Horário nobre

 

- Você sabe que eu sou louca, não?

 

Mais do que bater em seus ouvidos, a frase chegou a cintilar no espaço, como se fosse dotada, não apenas de som, mas de uma massa crítica que a levasse a cruzar a noite como um cometa e frear bruscamente diante de seus olhos em uma chuva de faíscas.

 

Você sabe que..

.

Ia responder, mas preferiu se concentrar na faca com que ela cortava as rodelas de limão. A lâmina metálica conferia uma densidade adicional a suas palavras. Estremeceu: se ela desejasse ilustrar o tema da insanidade, poderia, em um gesto fulgurante, enfiar a faca em seu peito até o cabo - e ele teria dois gloriosos minutos de agonia para comprovar que ela falara a sério. Louca esfaqueia amante em ataque de ciúmes, diriam os jornais no dia seguinte.

 

Estavam na casa dela, um local que ele só freqüentava quando o marido, seu colega de trabalho, se ausentava do país - e assim mesmo para pegá-la ou deixá-la depois de algum programa. Ou, mais raramente, para tomar uma última vodca antes de se despedirem. Nunca haviam feito amor ali. Ela preferia correr o risco de ser surpreendida por conhecidos cruzando um lobby de hotel, ou pela polícia no banco de trás de um carro, a consumar a traição no cenário onde vivia o dia-a-dia de seu matrimônio. E ele entendia - também era casado. Jamais se valera da ausência da esposa para sugerir que fossem à própria casa às escondidas.

 

Ela colocou uma rodela de limão em sua vodca e observou-o por alguns instantes, como se desejasse avaliar o impacto que suas palavras haviam tido sobre ele. Estaria arrependida?

 

- Louca? - retomou ele após um gole na bebida. E emendou rindo: - De louco todos nós temos um pouco...

 

A banalidade do comentário colocou em evidência seu desconforto. Sem nada ter a acrescentar, deu alguns passos em direção à sala. Antes de entrar, porém, voltou-se para ela, deixando-lhe a escolha de acender ou não a luz.

 

Ela pousou a faca na pia e, copo na mão, caminhou até o sofá situado em frente à televisão desligada. Sentaram-se lado a lado na penumbra. E ele, que sempre estranhara a posição daquele móvel de costas para a melhor vista da cidade, sentiu prazer em confrontar os reflexos da baía brilhando contra a tela fosca. Em pleno horário nobre, a televisão oferecia uma paisagem que nada exigia em troca.

 

No hotel recém-deixado, haviam feito amor com a intensidade habitual, em uma coreografia cujo erotismo passava pela aceitação de certos limites: não podiam arranhar, morder, ou de alguma forma marcar o corpo do parceiro. De um tempo para cá, porém, ele notara que algo mais distinguia a relação: a teatralidade de seu abandono. Como se a paixão de ambos dependesse de uma moldura grandiloqüente e solene para se expressar.

 

Tinham falado de infidelidades ao longo da noite. De brincadeira a princípio - e aos poucos a sério, no que dizia respeito a ela -, haviam discutido o que fariam caso um dos dois traísse o outro. Os respectivos cônjuges não contavam nessa equação. Nem de longe poderiam aspirar à condição de rivais, tão raros eram hoje seus momentos de entrega. Excluídos os parceiros, restavam as fantasias envolvendo terceiras pessoas. E um encontro fortuito, ocorrido em um teatro ao qual ele comparecera acompanhado de uma prima - e não da mulher -, estava na raiz do presente diálogo.

 

Nunca a vira tão lívida, tão fora de si. No bar do teatro, onde haviam buscado refúgio durante o intervalo, ele protestara sua inocência. De olho na mão crispada contra a manga de seu paletó, atônito diante daquele rosto transtornado, jurara que fora a própria esposa, indisposta, quem sugerira que a parenta, de passagem pela cidade, o acompanhasse à ópera. Em vão: ela continuara a injuriá-lo, os dentes semicerrados, como se suas ponderações não passassem de mentiras odiosas. O detalhe picaresco ficara por conta do marido que, ao regressar do banheiro, permitira-se homenageá-lo com uma piscadela encorajadora e irônica, sem sequer supor que, na véspera, no estacionamento de um shopping, não havia sido a prima quem se debatera seminua entre seus braços.

 

Canalha, eis o que era, admitiu para si próprio. Mais canalha do que poderiam todos imaginar - a esposa, a amante, o marido da amante -, já que, sim, mantinha um segundo affair. Com uma pediatra, cujo consultório ficava no mesmo andar de seu escritório. Uma história que principiara em uma festa de fim de ano, promovida pela administração do prédio onde trabalhavam.

Até então, não reparara especialmente na médica, conhecia-a apenas de cumprimentos no hall dos elevadores. Mas em meio ao cenário festivo, com balões coloridos presos ao teto e dois uísques aquecendo suas veias, elogiara seu novo corte de cabelo. E ela, em um movimento sinuoso do corpo, inclinara a nuca para sua inspeção. O arrepio que imaginou ver em seu pescoço servira de trilha para emoções mais fortes.

 

Uma encantadora e descomplicada rotina logo se instalara entre eles. Duas vezes por semana, a título de almoço, comiam um sanduíche na cama dela. Ou passavam um momento juntos no final do dia. Se fosse obrigado a resumir a relação em uma única palavra, rabiscaria deleite em letras góticas no quadro-negro de sua clandestinidade.

 

Com a outra, a louca, a história havia sido bem diferente. A começar (e a lembrança parecia-lhe hoje quase caricata) pelo local onde se tinham conhecido: uma capela de cemitério. Haviam ocupado a mesma fila de cadeiras no velório de um colega - assaltado e morto na própria casa em circunstâncias misteriosas. Ao falar com o marido, notara-a sentada a seu lado, chorando baixinho.

 

Se estivesse mais atento à linguagem simbólica da vida, teria desconfiado das tonalidades sombrias que haviam permeado aquele primeiro encontro. Por delegação de quem, se não do morto, tivera acesso àqueles seios que balançavam entre soluços?

 

Como todo homem jovem, contudo, julgava-se imune a determinados perigos. E mais adiante, quando a ocasião se apresentara, fora em frente.

 

Procurou repassar os momentos iniciais de sua história com ela. Alguns meses tinham transcorrido quando tornara a vê-la, dessa vez em uma recepção para um dignatário estrangeiro. Descobrira-a na biblioteca, parada diante de uma tela que retratava, de corpo inteiro, um dos ancestrais do anfitrião. Não havia ninguém por perto. Preferira, no entanto, observá-la à distância, antes de se aproximar. Mas ela lhe dirigira a palavra - sem se voltar em sua direção. Tanto que, a princípio, chegara a pensar que falava com o quadro.

 

Desde o início, ela se mantivera sempre alguns passos a sua frente. Surpreendia-o sem dar a impressão de desejar fazê-lo. A sensação, tão física quanto imaginária, levara-o a segui-la como em um transe. Pelos salões daquela festa primeiro, pelas ruas da cidade depois. Quando afinal fizeram amor, fora sobretudo alívio que ele sentira.

 

Agora, ao contemplar as luzes que continuavam a brilhar contra a tela opaca, sentia-se tomado por um mal-estar cuja origem não tinha como identificar. Procurou se desvencilhar do torpor que invariavelmente o dominava quando revisitava certas lembranças que tinha dela. Reparou que seu drinque ia pela metade. Consultou o relógio. A reunião de pais e alunos devia estar por terminar, sua mulher em breve regressaria a casa. Seu suposto jantar de trabalho não poderia se prolongar por muito tempo. Terminou a vodca.

 

Uma trama banal, na realidade. Quantos homens, quantas mulheres, não mantinham duas ou mais histórias equilibradas no ar, por mera ansiedade... Como esquilos assustados, ou previdentes, que acumulam avelãs para melhor enfrentar a escassez do inverno? Foi do fundo dessa analogia benevolente, alimentada por uma imagem tomada de empréstimo a um álbum de infância, que ouviu, vindo de muito longe:

 

- …uma faca... no teatro...

 

Uma lua distorcida cruzou a tela escura. Voltou-se para a mulher:

 

- Como...? - conseguiu perguntar.

 

- É bem provável... - ela prosseguiu - ...é quase certo que...

 

E ele, completando mentalmente: ...se tivesse uma faca naquele teatro, me mataria.”

 

Mas ela havia emudecido. E enrolava agora o cabelo com os dedos. Depois, com um sorriso triste, murmurou:

 

- Esquece.

 

Impossível, ele sentiu, tarde demais. Como - esquecer? Ao contrário, precisava cair fora o mais depressa possível. Da casa - da relação. Partir com elegância, desaparecer com rapidez.

 

Uma sorte, tudo somado. Ter-se dado conta a tempo. Agitou o copo vazio no ar e se levantou, agradecendo aos ossos e juntas por não rangerem, tal a rigidez de seus movimentos. Um tema fascinante, o medo, quando precedido por um alerta providencial - e amparado pela perspectiva da salvação.

 

- Você já vai? - ela indagou com uma olhadela para seu copo.

 

- Acho que sim. Está ficando tarde - ele respondeu.

 

Ela o examinou de alto a baixo e, com a mesma tranqüilidade, pediu:

 

- Conta para mim...

 

- O quê?

 

- O que aconteceu esta noite.

 

Custou a registrar o pedido, tal sua simplicidade - e a limpidez em seu olhar. E só conviveu com um princípio de pânico quando se deixou afundar no sofá uma vez mais.

 

- Contar o que aconteceu agora?

 

- Não, antes.

 

- Quando antes, no hotel?

 

- Não, depois.

 

Antes, depois... Que gênero de nicho estaria cavando - e em que dimensão? Haviam ambos deixado o hotel por uma porta lateral. Como de hábito, ela na frente. Seguira-a após pagar a conta na recepção.

 

- Saímos do hotel, você primeiro.

 

- Eu sei. Esperei no estacionamento. Viemos até aqui.

 

Saltara uma etapa. O cigarro fumado dentro do carro parado, ambos atentos à neblina que encobria a praia. A música no rádio, a cabeça dela contra seu ombro e, ao longe, as tonalidades acinzentadas da cidade.

 

- Quando chegamos você sugeriu que tomássemos algo - continuou.

 

Ela olhou para a própria bebida:

 

- Vodca? - perguntou, como se pudesse ter esquecido.

 

- Vodca - ele confirmou rindo. Procurava dar a impressão de estar às voltas com uma brincadeira cujas regras iam sendo inventadas a cada passo, a cada frase.

 

- E então?

 

- Eu tirei o gelo, enquanto você...

 

Ela parecia absorta, em um estado de total imobilidade.

 

- ...enquanto você cortava as rodelas de limão.

 

- Ah... - ela suspirou, aliviada.

 

A algum porto haviam chegado. Mas algo faltava. Daí, talvez, a testa franzida, o esboço de pergunta:

 

- E sobre o que...

 

Nova pausa, dessa vez penosa. Ele veio em seu auxílio:

 

- ...falávamos?

 

- É! - ela exclamou.

 

Reconstituiu como pôde o diálogo, sem enfatizar nenhuma parte. Repassava uma lição, à meia voz. Estava atento, sobretudo, aos olhos dela. Para onde teriam voado naquele curto lapso? De onde retornariam? Nisso, ela o interrompeu:

 

- Repete para mim...

 

- O quê? - ainda teve forças de indagar.

 

- O que aconteceu agora.

 

Dessa vez, ficou calado. Ela aguardava, tranqüila. Parecia dispor de todo o tempo do mundo. Alisava, com a mão direita, o estofo do sofá.

 

- Ana... - conseguiu dizer.

 

- Fica comigo mais um pouco - ela pediu.

 

Sorria, de um ponto distante. Entendeu que não dividiam um mesmo espaço.

 

- Você não pode ficar um pouco mais comigo? - ela insistiu. E reformulou sua instrução: - Repete para mim o que aconteceu agora.

 

Não se brinca à toa com o desconhecido, descobriu tarde demais. Em algum momento, anjos e demônios juntam forças para apresentar, por um emissário comum, a fatura de perdas e danos acumulados ao longo da vida. E foi tomado pela imensidão de sua culpa, uma culpa arcaica, cheia de poeira e teias de aranha, com ramificações tentaculares em um passado do qual já não se recordava, que se debruçou sobre ela:

 

- Ana, onde é que você está?

 

- Roberto... - ela deixou escapar.

 

Roberto... Quem seria? Imaginara que, se algum nome soasse naquela sala, teria sido o seu, ou o do marido. De repente lembrou.

 

- Sim? - e pegou em sua mão.

 

- Ele era cruel comigo. Não precisava.

 

- Eu gostava de Roberto.

 

- Eu sei. Vi vocês dois juntos.

 

- É? Onde?

 

- No enterro dele.

 

Não teve como deixar de rir - e ela aderiu ao riso com entusiasmo. Ao invés de uní-los, contudo, a alegria cavou um fosso entre eles dois.

 

- Ele ficou tão surpreso...

 

- Surpreso?

 

- Sim. A faca era enorme.

 

- Ahn...?

 

- E ele de repente quieto, como um menino.

 

- Quieto?

 

- Eu me agachei do lado dele.

 

- Como? - insistiu.

 

Ela se esforçou por resgatar da cena um detalhe preciso:

 

- Embrulhei a faca na capa. Não queria manchar a bolsa… Tinha parado de chover…

 

Havia uma lógica submersa em sua história, uma coerência vinculando o discurso ao tempo que fizera. Procurou manter a calma:

 

- E depois?

 

- Depois?

 

Abraçou-se a ele. Chorou convulsivamente por alguns minutos. Em seguida, com a mesma velocidade, enxugou as lágrimas e disse:

 

- Fiquei com ele mais um pouco.

 

E olhou-o com ternura. Parecia reconfortada por tê-lo a seu lado. A lua deixara a tela da televisão, as luzes difusas voltavam a brilhar no fundo da baía.

 

Passou a mão pela testa suada, suspenso na fronteira entre o horror e o estupor. Uma moleza tomava conta de seu corpo, amortecendo sua capacidade de reagir. Recordou-se da pediatra e por uns segundos atracou-se a seu quadro-negro, como um náufrago a um tronco de madeira. Pensou também na esposa, tão distante do caos vertiginoso em que se metera - e tudo somado, sua melhor amiga. Mas as duas mulheres logo sumiram na escuridão, varridas por sua angústia.

 

Como lidar com aquela confissão sem ser tragado pelo escândalo? Avisar o marido? A que título? E em que termos? Consultar um psiquiatra? A idéia de deixá-la voltava a se impor. Mas de que maneira? E em que estado? Ela não era mulher de se deixar abandonar. Sobretudo se alguma memória conservasse de suas palavras de havia pouco. Um sólido elo os atava.

 

- Você não pensa em me largar, não é?

 

Já não caminhava alguns passos a sua frente, como antes. Nem o seguia de perto. Ao franquear-lhe o acesso a seu labirinto, trouxera-o para o coração de sua história. Sentiu-se subitamente no direito de se apropriar de sua frase. E, por sua vez, solicitou:

 

- Repete para mim...

 

- O quê? - ela perguntou.

 

- O que aconteceu agora.

 

O pedido pareceu desorientá-la. Não esperava por ele. Uma armadilha? Um jogo de espelhos?

 

- Agora? - indagou com um ar atento.

 

- Não. Antes - ele respondeu.

 

- Antes?

 

A desconfiança tomou conta de seu rosto. Mas logo desapareceu - e ela se recompôs. Foi sorrindo que disse:

 

- Eu sei que você tem uma namorada. Uma outra namorada.

 

O tom era jovial, quase brincalhão. Sugeria que determinados homens eram realmente inviáveis - e que certos desfechos se tornavam inevitáveis.

 

- Eu te segui. Até o apartamento dela. Na hora do almoço.

 

Explicava-se de modo pausado, sem dar margem a que negasse a acusação, ou esboçasse um princípio de reação.

 

- Você está sendo cruel comigo - prosseguiu no mesmo tom.

 

Dona absoluta de seu espanto, completou:

 

- Não precisava.

 

Foi essa conclusão, emitida em um tom de sincera tristeza, que o alertou para o que ainda viria. Quis se levantar, mas não conseguiu. Suas pernas mantinham-se presas ao chão. E a cabeça, colada ao encosto do sofá, havia adquirido um peso de chumbo. Olhou para o copo de vodca vazio. Só aí entendeu a razão de seu torpor. Seu braço caiu sobre a almofada, as luzes já não brilhavam. Ela repetiu:

 

- Não precisava.

 

Viu então sua sombra passar na tela da televisão. Avistou-a à distância na cozinha. Secava a faca em uma toalha de mão.

EDGARD TELLES RIBEIRO, escritor e diplomata, nasceu em 1944. Fez seus estudos na Europa (onde seu pai trabalhava como diplomata) e no Brasil. Foi colaborador do Quarto Caderno do Correio da Manhã (Rio de Janeiro) entre 1967 e 1969 (na época coordenado por Paulo Francis). Nessa mesma época, foi crítico de cinema no O Jornal, também do Rio de Janeiro. Ingressou na carreira diplomática em 1967 e é hoje Embaixador na Tailândia, após ter chefiado por dois anos o Departamento Cultural do MRE. Dirigiu curta-metragens (um deles exibido no Festival em Cannes em 1980) e foi professor de cinema da UnB entre 1978 e 1982. Publicou oito livros de ficção, editados pela Companhia das Letras e pela Editora Record, entre os quais seu livro de contos, "Histórias Mirabolantes de Amores Clandestinos", conquistou o segundo lugar no Prêmio Jabuti do ano passado e obteve o terceiro lugar no Portugal Telecom do mesmo ano. Um de seus contos saiu em uma coletânea sobre literatura latino-americana publicada nos EUA pela Plume-Penguin Books. Dos quatro romances que publicou, o primeiro, "O Criado-Mudo" foi lançado nos EUA, Alemanha e Holanda. E o último, "Olho de Rei", foi lançado em outubro passado.