Ilustração de Paul Klee

O FOGO


As fagulhas espocam nossos sonhos em perdigotos de luz. A voracidade do fogaréu consumindo nossa história. O mundo está acabando. É finito o amor.
O céu sibilando luzes. Céu espaventoso. Nenhuma nuvem. Nem uminha. Nem uma que ao menos desfraldasse um véu diáfano num dos cantos do firmamento. Sentado próximo às labaredas, abduzido pela dança das línguas do fogo, hipnotizado por aquela energia lucifremente, pressentia as cargas de vibração dos movimentos de Lívia.
As chamas estalavam as nervuras da vida transformando a madeira e a matéria em halo, fumaça, espírito. O mundo acabara. Amor não mais havia. Eu mantinha um estado de fascínio pelas chamas. Minha idéia estava firmada num conformismo convicto dos caminhos do destino de uma relação afetiva. Nada restava. Os beijos se transformaram em agressões. A trilha sonora de nosso romance saiu do blues para o sertanejo pop. Nossa relação tendia a cafonice.
Lívia a princípio assumira convencida a decisão e agora se apresentava agoniada. Lançou nossas fotografias na fogueira e as chamas metralharam o ar formando ventos súbitos alimentados pelos despojos de um amor fenecido. Ela ensaiava lágrimas. Meus olhos não descolavam do frenesi das labaredas bailantes. Certa sinestesia vinculava meu espírito ao dela consentindo trôpegos derradeiros passos de uma longa convivência. Lívia estava agoniada. Eram três horas da madrugada. Do vazio, cães ladravam ao universo. Uivos que se faziam ouvir como premonições.
Contamos dois anos de um amor arrebatado por um carinho insaciável. Pesquisamos nossas conexões cármicas entre as praias da Ilha Grande e as montanhas e cachoeiras de Lumiar. Banhamos nosso afeto nos rios, aquecemos nossa paixão sob o sol do litoral.
Cruzando os jardins do planeta, deitamos sobre sonhos e confessamos nossa paixão ao cosmos.
Explodimos nossa felicidade com garrafas de champanhe ao nascer do dia na Pedra da Gávea. Nos abraçamos e suspirando e sorrindo nos entregamos observados pelas estrelas, acariciados pelos ventos, agasalhados pela floresta - um amor evidente às divindades, exposto ao palco da natureza, glorificado pelos elementos - perdêramos o pudor, o medo.
Meus olhos não se movem. Lívia não para. A sinestesia. Eu percebo os fluxos de sua energia, seus movimentos. Aflita, ela joga ao fogo nossos escritos, nossos temas e anotações, nossos poemas. Ela quer queu reaja. Não consigo depreender a alma da dança do fogo. As brasas aparecem cintilantes agora, como as estrelas. O frio aumenta na alma. Consigo mover o corpo para mais perto do calor. Aproveito para acender um cigarro.
Lívia suspira resignada. Nada de olhares. Não nos tocamos. Sabemos... O caminho está finalizado. Não há retorno.
O vôo está marcado para as dez horas da manhã. As bagagens estão arrumadas, as roupas guardadas, as providências tomadas e a fogueira estalando, consumindo nossa história e selando a separação.
A projeção da imagem da casa bruxuleante com o reflexo da luz da fogueira. Casa que construímos pedra a pedra. A cor das janelas, a disposição dos cômodos, os azulejos da cozinha, o tamanho do banheiro. Ambiente impregnado de nós. Não desejava mais morar ali. Depois da partida de Lívia, venderia a casa e remeteria a parte dela, como acertamos. Impossível continuar convivendo com aquele espaço. Todos os nossos fantasmas ali, presentes. Os cantos de nossos afagos, os lamentos convulsivos de nossas brigas. Os corpos demarcados no espaço dos quartos, da sala, do banheiro. O ritmo do cotidiano que arquitetamos.
Quando decidimos por uma relação compartilhada trazíamos outros amores gravados na alma. Vínhamos de afetos diversos. Passamos por casamentos, relações duradouras, namoros fúteis. Uma longa estrada percorrida de buscas. A infantilidade de amores vãos estava longe de nossa experiência atual. Pensamos em filhos, organizamos uma casa, projetamos um futuro fundamentado em nossa prática política.
Como é estranho não conseguir sequer beijar uma pessoa com que se possuiu intimidade física, corpórea, espiritual.
O fogaréu está resumido. Últimas brasas. Um filete de fumaça cinzenta se depreende de nossos despojos calcinados. Um arrepio me percorre. O canto de um galo estremece a manhã. A partir da linha do horizonte, uma luz avermelhada vai levantando o manto da noite tomando a atmosfera. Gorjeios, solos e solfejos dos cantos de pássaros tomam conta da alvorada.
Lívia agora dormia com a cabeça recostada sobre as malas e bagagens. Como é linda. Meus olhos fechados vertem um tanto de minha amargura. Imaginar para sempre nossos bons movimentos, nossas alegrias e vitórias. Manter vivos os sentidos que desenvolvemos e as coisas práticas da vida que juntos aprendemos. A convivência resulta impossível, mas todo aquele amor exercido somava um patrimônio sentimental que levaríamos para o sempre.
O amor é finito. Esse amor acabou. Mas o amor, a entidade do amor, a divindade, o sentido do amor está fortalecido no meu coração e no coração dela. O tanto de orgasmos e a mitologia que construímos estará trançada a nossas trajetórias. Eu nunca vou te esquecer. Eu também.
O táxi chegou. A bagagem está sendo carregada. As malas estão na mala do carro. Estamos suspirando. O mundo acabou. Nossas vidas começam agora. Estamos abalados, contudo seremos mais fortes. Continuaremos acreditando na superação das desgraças humanas pelo amor. Estamos nos reconstruindo. Não estamos destruídos.
Na porta do carro Lívia se vira e nossos olhos se beijam.



ALEXANDRE ACAMPORA é escritor com cinco livros publicados entre poesia, contos, crônicas e história.É carioca e está no estado do Tocantins desde 1998. Foi secretário de cultura da cidade de Palmas e atualmente é cronista dominical do jornal Folha Popular.