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A literatura corrosiva de Chuck Palahniuk
Alessandro Garcia
Qualquer menção inicial a Chuck Palahniuk necessária
e primeiramente estará acompanhada de informações a respeito de
"Clube da Luta". Seu primeiro livro, que foi adaptado
para o cinema pelo diretor David Fincher, (reunindo
os astros Brad Pitt e Eduardo Norton), se transformou em uma obra de
culto de tamanhas proporções que várias das idéias do autor contidas
no livro se desatrelaram de sua importância ou significados somente
literários e passaram a ser percebidos como princípios de vida, ideais
a serem seguidos. Um fenômeno cultural que no Brasil encontrou sua
vazão violenta no episódio do estudante de medicina que entrou no
cinema durante uma sessão do filme e atirou contra várias pessoas e,
segundo ele, motivado pelos ideais do filme. Uma rápida "googleada" e
se percebe que, mais do que debater os valores literários da obra,
existem centenas de sites dispostos a encontrar sentido e referência
nos "mandamentos" de princípios do que chamam de Evangelho de Tyler
Durden, o personagem anti-capitalista que no cinema foi representado
por Brad Pitt.
Certo é que não se pode reduzir esta obra de Palahniuk, tão somente, a
um livro de idéias violentas. Não obstante sua trama - Jack, um
investigador em uma companhia de seguros que, não agüentando mais sua
rotina comezinha sem significados e emoções e conhecendo Tyler, um
maluco que gosta de resolver tudo na base da porrada, fundam o tal
Clube da Luta, um local onde homens brigam entre si para extravasar
toda a fúria que suas vidas rotineiras lhes causam. Mas a coisa começa
a sair fora do controle, e o que era pra ser apenas uma seção de
"psicanálise dolorida" passa a se transformar numa organização
terrorista, que insiste em acabar (no sentido mais geral dessa
palavra) com tudo o que é relacionado ao capitalismo e ao consumismo –
existe muito mais por trás desta superfície. Estão ali embutidos os
ideais e discursos anticapitalistas e anticonsumistas que passarão a
se propagar em diversas obras de Chuck Palahniuk. Estão ali as
tentativas de insurgência contra um sistema que insiste em rotular, em
demonstrar que a receita do sucesso é composta por dinheiro,
demonstração de poder e ostentação. "Clube da Luta" é só o primeiro
round para se compreender que a literatura, para Palahniuk é composta
de princípios – muitas vezes acusados de subversivos – que se
estenderão por outras obras suas, ainda que travestidas, por vezes, de
tramas que não revelam isto tão claramente.
Chuck Palahniuk teve, assim como as tramas de seus
livros, uma vida insólita. Jornalista de profissão, Palahniuk já foi
artista de rap, lutador amador e até mecânico de automóveis. Teve o
pai assassinado com a namorada pelo ex-marido dela. O acusado está no
corredor da morte. Quando era adolescente, seu avô cometeu suicídio
após matar a mulher. O autor adora conversar sobre sua quase obsessão
em fazer humor com episódios trágicos, sobre as referências
anticonsumo presentes em suas histórias, sobre sua escrita enxuta e
direta, e suas narrativas repletas de escatologia. Um exemplo notório
disto é um conto do autor chamado "Guts" (vísceras),
presente no livro "Haunted", de 2005 e que foi
publicado em março de 2004 na revista Playboy americana. No conto, com
sua peculiar descrição direta e irônica, o autor narra episódios –
verídicos, segundo ele – de obsessão masturbatória de três
adolescentes dispostos a ir cada vez mais fundo para ampliar o seu
espectro de prazer nesta prática. De inserção de cenouras no ânus até
filetes de cera endurecida no orifício peniano, as taras realmente
caminham para o extremo, passando por masturbação com asfixia e
culminando para o jovem que se masturba dentro da piscina, sentado
sobre o duto de sucção a lhe aspirar o ânus. Sem calcular o potencial
de que é capaz tal duto, ficamos finalmente sabendo o porquê do "guts"
do título. Em 2003, durante sua turnê para promover o romance
"Diary", o autor leu o conto para diversas platéias nos Estados
Unidos. Mais de 75 desmaiaram ao ouvir a leitura. Confesso que
quando o li não cheguei a tanto, mas é totalmente compreensível
o motivo de tal fato.
Depois de "Clube da Luta", que é de 1996, o
autor lançou "Survivor", em 1999, que aqui no Brasil
recebeu o nome de "Sobrevivente", lançado pela editora Nova
Alexandria. "Sobrevivente" compartilha com "Clube da
Luta" o asco pelo cotidiano capitalista e a estrutura narrativa,
começando quase do fim e narrando em primeira pessoa a história em
flashbacks. Ao contar a história de Tender Brenson, último fiel da
seita Igreja do Credo, um fanático religioso que sequestra um avião em
pleno voo para cometer suicídio, relatando os eventos da sua vida na
caixa preta do avião, Palahniuk critica, através de uma narrativa
ágil, o sistema educacional americano, que forma pessoas programadas
apenas para serem "funcionários perfeitos". O personagem conta em
prosa rápida e cortante sua vida, do momento em que saiu da comunidade
para trabalhar em casas de família - nas horas vagas aliciando moças e
dando conselhos errados a pessoas deprimidas pelo telefone. Até que se
torna uma celebridade instantânea, começa a namorar e tudo dá errado.
O livro não se deixa largar até o último capítulo e mistura suspense à
comédia grotesca para satirizar de forma mordaz a vazia e consumista
cultura americana. Quase um estudo antropológico em forma de romance
satírico, traz uma visão ácida da vida em sociedade e de como o
indivíduo pode ser moldado - seja pela igreja através da culpa e
êxtase religioso; pela academia de ginástica através de exercícios;
pelo Espetáculo da ânsia por riqueza e fama. Apesar de já ter tido
seus direitos comprados pelos produtores de cinema, sua realização se
torna complicada pela hesitação dos mesmos em produzir um filme cujo
protagonista seqüestra um avião.
Em "Invisible Monsters", de
1999, sem tradução no Brasil, Palahniuk narra a história de Shannon
McFarland, uma supermodelo que tinha tudo: uma brilhante carreira, um
namorado e um melhor amigo muito leal. Quando sofre um acidente (na
verdade, um evento ambíguo sobre o qual não se pode ter certeza
absoluta de se tratar de acidente), tem o rosto desfigurado, acabando
com sua carreira e perdendo também seu namorado. Sua vida está
arruinada quando conhece Brandy Alexander, um transsexual que vê
alguma esperança nela. Juntos, os dois começam um plano de vingança
contra aqueles que são suspeitos de envolvimento no acidente de
Shannon, enquanto viajam pelos Estados Unidos roubando drogas em casas
de repouso. Shannon abriga um ressentimento profundo em relação ao seu
irmão, que morreu supostmente de AIDS. Porém, enquanto a novela
progride, se revela que tudo está conectado em maneiras inesperadas.
Este, que era para ser o romance de estréia de Palahniuk, foi
constantemente rejeitado pela editoras por ser considerado "doentio"
em excesso, e só foi publicado depois do sucesso alcançado pelo autor
depois que Palahniuk estreou na literatura com "Clube da Luta".
2001 é o ano de "Choke",
publicado pela Rocco no Brasil como "No Sufoco", onde
um menino traumatizado por uma infância atribulada ao lado da mãe
amalucada se transforma no adulto golpista Victor Mancini. Victor, um
ex-estudante de Medicina que freqüenta grupos sexólatras anônimos sem
a menor intenção de curar qualquer compulsão, mas sim de conseguir
mais parceiras sexuais, aplica diariamente o mesmo golpe: finge
engasgar-se ao comer e estar prestes a sufocar. Comove quem o socorre,
contando que passa por dificuldades financeiras, o que,
invariavelmente, leva seus salvadores a lhe enviarem dinheiro.
O dinheiro que obtém dos golpes nos bons samaritanos que o acodem
serve para pagar o tratamento da mãe, internada em um sanatório com
Mal de Alzheimer. Um anti-herói detestável, Victor demonstra,
entretanto, um intenso sentimento de solidariedade aos companheiros de
trabalho e não quer que a mãe morra, embora não sonhe com sua melhora.
Mesmo assim, o autor adverte logo nas primeiras páginas que seu livro
é a biografia de alguém que nutre um profundo desprezo pela
Humanidade.
Transitando pelo mesmo universo sombrio dos personagens de Clube da
luta, como os grupos de ajuda anônimos, Victor tem um emprego tão
insólito quanto seus hábitos sociais, trabalhando num museu a céu
aberto em que todos os empregados usam trajes de época e fingem estar
congelados no ano de 1734. Entre as punições dadas a quem se comportar
como se vivesse em outro século, como, por exemplo, esquecer-se de
tirar o relógio do pulso, há castigos físicos e humilhantes. Victor
suporta tudo com suas observações cínicas e sarcásticas, que só não
são suficientes para protegê-lo da verdade sobre sua origem.
Quando em 2002, o autor lançou
"Lullaby, a novel" (aqui no Brasil lançado pela
editora Rocco com o nome "Cantiga de Ninar"),
Palahniuk declarou em entrevistas que este é o seu livro mais
impactante pelos signos contidos, pelas simbolizações de força, de
magia que faz com que crianças morram. De fato, o livro marca um
diferencial acentuado na obra de Palahniuk. Em "Cantiga de Ninar" Carl
Streator é um repórter solitário e viúvo que recebe a tarefa de
realizar uma série de artigos sobre o que chamam de "Síndrome da Morte
Infantil Súbita". Durante a investigação ele descobre uma ligação
sinistra: a presença, em todos os cenários das mortes destas crianças,
de antologia "Pomas e rimas ao redor do mundo", aberto na página 27
onde está impressa uma cantiga africana. Não demora para o repórter
descobrir que a canção é letal quando falada ou até mesmo pensada em
direção a alguém. O que acontece é que a canção, depois que penetra no
cérebro de Streator, acaba tranformando-o em um assassino compulsivo.
Assim, ele se une a Helen Hoover Boyle, corretora de imóveis
especializada em vender casas assombradas (e a recomprá-las, muito
abaixo do preço depois que as manifestações assustadoras incomodam os
proprietários), e junto com Mona Sabbat, uma estudante de bruxaria e
assistente de Helen e o ecoterrorista radical conhecido como Ostra,
namorado de Helen, responsável por chantagens e ações indenizatórias
fraudulentas contra dezenas de empresas, partem em uma viagem pelos
Estados Unidos a fim de destruir todos os exemplares do livros das
bibliotecas, para que suas conseqüências não se espalhem e eliminem a
raça humana.
O que não se demora para perceber com a leitura deste livro é que o
thriller de horror – apesar de muito bem executado – é só
um pretexto para mais uma vez expor as críticas do autor a uma
sociedade de consumo desenfreado e excesso de informação: verdadeiros
"musicômanos", que se entretém com modelos prontos e alienantes de
diversão ("Em todo caso, hoje ninguém é mais dono da própria mente.
Você não consegue se concentrar. Não consegue pensar. Sempre há algum
barulho se infiltrando. Cantores gritando. Pessoas mortas rindo.
Atores chorando. Todas essas pequenas doses de emoção.").
Em "Cantiga de Ninar" o autor diminui um tanto, por exemplo, sua
descrição dos vícios sexuais, mas nem tanto assim (há um personagem, o
escroto enfermeiro Nash, que não hesita em abusar sexualmente de
cadáveres de modelos que ele é encarregado de recolher). De resto, a
violência gratuita foi amenizada, os psicóticos são absolutamente
todos e a anormalidade é embalada para consumo e prontamente aceita.
Ser capaz de radiografar com esta precisão revestida de ironia tão
corrosiva a sociedade moderna atual é o que faz a obra de Chuck
Palahniuk arregimentar uma profusão de fãs a cada livro lançado.
Embora seja um autor sobre o qual freqüentemente possam desabar
críticas do tipo de que a literatura que produz não é o reflexo do que
vê, mas exatamente o produto, é o tipo de risco a que obras assim
devem se mostrar dispostas a correr. Na realidade, a obra de Palahniuk
abre muita vazão a análises deste tipo, uma vez que sempre poderá ser
encarada como incentivo, como agregadora de grupos perturbados o
bastante tal qual os que se motivam por "ideais" como os propagados em
"Clube da Luta" e que não enxergam na obra de Palahniuk a ácida
crítica, a condenação, a metáfora travestida de simples entretenimento
– pensam que estão diante da adoração, da divulgação de práticas e
princípios por vezes doentios. Assim, e por este motivo, fica tão
fácil atrelar o nome de Palahniuk a uma literatura de estranhamento
(como deveria ser toda arte?), a observar como se tornou um dos
autores undergrounds mais populares da atualidade, com centenas de fãs
espalhados pelo mundo.
Palahniuk denuncia com humor ácido e ironia inteligente a decadência
de uma sociedade consumista e sem ideais. No entanto, é mais do que
necessário saber até que nível esta "fobia consumista" do autor não
encontra paradoxo no próprio resultado final de seu trabalho. Afinal,
não obstante o fato de terem um extraordinário número de vendas (o
que, em último grau não deixa de ser um consumismo pelo novo, pela
mais nova "modernidade literária"), também gera seus subprodutos e
dividendos para o autor, tais quais as cinco obras suas que já estão
em produção para serem adaptadas para o cinema, em graus mais ou menos
adiantado de produção: "Sufoco", "Survivor", "Diary", "Invisible
Monsters" e "Lullaby". Não deixa de ser a hiperinformação, mesmo que
repleta de excelentes qualidades literárias, pronta para consumo.
ALESSANDRO GARCIA é escritor e publicitário. Lança em 2006 a novela
"Submersão" no livro "Prosa de 4 Cantos" (Ed. Fósforo) e o livro de
contos "A Sordidez das Pequenas Coisas" (Ed. Fósforo). Escreve também
no blog Suburbana [http://suburbana.blogspot.com].
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