A noite, enfim

Cleci Silveira

Nove horas da manhã. Na esquina de uma avenida, em meio ao trânsito caótico, Laura pega o celular e digita um número. Mas o ruído de buzinas é ensurdecedor, não consegue entender o que dizem do outro lado da linha, desliga. Mas aquela voz... Baixa, entrecortada, grave, certamente era a que esperava. Mesmo assim, não pode reprimir uma sensação de pânico. Depois, envolve-se, ela também, no torvelinho de pressa, no mar de carros que massacram o asfalto. Ainda há muito o que fazer durante a manhã.

Em torno de uma hora da tarde, dirige-se para o restaurante, onde combinara almoçar com os colegas. É ponto de encontro habitual, a garçonete conhece o nome e até as preferências de cada um. “Salada e peito de frango grelhado, a água mineral de sempre”. Laura tenta participar da conversa, rir das piadas, mas a voz ouvida ao telefone não lhe dá trégua, a afasta dali.

- Ei, Laura, acorda! Então? Concorda com o nosso plano? Precisamos dar um chega pra lá naquela sirigaita puxa-saco. Podemos contar com você?

- Plano... é isso, um plano... Por favor, me perdoem, isto é, preciso ir ao banheiro. Já volto.

Depois da saída precipitada, ampara-se, o coração aos pulos, na bancada do lavatório. Ainda há pouco, enquanto tentava responder à pergunta dos amigos, fora tomada pelo terror. O homem estava ali, no restaurante, camiseta preta de mangas longas, a corrente no pescoço, o maldito berloque, os cabelos longos, fios escuros e grisalhos atados na nuca, os olhos negros, passagem para todos os abismos da perversão humana. Como ousava? Demônio e deus levando no olhar uma chama odiosa a provocar a mais funda repulsa e a mais inconfessável atração. Quando encontra forças, abre a porta e espia: ele ainda está lá, tem certeza de que a espera. Escoam-se os minutos, é preciso sair da toca. Ensaia projetos mirabolantes, assusta-se com os próprios pensamentos, imagina-se a passar pela mesa do solitário com andar ondulante, cheio de lascívia. Que idéias estranhas! Sente-se ridícula. Abre a torneira, molha os pulsos e as têmporas.

Quando finalmente deixa o refúgio, seus nervos absorvem os sons em declínio do local já quase vazio, louças sendo retiradas, o fim do horário do almoço. Mas ele continua lá. Arrastando-se em uma atmosfera de pesadelo, pés como se fossem de ferro, inicia a caminhada, que se lhe afigura interminável, até a saída. Mas não resiste ao desejo de passar junto à mesa do homem, tentando ainda endireitar o corpo, num êxtase, num ímpeto obscuro de se fazer notar. Depois, o gesto, incontido, inexplicável: vira a cabeça para trás. Ele ergue o cálice de vinho com uma das mãos. Com a outra, acena uma despedida, sempre com um sorriso irônico, cruel, desenhado nos lábios.

No escritório, a tarde é lenta. Laura tenta concentrar-se no trabalho, mas, como num tropel, os pensamentos fogem ao seu controle e, de repente, sente-se absorvida pela imagem frágil e pálida do irmão, suas feições extremamente belas, de uma delicadeza quase feminina, seu modo infantil de se fazer amar, os olhos cor de mel. Rafael, o bem-amado, por trás de uma aparente fraqueza dominando tudo e a todos. Primeiro os pais e, depois ela própria. Rebela-se contra o hábito de lhe dizer sim, eternamente sim, contra as noites mal dormidas, quando ele a chama com medo da escuridão. Quando o resgata de seus terrores noturnos e o acomoda em seu regaço, ouvindo-lhe o pulsar do coração, enquanto ele desfia sussurros, queixas, ânsias. No dia seguinte, está cansado, sem forças, lânguido, atirado em um sofá ou na poltrona, ou na rede. Abandonou a faculdade, não procura um trabalho, o que, afinal, facilitaria a vida de ambos. Entretanto, não perde um só dia de exercícios na academia, para isso está sempre disposto. E agora tem esse professor, que lhe conquistou a amizade irrestrita. Laura não gosta dele, sente-se intimidada em sua presença, diante da chama intrigante de seu olhar. Depois faz um mea culpa, admite, por instantes, a própria fraqueza, uma pobre marionete, títere manipulado pelas mãos que estiverem mais próximas: “sim, mamãe”, “sim, papai”, “sim, Rafael”, sim para o chefe, ausência de nãos, de um sentimento mais forte.

Nos últimos tempos, porém, tem sido assaltada por um desejo secreto de romper a teia em que se deixou enredar, desmascarar a submissão infantil, teatral e cansativa. Não tem vocação para Antígona, longe disso. Sente-se a atingir uma inesperada objetividade e o êxtase de uma liberação possível enche sua alma de esperança. Com tal disposição de espírito, aproxima-se da janela, olha os transeuntes, depois levanta os olhos, fixa-os nas vidraças do prédio fronteiro, naquele instante incendiadas pelo reflexo do sol agonizante encaminhando-se para o poente. Vai-se a tarde. É hora de sair.

Faz o trajeto de todos os dias, a paisagem familiar do rio, a noite a encobrir as águas pardas que se vestem com o brilho emprestado das luzes da avenida. Em breve alcançará o outro extremo da cidade e o casarão herdado dos pais. A moradia orgulhosa de outrora perdeu a pose com a chegada das novas construções. Estas foram devorando os espaços, alastrando-se em ambos os lados da avenida, até restarem não mais que meia dúzia de palacetes, apertados entre modernos edifícios. Oásis para os olhos sedentos de alguns saudosistas, Laura sabe que eles estão destinados ao desaparecimento. Ela própria, com seus parcos rendimentos, sente as dificuldades para manter um imóvel desses, onde os vazamentos parecem ter o dom de multiplicar-se, tão logo um é detido já aparece um outro ali adiante. Mas, não obstante a casa quase em ruína, o solo é valioso. Não faltam propostas vantajosas de construtoras. Aqui entra novamente a submissão à vontade dos pais: além dos cuidados com o irmão, tinha prometido jamais desfazer-se do teto que abriga a história da família.

Antes de guardar o carro, Laura pára alguns instantes em frente à mansão, observa com invulgar nostalgia o estilo europeu tão gabado por sua falecida mãe, a cobertura invadida pelo limo a expor as antigas mansardas. Observa os jardins abandonados. Flor, só aquelas nascidas ao acaso, fruto de alguma semente perdida que um pássaro distraído deixa cair por ali. Já nem lembra há quanto tempo precisou despedir o jardineiro, talvez há uns quatro ou cinco anos, quando gastaram o último centavo do pecúlio deixado pelos pais. Num ímpeto, abre a porta de madeira escura e adentra o vestíbulo, seus olhos deslizam sobre o tapete surrado da escada que conduz ao piso superior. Lá em cima, está Matilde, a velha empregada. Parece atordoada, alisa o cabelo com mão trêmula.

- Eles me doparam, dona Laura. Seu Rafael veio com o jeito mansinho dele, me ofereceu um chá fumegante, cheiroso... Estava com aquele professor esquisito que usa rabo-de-cavalo e tem olhos de cigano, aquele homem está sempre aqui, mal espera a senhora sair para o trabalho... levaram tudo, dona Laura, todas as jóias do cofre, os quadros mais valiosos... – esfrega os olhos, os efeitos da droga ainda evidentes na voz. Mas continua:

- Ai, dona Laura, nem sei como contar o resto... Depois, quando o efeito do maldito chá estava passando, pude ver, na minha zonzeira, uma cena que jamais vou esquecer: eles pareciam uns doidos, arrombavam a pontapés a porta do guarda-roupa. De nada adiantou a senhora carregar a chave... eles levaram seu casaco de pele antigo, os dólares que a senhora guardava para uma emergência. Ai, dona Laura, depressa, a senhora precisa chamar a polícia...

Uma grande paz e uma alegria incompatível com a circunstância se aninham na alma, antes perplexa, de Laura. Procurando ajustar no rosto a necessária máscara de dor, ou de raiva, sobe a escada e ampara a mulher que há tantos anos serve a família “calma, Matilde, calma, logo faremos isso”. “Venha, vamos para a cozinha, vamos tomar um café bem forte”. Patroa e empregada conversam durante um longo tempo lembrando outros épocas.

Às onze e trinta da noite, Laura derrama um punhado de sais na banheira, prepara-se para um banho morno, prolongado, as águas eliminando-lhe as sujeiras do corpo e da alma. Sentindo-se depurada, relaxada, vai para a cama. Um sono tranqüilo, livre. Antes, apanha na gaveta da escrivaninha o cartão de uma construtora e o coloca sobre a mesa de cabeceira. Ora, um casaco soltando os pelos de tão velho, uns míseros dólares, algumas jóias de pouco valor... Pobre e crédula Matilde! Adeus Rafaelzinho, descanse em paz.

Estende-se entre os lençóis, já sonhando com um tempo de liberdade, longe da vida enfadonha, dos dias cativos, sem brilho, que sempre foram os seus. Exausta, vai sendo tomada por um torpor, uma sonolência, os objetos vão ficando distantes, apagando-se. De repente, vislumbra um par de olhos negros, perigosos, sedutores. Ergue-se, dominada pelo terror. Passeia o olhar pelo quarto cheio de sombras, a luz de um poste a infiltrar-se através de um vão entre os panos da cortina. Tudo quieto. Sente voltar-lhe a coragem: nele eu penso depois.