|

Ilustração de Paul Klee
|
 |
Um homem de hábitos simples
Renato Rosa
Carlo era muito rico, de família, herdeiro de fábricas, lojas,
conjuntos comerciais, apartamentos, muitos ele alugava e vivia -
como se dizia antigamente - de rendas, uma mentalidade típica do
anos 40 e 50. Carlo era solteiro, fumante e bebia muito com seus
amigos durante toda a semana. Morava sozinho num pequeno
apartamento de uma movimentada rua de sua cidade, um quarto e
sala, com cozinha e banheiro separados e uma pequena área de
serviço onde lavava suas cuecas com sabão em pedra. Suas roupas
eram sempre as mesmas, dava a impressão de que nunca tomava
banho, apesar de seu aspecto completamente asseado, fora o
amarelado dos dentes. Roupas cinzas e brancas, cinza escuro a
calça, branca a camisa, lavável, um cinto de couro negro, com
rachaduras e o sapatos fechados com cadarços em tope. Quando o
salto gastava esperava pacientemente no sapateiro a troca por
sola inteira, era a extravagância máxima que se permitia. Magro,
graças a um cardápio resumido de feijão, arroz, eventualmente
batatas no vapor e uma invariável salada de alfaces que ele
mesmo preparava. Carlo teve uma longa viva, rondada de perto por
diversos sobrinhos. Quando morreu, deixou parte de seus bens
para a Santa Casa de Misericórdia de sua cidade porque tinha a
firme certeza de que quando morresse iria para o céu. Essa
garantia ele possuía desde sempre. Contribuía com a caixinha da
igreja a saída da missa domingueira, quase sempre moedas que lhe
sobravam das poucas vezes que andava de ônibus e elas lhe
chegavam como troco. Como era um homem de hábitos simples foi
enterrado com sua calça cinza e sua camisa branca. Um dos
sobrinhos fez questão de apertar-lhe bem os sapatos, dando um nó
duplo no laço para que esses nunca lhes faltassem lá para onde
iria.
|