. O máximo que fiz foi roubar um peixe. Isso não é crime, não me reprima! Você nem modelo é! Mas esses seus olhos, como falam! E se me tocassem, você ouviria coisas tão doces, que nunca mais me esqueceria, nova vizinha. Qual é a chave? Fico nervoso com finais de encontros. Essa porta não tem nada de especial, devia derrubá-la. Mas qual é a chave? É só girar a maçaneta. Os livros, os discos, as religiões, as vizinhas, tudo deveria ter uma maçaneta à vista. Simples. É só uma porta velha. É só mais uma mulher me esperando sem jantar. “Não encontrei nada, amor! Você sabe, não tenho sorte. Essas coisas de trabalho cansam, é difícil, é complicado... E como vai seu primo? Não estou mudando de assunto”. Na verdade, não tenho assunto. Não há nada de novo na Terra. Só histórias... nem vale a pena te contar. Esses meus pressentimentos sempre me enganam. Menos um dia, ou mais um. Ainda desligarei milhares de vezes esse mesmo abajur. Que cama dura, que dia duro! Essa noite, eu prometo que termino esse livro! E amanhã começarei outra vez. E quantas vezes forem precisas terminá-lo e recomeçá-lo. Hoje vou dormir de roupa, de sapatos. Talvez deva caminhar um pouco à noite. Talvez deva sumir. Talvez deva assumir. Mas são tantas estrelas, amor.

No bolso o papel de cachorro quente. As letras ainda vivas: sucesso é só uma palavra. O lixo vazio. Não, hoje não. Talvez um dia precise disso.