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Ilustração de Paul Klee
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AO DEUS-DARÁ
(FAMÉLICO)
para BIMA
“... nossos fantasmas que trancamos com
chave e cadeado, esquecendo de que não há paredes para
fantasmas...”
LUIZ VILELA
Olho o dourado das folhas, é outubro. O verde do capim que
cresceu após a queimada. Fogo transforma, água se transforma.
Farei cirurgia plástica na memória, lipoaspiração nas lembranças
e colocarei silicone na alegria. Spas são as maiores vergonhas
em países que necessitam de campanhas Fome Zero. O computador
precisa de tempo para gravar novos programas assim como o homem
precisa dormir para assimilar o aprendizado, não é assim? E a
memória dos peixes e das tartarugas?
Ouço Elis Regina e Cássia Eller. Discos de menos, mortes
precoces... Já vivi mais que elas, com quantos anos vou morrer?
Penso que a pior coisa que pode me acontecer é voltar à mesmice,
ao velho e cansado cotidiano. Afora isso, o que acontecer é
dádiva... Pior se não acontecer nada... Eu ileso? incólume? Não!
Quero e preciso adquirir novas marcas, cicatrizes, rugas. É o
preço de viver. Por enquanto só queimo o estoque.
A velhice é muito ingrata. Um velho tem pouco tempo quando mais
precisa dele: o corpo fica lento, a mente fica pachorrenta... Um
velho necessita de 40 minutos para um ato que na juventude fazia
em 15 minutos, não é assim? Porém, quem em sã consciência quer
voltar à adolescência?
Eu não trocaria a idade que tenho, e nenhuma que tive, pela
adolescência.
E se eu chegar aos 70? O que acharei da idade que tenho? Eu
trocaria os 70 pela minha idade atual?
A gente perde agilidade física e ganha o quê? Paciência?
Sabedoria?
Respostas.
Eu gostaria de não querer saber qual será o próximo capítulo.
Agora já foi, agora será. Quero só querer o agora agora.
Livrar-me de uma vez por todas! dos agora já foi, agora será.
Aqui não há grades, jaulas, gaiolas, aquários. Aqui não há
sordidez ou, se há, está embutida. Vou desembutir todos os
sentimentos, todos os fantasmas, tirar de debaixo do tapete as
sujeiras ocultas. Quem ocultou? Eu mesmo, preguiçoso que sou.
Eis a primeira confissão: sou preguiçoso, irado e repleto de
luxúria. Dos outros quatro estou livre.
Desligo o som e o computador.
Viuvez, vaziez.
Pausa.
umbigo da pedra
lágrima na perda
estilingue do tempo
remendo por dentro
Num vagão de metrô encarei uma menina que me encarou. “Qual
bicho você é?”, pensaram meus olhos, sabendo que nunca mais a
reveriam.
À revelia é que acontece este texto. Já lhe disse que estou
descascando batatas enquanto penso, recordo, anoto... por
enquanto continuo transparente, espontâneo e verdadeiro feito
criança.
Pronto. As batatas já estão cozinhando, estou digitando.
eu não gostaria que você morresse, não agora
quero viver intensamente este amor. Mas,
se você morresse agora, eu estaria livre
das preocupações: suas feridas seriam todas fechadas,
as cicatrizes apagadas,
você não correria mais nenhum risco: de afogamento, de
queimadura, de atropelamento,
de perder movimento ou membro. Se você
morresse agora, estaria livre do tédio que às vezes é viver.
E eu viveria quase feliz,
quase...
a sua morte carregaria
o meu pedaço mais delicado, essencial, generoso, solidário e
amoroso... Eu me transformaria numa
máquina, num simples objeto, aparelho, corpo.
E não teria mais medo nenhum
já que não temo por mim,
temia por você, meu grande, doce e único amor.
Ao ouvir tal declaração, ele berrou: “Vai tomar no cu! Porra!”
Fiquei vermelho feito pimentão e abaixei a cabeça. Por que isso
agora? Gostaria de me livrar das mais cruéis lembranças dele.
Lipoaspiração. Ele continua bem vivinho por aí.
Vou inventar um novo palavrão para extirpá-lo da minha memória
afetiva... Batatas prontas, palavras não.
Sou um vencedor, ganhei suculentas, deliciosas batatas. Meu
paladar se refestela, ou melhor, eupaladar me refestelo. O resto
– memória, pensamento, palavras – mastigo.
O contador de vantagens: engolir sapos, arrotar leões.
E mais não digo, que é para não perder o encanto nem o apetite.
Fecho a boca.

WAGNER MANGUEIRA, 40, é
autor de Prata, entre outros.
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