|
 |
 |
As heranças de Ritinha
Renato Rosa
Ritinha era a única criança da casa, durante muitos anos.
Sozinha, foi criada num casarão centenário que, desde sempre,
mesmo quando novo, era de um amarelo, sempre descascando,
horrível. Havia um pequeno chafariz no jardim de entrada –
ostentando uma pomposa garça com uma tonalidade de branco
quebrado, sujo e esverdeado já que “condenada” estava a
esguichar água eternamente através de seu longo bico para o
alto. Toda a cidade chamava o petrificado animal de saracura de
uma perna só. Esta era a idéia projetada pelo perfil da elegante
ave. As pessoas percebiam sua presença quando passavam e
entreolhavam pelos arbustos através do gradil que cercava toda a
extensão da frente do casarão. Assim os passantes filtravam as
imagens de uma casa habitada pelo que restou de toda a outrora
grandiosa, dominadora e enorme família Castelo Paz. Sempre
soube-se que os Castelo Paz descendiam dos primeiros fundadores
da cidade, - uma cidade que acabou desenvolvendo-se pouco,
apesar de ter uma pequena estação de trem e ser a maior
plantadora de arroz dentre todas na região-, e Ritinha ouvia
muitas histórias da família. Histórias de soldados que chegavam
das guerras, de tios condecorados com medalhas imperiais, de
estranhos enriquecimentos havido entre seus parentes, algumas
tragédias – poucas - , de casamentos que duravam dias em festa,
de diplomas e títulos ofertados pela igreja, estes somavam-se às
dezenas, esparramados pelas paredes da sala principal do
casarão; misturando-se aos retratos pintados de gente gorda e
magra e de assustadoras feições, como aquelas figuras ovaladas,
acinzentadas e marrons que vira na única vez que fora ao
cemitério. Eram iguais: homens com bigodes fartos e curvos,
mulheres com buços, bucles, coques levantados e santos
pendurados nas roupas que lembravam e pareciam mesmo
condecorações. Todos levavam um sorriso que a fazia arrepiar-se
porque não entendia como um morto poderia apresentar um
meio-sorriso.
Duas escadas conduziam para o hall de acesso à porta principal
de cujo teto pendia um plafond de ferro azinhavrado, de origem
francesa, como a garça do jardim. Toda vez que chegava a hora
das refeições, fosse para o lanche do meio da manhã, almoço ou
café da tarde, era uma dificuldade encontrar Ritinha. Sempre
achava um meio de esconder-se sob as ramagens da
grinalda-de-noiva que se derramava pela grama alta do jardim,
bem próximo ao pequeno chafariz. Nessas horas, fora o canto
enlouquecido das cigarras, apenas a voz roufenha de Delurdes se
fazia ouvir chamando a menina:
- Rrritttiinhaaaaaaa!!!!!!!!!
Abraçada a sua inseparável boneca de rosto pintado e olho azul
de porcelana alemã, diziam que era porcelana de Meissen,
presente de uma de suas tias que também morava na mesma casa,
tia Carmencita, como a chamava. Solteira, tia Carmencita vivia
de luto fechado desde a morte de seu noivo, Ademar. Inteiramnete
de negro, há mais de quinze anos, portava um curto colar de
pérolas de uma volta - que sempre prometera para Ritinha.
- “Quando eu morrer, ou antes, quando você completar quinze anos
ele será teu, viu minha filha?”.
Ritinha morria de medo de ganhar o colar porque temia
transformar-se num tipo de viúva solteira como sua tia , zelava
com o máximo cuidado quando varriam a casa, para que jamais
varressem seus pés desde que Delurdes lhe alertara:
- “Se algum dia isso te acontecer Ritinha, você jamais vai se
casar!!”.
Cruz credo, corria para longe a menina. Delurdes dizia-lhe que
“não prestava varrer os pés das pessoas”.
Ritinha colhia folhas pelo jardim e com elas preparava
comidinhas para Lili, este era o nome da boneca de porcelana
alemã. Brincava sozinha porque era a única criança naquela casa.
Mas havia um grupo grande adultos, sua tia Elvira que também
usava colar de pérolas e umas abelhas de ouro com pedras
coloridas no peito; Oscar, marido de tia Elvira, um velho
brincalhão , bandalho, que adorava dar beliscões, dizer nomes
feios e dar traques no meio da sala, sem se importar - jamais -
se houvesse visitas, ou não. Era uma vergonha geral mas ele já
não conseguia, naquela idade, dominar esses ímpetos considerados
por todos como in-vo-lun-tá-rios. Quando acontecia, todos se
entreolhavam e não reclamavam mais, a cidade inteira sabia
desses péssimos hábitos de seu tio Oscar. Do prefeito, ao
delegado, ao dono da tabacaria, o padre, ricos e pobres da
cidade, todos sabiam do desconserto de tio Oscar. Ritinha também
guardava na sala de visitas entre as dobras dos sofás, baratas,
joaninhas, cascudos, toda sorte de insetos que encontrasse.
Depois pegava um por um e colocava dentro de caixas de fósforos
e fazia uma cerimônia particular no fundo do quintal, escondida
no meio da horta de tio Oscar, era la que ela cultivava um
cemitério de seus bichinhos. Enterrava-os um a um e rezava por
eles, sozinha. Ninguém sabia e ninguém via, Ritinha era a única
criança da casa.
|