Do conto à ópera:
Carmens de Merimée e Bizet

Ana Carolina da Costa e Fonseca

Berlin, abril de 2006

Se contarmos a estória de modo simples – um homem se apaixona por uma cigana, sedutora e voluntariosa, e a mata quando ela deixa de o amar – pode-se dizer que Bizet transformou em ópera o conto de Merimée. Contudo, nem conto, nem ópera são superficiais e recontá-los em uma frase apenas esconde o que os torna fascinantes e iguala o que é fundamentalmente diferente. Inspirado em Merimée, Bizet musicou a estória de uma outra femme fatale que amou um outro Don José. Em Merimée, dois tipos humanos igualmente fortes se apaixonam e vivem a paixão até que um deles muda. Don José é um bom militar e se torna um bom criminoso. Bravura, força, respeito são características do personagem e independem do seu labor. Ele deixa de ser um militar involuntariamente, mas escolhe deixar de ser um criminoso, pois quer viver, ao lado da mulher amada, uma nova vida na América. Carmen gosta da sua vida de crimes e de sedução e não quer outra. Don José mudou. Ele deixou de ser o homem por quem Carmen se apaixonou duas vezes. Ele não mais é nem soldado, nem criminoso, e este não ser se refere ao que motiva o agir. Ela permanece a mesma. Esse é o impasse que acarreta a morte da messalina. Os outros homens que Carmen teve durante seu romance com Don José não foram importantes e apenas o ciúme de Don José fez com que matasse dois. Mas ele não quer continuar matando os amantes de Carmen e decide matá-la. Carmen, por sua vez, sabe, desde o primeiro dia, que ele a mataria e não age de modo a evitar a própria morte. Por não se curvar aos desejos de Don José, é morta. Em momento algum é o fim do amor que motiva as ações. Ao contrário, Carmen deixa de amar um Don José que não é mais o homem por quem ela se apaixonara e a paixão por Lucas é tão efêmera que ela diz a Don José, pouco antes de morrer, não amar mais o toureador. Bizet, por sua vez, colocou dois pares em cena: Carmen – Escamillo e Don José – Micaela. Carmen e Escamillo são tipos humanos fortes. Don José e Micaela são tipos humanos fracos. O casamento entre Don José e Micaela realizaria o ideal romântico da união da boa moça com o bom moço. Mas surge a sedutora Carmen, que escolheu um novo coração para se divertir. Por alguns segundos ele está decidido a seguir os conselhos da mãe e a se casar com Micaela, mas Carmen o provoca, Carmen promete amá-lo, Carmen o conquista. E Carmen faz com que ele não possa mais ser um soldado e se torne um criminoso. Depois de viverem juntos por algumas semanas, Carmen diz a Don José que ele não é um bom criminoso e que deve visitar a mãe, que está morrendo. Carmen. Carmen. Carmen. É sempre a voluntariosa Carmen quem decide o destino de Don José, que, quando parte, já é um homem estraçalhado pelo amor perdido. A única escolha que Don José faz, a única atitude que toma, é matar Carmen, que já está apaixonada pelo toureador e apenas se deixa matar por saber ser isso o que o destino lhe reservou. A Carmen de Merimée conta a história de um amor entre iguais que acabou quando um deles mudou. A Carmen de Bizet conta um dos tantos romances de Carmen. Em ambos há uma femme fatale, mas para Merimée não há qualquer relação entre seduzir o homem que deseja e mesmo os que não deseja e viver amores efêmeros. A efemeridade foi posta em cena apenas por Bizet, que retira de Don José o papel de narrador de seu amor por Carmen, para contar parte dos sucessivos amores de Carmen.