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O VELHO E OS SONHOS DE AMOR O velho estava assentado, cabeça caída sobre o peito, mãos imóveis sobre os joelhos, pernas juntas, sem ninguém saber se dormia ou não. - É assim que ele fica o dia todo, disse o enfermeiro para um sobrinho que viera visitá-lo. - Será que ele me reconhecerá? - Pode tentar. - Velho, ô velho, o filho do “seu” irmão Teófilo está aqui. Veio te ver. - Por que o chama de velho ? Ele tem um nome. É Lilico... Constrangido, o enfermeiro olhou de lado, pois fora apanhado na indiferença com que tratava todos os velhos do Asilo. Pediu licença e saiu em direção à sala de refeições. O sobrinho assentou-se ao lado do tio e abaixou a cabeça para tentar ver os seus olhos. Não sabia ao certo se estavam abertos ou não. Pareciam embaçados. O velho ouvira tudo aquilo e não tinha certeza se a conversa acontecera agora ou se era um sonho. Para ele a vida toda era um sonho. Por isto é que ele fechava os olhos para que os sonhos chegassem. Qual era o seu nome? O que era mesmo um nome? Nada disto lhe interessava mais ou tinha importância. De vez em quando, sentia que alguém o puxava pelo braço, colocava-o numa cadeira de rodas e dizia : Velho, tá na hora de comer. Vamos lá ao refeitório pra você papá. Sua boca era aberta quase à força e colheradas de uma sopa sem gosto lhe eram enfiadas. Engolia-as e deixava que um pouco escorresse pelo queixo e caísse sobre a camisa. Depois daquele ritual diário era levado para um jardim e à sombra de um fícus adormecia. Sonhava, sonhava os seus sonhos de amor. Uma jovem, ao piano, usando um óculos de grossas lentes, tocava uma peça de Listz: Revê d’Amour. Seus dedos pequenos e ágeis corriam sobre o teclado de marfim e uma melodia linda e perfeita tomava conta da sala. Ele, a um olhar dela, mudava a página da partitura. Buscava seu olhar que se fixava nas notas da pauta e somente no último acorde é que o olhava. Mas por timidez, ou por outra razão qualquer, ela não correspondia àquele olhar amoroso. Ele tentava cantarolar a melodia de Listz , mas em vão. -Pode parar. Você é muito desafinado. - Não tem ouvido? Escute, vou tocar este trecho novamente. Mas agora as notas o levavam para longe daquela sala, para longe da jovem pianista que admirava e amava em silêncio. O rosto maduro e forte de uma trapezista surgia à luz de holofotes que seguiam o seu balançar no alto de um circo Ela sorria, sorria para ele só, abria os braços e ao grito de “ JÁ” lançava-se no vazio, na sua direção, a queda era interrompida por suas mãos poderosas que agarravam um trapézio que lhe fora jogado. Palmas, música vibrante, luzes e palhaços que davam piruetas no picadeiro. Menino, ele olhava os pais e para eles pedia que comprassem o cartão de lembranças de Carmem Alzura, “ la mayor trapecista del mundo” O seu coração de oito anos amava aquela mulher e se pudesse ficaria ali, na arquibancada, olhando sua amada, balançando-se para lá e para cá ao som de uma linda valsa. Que o tempo parasse e que eles mergulhassem na eternidade daquele momento. - Tio Lilico, sou eu, o Orlando. Lembra-se de mim? Pela primeira vez Lilico levantou a cabeça e olhou seu sobrinho. Por um momento seus olhos adquiriram vida e ele pareceu reconhecer o sobrinho, enquanto o esboço de um sorriso surgiu na sua boca desdentada. Mas foi só um momento. De novo, sua cabeça caiu sobre o peito. - Não adianta. Eu disse ao senhor. Agora ele vive noutro mundo. Só o corpo está aí, mas por onde anda sua alma, ninguém sabe. Orlando conformou-se e foi indo embora. Na escada do jardim parou um pouco e tomou na mão um botão de rosa vermelha que desabrocharia logo. Ele não estaria ali para ver aquela rosa no esplendor da sua beleza, pensou; e muito menos para ver a face final do seu tio Lilico na máscara inconfundível com que a Morte modela todos os humanos. Preferia lembrar-se dele como o maior meia esquerda que o Nacional Atlético Clube tivera nos anos 40 e 50. Lilico, que dominava a bola como ninguém e que depois de driblar seu marcador para a esquerda e para a direita até que ele caísse no chão, sentava sobre a bola para alegria dos torcedores. Orlando filosofou de como era triste a condição humana, a condição de toda criatura, inclusive daquela rosa. Por um momento de esplendor, de beleza e gloria valeria a pena passar pelo que seu tio passava e pelo destino da rosa ? Consolou-o as últimas palavras do enfermeiro “ por onde anda sua alma, ninguém sabe. “ Quem sabe ela o leva para o campo do Nacional, para os dias de grandes jogos ? Era só o que seu sobrinho podia pensar. Ele não poderia suspeitar que ela o levasse para bem longe do seu corpo decrépito; para os sonhos de amor. E isto valia a pena.
ANTONIO RIBEIRO DE ALMEIDA nasceu aos 20 de
setembro de 1935 em Visconde do Rio Branco,
Minas Gerais. Fez Curso de Filosofia na
Faculdade de Filosofia da UFMG, Belo Horizonte.
Em 1968 transferiu-se para Assis, São Paulo,
onde lecionou Psicologia Social e de 1970, até
sua aposentadoria, ensinou a mesma disciplina na
Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de
Ribeirão Preto da USP. Fez pós doutoramento na
University of Hawaii junto a Arthur W. Staats.
Após sua aposentadoria trabalhou ainda na
Faculdade de Filosofia de São João del Rei e no
Departamento de Psicologia da Universidade
Federal de Uberrlândia. Reside em São José do
Rio Preto onde colabora com a imprensa local. É
autor de "Contos do Entardecer", 2002, Ed.
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