Ilustração de Paul Klee

Compreendi o Hemingway

Infelizmente,
a entrada no terceiro milénio
não se deu numa noite de 31 de Dezembro
quando os céus de todo o mundo foram iluminados pelo fogo de artificio.


Eu estava no emprego quando ouvi a notícia. Um colega de longa data, entreabre a porta do gabinete e diz de uma só vez. “Atacaram as torres gémeas em Nova York. Atacaram o Pentágono. Já caiu uma torre!”. “Mas, quem ?...” Fico sem voz. As lágrimas brotam imediatamente dos meus olhos, incontroláveis. Não tinha qualquer imagem à frente dos meus olhos que não a das twin towers, altíssimas e integras, o relevo mais marcante da linha que desenhava, no horizonte, a cidade onde passara a minha lua-de-mel. Não calculei o número de pessoas que estaria dentro dos edifícios, nem sabia que horas seriam, em Nova York. Ao fim e ao cabo, se me perguntassem, não sabia nada e, no entanto, o choque físico, ao ouvir a notícia, fora enorme, começara a tremer e a chorar, a chorar …

Lembro-me de ter que explicar às pessoas, que estive duas vezes naquela cidade e tenho por ela sentimentos especiais. Porque, enfim, apercebi-me de que a minha reacção era considerada excessiva, pensavam que eu estava a exagerar, os meus colegas, que espantados com a novidade que abalava o seu pequeno mundo, não adivinhavam nem de perto a dimensão da tragédia.
Lembro-me de ter ido para casa, apressadamente, pelas ruas estreitas e antigas, de me ter cruzado com os eléctricos cor de gema de ovo, que ainda circulam naquela zona da cidade. Lembro-me do calor dessa tarde e de ter parado, à frente das montras apinhadas das lojas de electrodomésticos, para ver as imagens da tragédia, entre transístores, relógios despertadores e aspiradores, em televisões antigas e cuja imagem era transtornada por mil interferências.

Nunca me esquecerei desse dia, dessa tarde, que marcou para mim, a entrada no terceiro milénio. Improvável, impossível, irrealizável. Mas, aconteceu. Afinal, os medos pânicos não são absurdos. Afinal, de facto, tudo pode acontecer. Mesmo em Manhattan, o núcleo super-protegido daquela cidade centro-do-mundo…

O meu medo de andar de avião, projectou-me, com facilidade, para dentro dos aparelhos sequestrados, para o lugar dos passageiros de destino impossível, para a angústia dos que compreenderam o que iria acontecer.

E, compreendi, finalmente, a citação feita por Hemingway, no início de “Por quem os sinos dobram”, porque os sinos dobram por uma parcela da humanidade e sim, uma parte de ti morreu também, e os sinos dobram por todos nós.

E, essa parte de ti, disponível para morrer com os outros, tem que existir sempre, e quando não a tiveres, deixaste de ser humanidade e passaste à categoria de animal sobrevivente … a quem tudo o que se passa, à sua volta, desde que não lhe toque ou às suas crias, é indiferente. Ser animal sobrevivente, para os animais, não é fácil, neste nosso planeta, sereno e azul visto de longe, mas que é, na realidade, conturbado e rubro como o sangue que corre, em cada ser vivo que o habita.
A tua humanidade exige mais que isso, muito mais. Terás que pedir a Deus, todos os dias, para seres maior do que tu própria, para te excederes …

Ainda nesse dia, ao longo das horas, em que vi, esmagada, e vezes sem conta, as imagens que passavam em todos os canais possíveis da televisão, recebi um telefonema do meu irmão. Uma clareira no meio das cinzas. Tinha-se reconciliado finalmente com a sua mulher, após meses de separação, ressentimentos e, saudade. Um clarão de lucidez o tinha envolvido e lhe tinha permitido distinguir o essencial do acessório, compreender que a sua mulher e os seus filhos eram afinal a razão de todos os seus actos sãos. E que não havia qualquer motivo, senão a vaidade, para a constelação de actos imbecis, egoístas e perdulários que vinha a praticar nos últimos tempos. Felizmente, encontrou-a, também, num momento de luz, e ambos puderam recuperar a sua vida.

Mas, as arestas da realidade, continuavam aguçadas e em choque. Nessa noite, a minha melhor amiga, apareceu-me em casa. No fim de um dia febril e eléctrico, depois de subir e descer a Avenida da Liberdade três vezes, fora a pé até minha casa, situada no outro extremo da cidade. Tinham descoberto no seu corpo, um ponto maligno. Estava cheia de uma coragem desesperada, de uma força louca que a impedia de descansar e de parar para respirar. Tinha-me escolhido a mim, e à minha casa como porto seguro. Amava demasiado a sua família, e era por esta demasiado amada. O que até este dia tinha sido uma benção dos céus, era agora uma causa de fragilização. Se os visse agora, partir-se-ia em pedaços, a coragem morreria nos estilhaços. Os que amamos são sempre a razão da nossa salvação, mas nem sempre são o caminho dessa salvação. O caminho, era a pessoa com quem ela conseguia rir de todos os obstáculos, de todas as fraquezas e de todos os medos, a sua melhor amiga, eu própria.

Mais uma perplexidade impossível para mim, que me tinha apercebido da enormidade de uma tragédia ocorrida noutro continente, e nada tinha pressentido da doença e do inferno pessoal da minha melhor amiga! No entanto, desta vez, já não havia espaço nem tempo para chorar ou me sentir esmagada, pois só eu podia agora ajudar, cabia-me agir sempre como quem tinha uma ilimitada fé na sua própria fé…

Passaram-se longas horas, longos dias. A minha amiga foi operada e salvou-se. A sua fé, a sua coragem e a sua força, possibilitaram-lhe uma recuperação a que os médicos chamaram milagrosa. Quando revelou o que entendeu, à sua família, já estava em terra firme, e não havia vestígios do naufrágio que tinha estado iminente. E, uma vez reconciliada com tudo, não ignorou o outro acontecimento desse Setembro…

Voámos as duas para Nova York, contemplámos os dois fachos de luz projectados sobre a linha nocturna do horizonte, no lugar onde antes víamos as torres gémeas. E, fomos, também, rezar e deixar flores no Ground Zero, pois a minha amiga era também uma sobrevivente daquele dia 11 de Setembro.

MARIA JOÃO DA COSTA é licenciada em Direito. O desejo de escrever acompanha-a desde sempre. Esse desejo tem sido não só um sonho, mas um amigo, que nunca me deixa só. Por isso o alimento.