Ilustração de Paul Klee

Cidade Invisível

Cheguei desviando charcos. Serpenteia no asfalto uma ranhura superficial e molhada. Estremeço ao compasso das gotas que debalde tentam limpar a rua. A chuva forte sede ao ritmo maior da metrópole, o som é monopólio da cidade. O céu às minhas costas, o chão me amassa as ventas, estremeço de novo, agora com a caçamba do caminhão que ameaça degringolar em instantes...
Lá em casa, circundando a incontinência veloz do centro da cidade, deve estar meu moleque, com fome...é a hora da janta. Enquanto penso nisto, o peso do pensamento, pelo meu enrijecido corpo se demora, o seu peso liquido, sob o controle d´água, escorre pelo bueiro. Nada vêem as pessoas que ao meu lado passam, eu não sei se o que vejo é isso mesmo, ou como os mesmos que nada vêem, sou eu, o mesmo, a passar, como tantos dias, a passar por ali e nada ver.
A saia é segurada antes de se levantar. O foco do raio laser brota das poças, vindas de cima, do néon quebrado do “r” da “drogaria”. Cobiço o chocolate da pequena. Pelas tantas a multidão se dilui, o transito dá lugar ao fim do expediente. As cabeças andam numa flutuação diferente, às vezes olham pra rua, mas quase sempre olham sem ver. Pessoas sem caras, sem nomes, reconhecidas tão só pelo conteúdo da carteira fechada ou pelas pessoas que sorriem nas fotos da mesma carteira, ainda fechada.
Eu também tenho uma história – para além daquela de dentro da carteira. Será que está história chega ao seu fim, agora e aqui? Eu que tantas vezes passei por aqui, tantas vezes perdi meu pensamento em alguma sombra de edifício, ou deixei isolada uma imagem nesse arranha-céu esquisito, nunca pude reparar quanta beleza há desperdiçada na presença distraída de nossa quase ausência.
De longe: não me vês, e muito provavelmente, nem de perto. Na cidade invisível: quem nela está, nela se vê? Eu queria durar pra sempre, e na verdade, nunca me vi sem existir, a eternidade pareceu-me uma condição bastante confortável e eu estava cômodo com a idéia de ser “eu” para sempre. A Terra continuará seu looping, as fantásticas músicas que marcaram uma década, crianças nascerão ainda, o idioma a profanar continuará, ao volume exato que teve sempre, na rotação constante de suas leis e números, tudo permanecerá exatamente como estava antes, depois e depois de eu viver.
Eu continuo ignorado pelos transeuntes que passam. Continuarão a passar, em ritmo cada vez mais lento, quando ao invés do Sol, uma estrela que ninguém vê ofuscada pela metrópole arrisque um pequeno brilho solitário do céu de São Paulo. Tenho a impressão de ter visto daqui uma estrela alta. Confesso que nunca até então havia parado, nem um segundo sequer, para olhar a distancia maior que se pode enxergar na cidade: a verticalidade da cabeça pra trás e o olhar reto, sem obstáculo, ao infinito e ao infinito caio...
Pelas marcas de asfalto no meu rosto, devo estar aqui há um bom tempo. Vim desviando charcos, evitando me molhar e cheguei aqui castigado pela chuva, castigado pelo fado. Ao meu lado, pára rápido, uma ambulância, de dentro dela sai um médico. Nos olhos dele enxergo, o assombro pálido, o reflexo imediato daquele que está de frente com a morte. Ele faz “não” com a cabeça, e me fecha as pálpebras. Eu não vou mais embora, agora também, não me interessa chegar a lugar nenhum... mas se pudesse passa por ali de novo, eu juro, guardaria a imagem daquela frágil estrela no meu peito como se fosse ela própria meu caminho na vida, meu sossego da vida, a minha própria vida...
 

HUGO ADRIÁN