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Ilustração de Paul Klee
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E uma rosa amarela.
Lúcia Evangelista
“Chora no meu enterro, por favor”. Suspirou. “Promete, que
chora”. Insistiu. E me abraçou, sem nem ela mesma saber porque.
Sem saber direito quem eu era, sem saber direito como havíamos
chegado até ali. Cinco minutos já haviam se passado de nós dois.
Cinco longos minutos em que dividimos tantas coisas que para
explicar seriam necessários cinco outros minutos. Lembro que lá
pelo um e meio havia lhe contado que nunca chorava por nada. Por
nada. Nem quando minha mãe morreu, chorei. E eu gostava da minha
mãe. Não aquela coisa freudiana descabida. Aquela sacanagem
disfarçada de pouca vergonha. Afeto, mesmo. Carinho, essas
coisas que, um dia numa conversa entre amigos, alguém poderia
falar que existia e ninguém ia bolar de rir. Acho que fazer amor
ficou brega na mesma época que mãe deixou de ser mãe e virou a
primeira rapariga de nossas vidas. Edipianismo escroto. Até o
nome é escroto. Amor vira uma trepada mal dada e mãe uma filha
da puta, o que acaba comprometendo também nossa avó. Adão deve
ter uma raiva da porra de Édipo. Já pensou, fazer o caralho a
quatro e uma projeção de merda acabar levando todo o crédito do
desmantelo do mundo. É covardia. Pensem bem, o cara avacalhou o
paraíso, o paraíso, minha gente. Não foi uma família, uma
sociedade, uma época, foi O paraíso, o ideal de todo cristão.
Sem falar que Adão usou uma gostosa que estava lá dando bobeira,
não foi apelar para a própria mãe. Ou para o pai que seria muito
pior. Édipo é um covarde, disso eu não tenho dúvida, isso não se
discute, como nada aqui se discute, como não se discute minha
seca. Eu nunca chorei, nem pela minha mãe. Meu pai não deixou
memória. E se deixasse não me tiraria uma lágrima. Homem
agreste. A única água que sai de mim é estéril de qualquer
sentimento. Não semeia amor, não planta dor. Água sêmen que
semeia nada. Já a lágrima não há sem verdade e sem ter verdade,
jamais poderei chorar. Nem no seu enterro, meu bem. Muito menos
no seu enterro. Me peça para cortar meu saco e entregar em papel
de festa para você, mas não me peça para chorar por sua morte.
Se não sei chorar pelo que em mim ainda vive, o que dirá pelo
que está morto. Pelo que nem sei quando virá. Como virá. Se
virá. Sim, porque a maior bobeira da face da terra é pensar que
todo mundo está fadado a morrer. Quem disse? Há algo escrito,
alguma lei, alguma porra de escrito que indique que vou morrer?
Deus contou a você esse segredo por acaso? Pois quem garante que
eu vou morrer, que você vai morrer. Essa guapa dentro do meu
quarto eu dentro dos seus quartos, um dia, todos esses tons de
rosa, em cor de cinza, quem garante? “Chorando no meu enterro.
Só assim saberei que é amor ou algo do tipo o que você sente por
mim”. Uma gota de prova de amor. Mulher essa que pede isso?
Insanidade fêmea, a calcular a gravidade da lua. Tentando
entender o que há naquilo que não existe. Lutando para segurar
entre os dedos um resto de pó de pirilimpimpim que sobrou de seu
último encontro romântico. Insanidade fera, a agarrar, com unhas
em esmalte vermelho no.13 e dentes recém clareados, o mesmo
direito que teve Branca de Neve de viver para sempre ao lado de
seu Príncipe Encantado. Todas querem ser Julia Roberts, mas
nenhuma imagina que ao final do filme, ela pega suas coisas, sai
do estúdio e pronto. Sozinha. Infeliz. Como todas as mortais
pretty womans. É por essas e outras que não posso chorar você,
meu amor. Meu amor de pouco mais de dez minutos. Estendida aqui
no meu braço a suplicar, a rastejar implorante que eu a chore.
Ela não acredita que o efêmero pode valer mais que anos luz
somados. A beleza do efêmero é algo de doer, sabia? E fica essa
guapa louca linda e frígida, pelo que pude notar até agora,
falando coisas que nada têm a ver com o meu falo e isso me
fadiga porque doze minutos são demais para escoarem num pedido
patético enquanto poderiam se esvair pelas pernas em apelo, a
púbis, a pêlos. Quero cavalgar em um pônei branco. Quero ser o
Príncipe vestido a Elton Jonhn montado no pônei branco para
salvar a mocinha da clausura do felizes para sempre. E rodar
entre castelos de playmobil e pular na piscina da Barbie e um
chá naquele velho jogo de plástico, porque não? Para que ela
entenda que seu homem ideal, aquele que sua mãe um dia prometeu,
o seu Bob, o seu Ken, esse homem sou eu. Sou eu até que eu me
canse vista o meu jeans e saia pela porta rasgando o papel com
seu número anotado. E nas próximas 48 ou 72 horas seguintes, ela
ainda passará meu terno preto, ainda encomendará uma bela coroa
de rosas amarelas e verificará se o caixão e tudo mais está ok e
terá o cuidado em deixar à mão um estoque de lenços. Mas o
telefone não vai tocar. E essa será a sua morte. A única morte
que sentirá. E não estarei lá para chorar em seu enterro. Ah,
não estarei.
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