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Ilustração de Paul Klee
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O relógio
Paulo Vitor Grossi
Todo um aparato de palavras e estilo e gêneros literários para
empregá-las seria inútil neste caso, o caso do relógio.
É um senhor que escreve. Na sua cama estão os livros abertos e
blocos para anotações. E na sua estante, um relógio.
Mas certa vez, num dia ensolarado e escaldante de janeiro, ele
teve de sair para ir ao centro da cidade resolver soluções
profissionais. E como mora longe, no interior, teve de andar e
depois ir de trem, sempre correndo contra o relógio.
Para tanto, ele precisaria de uma distração que não fosse
somente o jornal, e essa veio sob a forma de um walkman, um
antigo e empoeirado walkman. Mas pra utilizá-lo, ele teve de
arrumar pilhas novas, as quais só se encontravam num objeto: no
relógio.
Suspense para o mistério, susto para acordar. Ele, o
despertador, embutido no relógio, fazia parte das 8:30 da manhã,
hora em que trazia de volta do mundo dos sonhos o senhor a que
nos referimos anteriormente. Ele se arrumou e foi, deixando
morto aquele relógio.
Tic tac? Ti ti? Tum tum? Tudo leva ao relógio. Ele tirou a força
da hora... ó, parou o tempo! , que nada, apenas tirou as pilhas
e largou
o relógio. Deixou-o de costas e virado para o chão a repousar.
Ele ficou ali, ali, na estante, sem ação, sem função. Então,
papel é papel, caneta é caneta?... Isso é o que aquelas palavras
realmente dizem: não há literariedade neste fato, nem filosofia,
apenas o ato de desligar o relógio para colocar as pilhas noutro
local. Assim, o relógio é relógio.
Pronto. Ele ouviu a música. Andou. Voltou. Retirou as pilhas.
Religou o relógio. Fez renascer um ciclo... Facilmente colocou o
título de O relógio.
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