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Ilustração de Paul Klee
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Cáguan
(yo quiero me quedar solita com usted)
Chove muito no sul da Colômbia. A umidade entra no corpo junto
com o calor e a gente fica quentando e esfriando, quentando e
esfriando o tempo todo. Assim não tem saúde que resista meu
velho. E olha que venho tanto por esses lados que já devia de
ter me acostumado. Tava até falando isso para um jornalista
japonês outro dia quando o táxi do 38 me jogou água suja nas
botas e eu fiquei fodido de raiva.
Mas você nem vai me perguntar como é que um porra de um matuto
goiano pode falar com um jornalista japa ? pensei que você fosse
me perguntar isso ... eu até tinha resposta pronta para dar mas
como você nem perguntou vou deixar por isso mesmo porque hoje tô
meio lesado e a porra da chuva não pára e eu tenho uns
desencontros marcados para marcar e isso depende de colocar o pé
na lama e cagar a céu aberto se preciso for. Porque afinal fazer
negócio com guerrilheiro ou com soldado do governo é tudo a
mesma bosta neste canto do mapa onde as rês se descarna no meio
da rua e as velhas descascam bananas no leito da calçada.
Apesar dos velhos, no fundo todo mundo aqui morre é muito cedo.
É que os velhos estão mortos e não sabem disso porque não tem
família aqui que não tenha ente querido que morreu por tiro ,
granada ou baioneta do inimigo. Todo mundo tem uma camiseta
sangrada pendurada no quarto de casa , um retrato descolorido de
filho/neto querido que foi chupar a umidade lá embaixo juntos
das raízes que vão dar no rio Cáguan.
Sei lá eu quando cheguei aqui da primeira vez e sei lá eu quando
que ouvi tiro pela primeira vez. Só sei que já cansei de ver
menino morto e mutilado, cansei de ver gente carregando pistola
na caminhonete, cansei de ver porco lambendo esgoto e soldado
fazendo a unha com facão . Cansei de ver as goteiras caindo nas
mesas do restaurante San Vicente ou de ver guerrilheiro exibindo
os Suzukis expropriadas dos donos das terras, esses mesmos
patrões que mascam fumo e folhas de coca e cospem nas portas das
escolas e rosnam para os políticos e falam das misses
venezuelanas .
Ah, sim ... o boné camuflado que uso não tem a ver com minha
simpatia ou antipatia pela guerrilha . Tem a ver que eu ganhei
esse boné da guerrilheira Natália e da combatente Valentina que
foram encarregadas de me vigiar no dia da entrega dos
prisioneiros que afinal nem foi aqui em San Vicente mas em La
Macarena num dia de São Pedro quando a cumbia tocava alto e a
guerrilheirada toda metia o pé no barro dançando, dançando e se
esfregando. Foi num dia que comi frango frito com o câmera Edgar
um carcamano de tv brasileira que entornou meio litro de Chivas
num copo de plástico e bebeu de babar nos beiços e enxugou os
beiços com a mão e me estendeu a patola dizendo que o Brasil é
lindo e a Colômbia muito louca.
Valentina e Natália me vigiaram , prenderam os cabelos longos
com fitas coloridas, saudaram o Ejercito del Pueblo , lembraram
da luta cubana em Sierra Maestra e passaram baton nas bocas
carnudas. Disseram ser lindas as centenas de bandeiras amarelas
e vermelhas que estavam na estrada, acharam lindo o enviado da
ONU que presenciou a entrega dos prisioneiros e me levaram
comida de primeira no lado de baixo do palanque onde o
comandante Jojoy discursava contra o imperialismo ianque.
Sujei minhas mãos de comida , lambi as pontas dos dedos, ganhei
um doce de banana de sobremesa e achei bela a melodia da sanfona
que tocava lá no palco que eu não via. Tive vontade de mijar e
foi bem engraçado ver a guerrilheira Natália me conduzindo mato
adentro até o lugar do mijo, umas fossas rasas e compridas onde
caberiam bem certinho os corpos dos inimigos ou dos prisioneiros
que cismassem em fugir. Mijei e quando estava voltando Natália
logo à frente me conduziu por caminho diferente ao da ida. Achei
curioso mas curiosidade demais não carece de pergunta. A gente
olha, observa, assunta . E Natália me conduziu até uma choupana
coberta de palha e enormes lonas de plástico escuro e ali me
apontou uma porção de caixas de madeira que pereciam ser caixas
de óleo . E Natália deu a entender, ainda com os olhos , que
gostaria que eu levasse uma daquelas caixas nos braços . E me
agachei para pegar . Ela também agachou deixando a Ak-47
recostada contra o tronco de sustentação da choupana. E quando
ela levantou a caixa comigo nossos olhos se cruzaram e eu nem vi
guerrilha, chuva , frango frito ou doce de banana. Só vi o boné
que agora é meu caído sobre a testa dela e vi que nos olhos dela
choviam muito e toda aquela água desembocava no Cáguan junto com
os parapeitos descascados das casas antigas com a terra e a
gasolina suja que escorria das plantações de coca e com o
esterco da boiada molhada. Natália, ela mesma , agora era uma
bezerra mansa e molhada, uma fruta que caiu com o aguaceiro .
Assim ela olhou e assim piscou dizendo “quiero me quedar solita
com usted”. E eu por medo , aflição ou ouriço no corpo fingi que
não entendi , fingi que Goiás é grande e maior que a Colômbia,
fingi que o Cáguan é o Tapajós e levantei sozinho a caixa
voltando pelo caminho que eu e ela havíamos chegado.
Levei , é lógico, a caixa para o lugar errado. Nunca que ela era
para ficar embaixo do palanque onde agora o comandante Reyes
discursava tendo o venerado Tirofijo como espectador. O negro
Acácio não gostou de que Natália me tenha feito levar a caixa
até ali , eu não entendi o que estava acontecendo e uma banda de
música começou a tocar. Lembrei de Pirenópolis, das procissões
de Goiás Velho e da casa velha da ponte. Lembrei que meu dente
doía, que era cedo mas já anoitecia e lembrei agora que Natália,
cabelos soltos, me estendeu seu boné ao ver minha cabeça molhada
dizendo com olhar singelo – é complacente que se diz ? - que eu
era um menino e que o boné era um presente dela e da Valentina.
Para que eu me escondesse dentro do mato quando quisesse
continuar fugindo ...

RICARDO SOARES é autor de
Cinevertigem, Record, 2005.
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