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Ilustração de Paul Klee
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A MULHER INVISÍVEL
Quando ela entrou no consultório foi logo dizendo:
- Doutor, eu sou invisível.
O médico não a tinha sequer cumprimentado, e era seu costume
cumprimentar todos os seus pacientes, apertando a mão e
convidando para sentarem-se. Era um homem educado, apesar de ser
um médico bem sucedido.
Assustou-se.
- Eu não disse que sou invisível?
Ainda perplexo, ele não respondeu.
- Viu? Ninguém me vê. Nem o senhor.
O médico acalmou-se. Não parecia estar correndo perigo.
- Não é verdade; eu estou a vendo.
Ela colocou as duas mãos no rosto, abaixou a cabeça, e disse:
- E agora?
- Continuo vendo a senhora.
- Não acredito.
- Por quê?
- Porque ninguém me vê.
- Como assim?
- Ninguém me vê.
- Mas eu a estou vendo.
- Fala isso só para me agradar.
O médico ficou pensativo. Em mais de vinte anos de consultório,
jamais tivera um caso parecido: uma senhora de sessenta anos
brincando de ser criança. Já tivera inúmeros casos tanto de
adultos quanto de crianças, com características e quadros os
mais diversos possíveis, casos de surto mesmo, mas nada que se
parecesse com uma mulher madura fingindo ser criança.
A mulher repetiu:
- Ninguém me vê.
- Por que as pessoas não vêem a senhora?
- Porque eu sou invisível
- Não é verdade. A senhora está muito visível, aqui na minha
frente.
- Como eu sou, então?
O médico passou a descrevê-la detalhadamente, falando dos
cabelos, do nariz, da boca, do batom, da blusa, cuidando-se para
não fazer nenhuma observação negativa. Ele sabia que as pessoas
não gostam de ouvir nada que não seja agradável, mesmo que
perguntem e exijam sinceridade. Sinceridade é dizer que está
tudo bem, mesmo que seja mentira.
Tudo estava bonito. Era um médico educado e experiente, e a
cliente estava pagando, sem convênio.
- Então só o senhor me vê.
- As pessoas de sua família não a vêem? Seu marido, seus filhos?
- Não. Todos chegam em casa, passam por mim sem me ver.
- É sempre assim?
- Sempre. Todos entram, não importa que eu esteja na sala, no
sofá, em pé, no piano. Não importa onde eu esteja ou o que
esteja fazendo, ninguém me vê.
- Não conversam com a senhora?
- Se eu sou invisível...
- Ah, havia me esquecido. Se não a vêem, não podem falar.
- Pois é.
- Mas foi sempre assim? Quer dizer, a senhora sempre foi
invisível
- Não. Eu fiquei invisível depois que comecei a envelhecer.
Antes todo mundo me via, conversava comigo, abraçava, beijava.
- E foi de uma vez?
- Não. De uns tempos para cá, talvez uns quatro ou cinco anos,
aos poucos eu fui ficando assim. Meu marido foi deixando de me
ver, não falava mais comigo, não percebia que eu estava na casa.
Aos poucos também meus filhos, foram me ignorando; hoje eles nem
vão mais à minha casa. Não me viam mesmo, para que irem lá?
O experiente profissional começou a entender.
E por ser um homem de princípios, sugeriu à senhora que
aconselhasse o marido a comparecer ao consultório, porque o
problema era com ele. Depois, poderia chamar também os filhos.
A mulher ficou contente, até porque ele disse que ela era mulher
bonita, era uma pena que o marido estivesse com problemas de
vista.
Saiu animada do consultório, despediu-se da recepcionista, que
respondeu sorridente, e levava na cabeça a sugestão do médico: o
marido haveria de comparecer para uma consulta.
O médico ficou sozinho na sala por alguns minutos, pensativo,
sem chamar o próximo paciente. Esforçou-se para lembrar da
fisionomia de sua esposa, tantos anos suas companheira.
Fez um enorme esforço, apelou para recursos que sempre utilizava
para se recordar de nomes, de números, mas não obteve sucesso.
Por mais que se esforçasse, não conseguiu se lembrar; parece que
não a via há muito tempo.
JAIR HUMBERTO ROSA é
autor do livro de contos O Sujeito.
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