|

Ilustração de Paul Klee
|
 |
Do lado de fora
A coisa que eu mais queria na vida era entrar nesse supermercado
e empurrar um carrinho.
Todo dia é a mesma coisa : chega um me dá um feijão, outro não
dá nada e outros ficam resmungando. Com o estacionamento cheio,
eu tomo conta dos carros na rua. Sempre ganho, não posso
queixar, mas eu queria mesmo é rodar lá dentro, escolher as
coisas, nem precisava ser de luxo. Se o carrinho fosse daqueles
que leva menino em baixo melhor ainda.
Tem dia que vêm uns caras querendo tomar o lugar da gente, sai
porrada; até pra pedir hoje tem que brigar.
A vez eu tenho vontade de ir embora pra casa. E se chegar lá e
não der certo, ter que voltar e ainda perder a minha vaga? Eu
queria ver minha mãe, meus irmãos, meu... – eu nem sei se é meu
filho, eu gosto dele assim mesmo, meus amigos negam que é, minha
mulher diz que quer cair morta, e eles falam que tem um exame
novo que faz no hospital que mostra quem é o pai, mas é o juiz
que decide, que se for filho é filho mesmo, e vai lá saber se é
o pai só de olhar no papel?
Eu também não queria voltar com a mão abanando.
Não sou letrado, nem burro também não sou. Sei ler um jornal –
meio arrastado mais vai. Eu agarro – tem vez, quando topo com
uma palavra diferente, igual outro dia que em vez de João ou
Pedro os nomes dos caras eram Fulano e Sicrano. Eu pra mim um
era irmão do outro.
Já tive carteira assinada e fiz tiro de guerra. Mas de uns
tempos pra cá andei a desandar com as coisas ; por isso muita
gente fala que eu tenho miolo mole.
Eu fico pondo atenção nos fregueses, olhando pra cara deles e
pros carros. Conforme eu nem peço pra tomar conta. Uns se bobear
jogam o carro na gente. Agora – tem um ricaço que não passa
direto sem me dar nem que seja um troco. A mulher dele se me vê
torce o nariz e larga o homem conversando comigo. Quando ela não
vem junto, ele fala mais. E até goza de mim. Ele chegou um dia,
olhou e perguntou por quê que eu – dando um risinho - gostava de
ficar sentado com a bunda no saco de lixo o dia inteiro com a
cara mais boa do mundo. Eu não sei nada da vida dele, mas ele
tem jeito que foi pobre também. Sabe como que é, né ? Um
cachorro cheira o outro.
Tem gente que você vê que é fudido, que sai do supermercado com
a mão abanando, só pra ver as coisas, sem comprar nada, e você
vê que não é vagabundo. Aí eu até dou um pouco do meu.
As meninas do caixa não tem nenhuma ruim. Até mandam uns
negócios de comer quando olham pra minha cara e dão comigo
triste; e na hora que o gerente vai pro fundo, elas fazem sinal
pra mim correr e encher a garrafa d’água no bebedouro. Os
empacotadores são gente boa também, mas sempre tem uns sacanas
que se o movimento está fraco, o primeiro que eles é olham pra
mim, pra me tentar, igual num dia, o Dibanda, que eles chamam
assim que ele anda meio de lado, na volta da rua escondeu um
rato morto no meio das minhas coisas que eu só dei fé quando
cheguei em casa.
De uns tempos pra cá tem um negócio renitente na minha cabeça. É
a moça do guarda-volume. Eu nunca vi uma mulher tão tal-e-qual a
minha. A vez eu até acho que uma é gêmea com a outra.
Mas o pior de tudo é de noite em casa que eu não tenho ninguém
pra conversar. Ainda mais eu, a vida toda vivendo numa casa
cheia, gente entrando e saindo, tudo comendo junto, dormindo em
qualquer lugar, uma farra só. O melhor de tudo era no sábado –
tinha sempre uma laje pra bater na casa dum. Eu levantava cedo.
Cada um levava uma pá e uma lata de banha pra carregar massa.
Pegava firme até acabar. Não tinha laje grande porque tudo era
igual, pobre, as casas tinham poucos cômodos. Do meio-dia pra
tarde as mulheres e os meninos apareciam, o pessoal acendia o
fogo e assava a carne. A música a gente mesmo fazia. E isso era
só o começo, porque depois de pronta, a laje virava o melhor
lugar do mundo. Uma casa com telhado é chic, mas não tem nada
igual quando a vida está ruim, você sobe a escada, senta
sozinho, deixa as idéias tomar conta, e só desce depois que
larga tudo lá em cima. É também onde a gente vai guardando as
velharias sem serventia mas tem dó de botar fora. É o lugar de
encher o varal com roupa colorida pra abanar no vento; de soltar
papagaio, das feijoadas, dos pagodes. O céu tem vez a gente
chega pertinho.
E foi depois de algum tempo, justo depois da cisma com o menino
que eu comecei a variar. Eu chegava em casa, saía ou subia pra
laje, mas nada de graça com ele. Eu sei que ele não tinha culpa.
Aí eu comecei a embaralhar nas coisas. Tinha dia que eu olhava
no espelho e não sabia quem que estava do outro lado.
Foi então que eu saí de casa com a roupa do corpo. Bati perna
sem parar, tomei chuva, dormi no tempo e acabei aqui no meio das
caixas de papelão e sacos de lixo. Os carros entrando e saindo.
Muita gente com cara boa. Umas (vai ver que só comem palha de
aço) te matavam ali mesmo. A vida é assim mesmo. Uns te dão água
e outros te dão rato morto.
Eu tenho medo, muito medo. Medo de ter pesadelo de noite. Não,
não é isso. Pesadelo todo mundo tem. É medo de não ter ninguém
pra bater no meu braço e me acordar.
Eu só queria andar lá dentro; não era pra encher o carrinho de
coisa. Eu só queria ir lá pra pedir dá licença, fazer
zigue-zague nos corredores, cantar as rodas nas curvas das
parteleiras, mexer com o cara da balança, torcer uma uva e
enfiar na boca sem ninguém ver, passar na menina do
guarda-volume e chamar ela pra dançar quando a gente ainda era
noivo.

JOSÉ DE ANCHIETA DE ASSIS ROCHA vive em Viçosa, Minas
Gerais, é professor, escritor, autor do livro de contos Morte
Póstuma (Armazém de Idéias-BH).
|