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Ilustração de Paul Klee
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A NOIVA
- É, meu filho, sua velha mãe não tem como evitar. Você, meu
único filho que me ficou, vai casar. Logo você, meu caçula, com
aquela jararaca ...
- Mãe, por favor ...
- Deixa disso, mulher ! Ele tem que fazer a vida dele. Um homem
precisa escolher sozinho o seu caminho. - intervém o marido,
irritado.
- Até você defende ela ? A mulherzinha me odeia, eu sei. Morre
de ciúmes de mim, coloca filho contra mãe. Mas eu já me
conformei com a traição de todos vocês, sei que o casamento é
inevitável, não tem mais jeito ...
- Não estou do lado de ninguém, apenas falo o que é certo.
Agora, larga de besteira e não enche o saco do seu filho. Tá
chegando o dia mesmo, te conforma, mulher !
As semanas se passam, até a esperada ocasião. De classe média, o
casal não havia planejado um casamento marcado pela ostentação.
Mas também não decepcionaria os convidados. Haveria uma recepção
após a cerimônia, no salão da própria igreja, que se localizava
no centro da cidade. Uma capela discreta, mas tradicional. Foi
escolhido um grande número de padrinhos, consequentemente
aumentando a quantidade de bons presentes. As pessoas que
estariam no altar, perto dos noivos, eram divididas igualmente
entre íntimas do casal e outras não tão chegadas assim, mas de
excelentes condições financeiras.
- Mãe, estou tão nervosa . Será que vai dar tudo certo ?
- Claro que sim, filhinha. Olha, já está chegando. Faltam
quantos dias mesmo ? Ah, é, vinte e dois, eu conto cada dia.
Você vai ver que vai sair tudo bem.
- Tem uma coisa que eu não consigo parar de pensar, que me
atormenta !
- Minha filha, já falei que está tudo certo. Tivemos hoje na
igreja e no bufê, semana que vem voltamos lá, está tudo
confirmadinho, arrumadinho, até a costureira tá adiantada.
- Não, mãe, eu tô falando da velha.
- Ah, filha, por favor ! Não me venha com este assunto de novo !
Você vai casar, não é ? É o que interessa. Além disso, cá entre
nós, ela já tem idade bastante avançada, e ainda por cima sofre
do coração. Não teve um problema outro dia mesmo ? Você vai ver
só, não vai ter que agüentá-la por muito tempo...
- Deus te ouça, mãe, Deus te ouça ! Só de pensar em ter ela tão
perto na minha vida daqui em diante, fico desesperada.
- 0 -
A casa fora arrumada para a ocasião. O fotógrafo se esmerava no
serviço, fazendo gracejos sem a menor graça para tentar relaxar
a elegante noiva. Quando depois de muitas e muitas fotos ela
resolveu apressá-lo, os pais a tranqüilizaram. Afinal de contas,
noiva que é noiva chega sempre em cima da hora, até mesmo
atrasada. Naquele exato instante, a pequena igreja encontrava-se
cheia de flores e gente. Alguns convidados estranhavam a
ausência do noivo, que normalmente chega antes e espera a futura
mulher com ansiedade, como se ela pudesse deixar de vir.
A sessão de fotos na casa da noiva termina, e o luxuoso
automóvel preto, alugado com motorista, se prepara para partir.
De repente, o primo do noivo, que era também um dos padrinhos,
chega correndo à casa. A noiva olha assustada para ele. Após um
curto silêncio, alguém pergunta:
- O que você está fazendo aqui ?
- A tia ...
- O que tem a velha ? O que ela aprontou desta vez ? - pergunta
a noiva, em tom agressivo.
- Ela morreu !
Os carros partem para a casa do noivo, que era bem próxima. A
nubente chora copiosamente, consolada pelos pais. Chegando ao
local, ela salta correndo, com seu enorme vestido, chamando a
atenção da vizinhança. Dentro da casa, alguns poucos parentes
cercam o corpo da mulher, estendido na cama. O resto da família
está na igreja e ignora o fato. O filho aperta a mão dela contra
o rosto, e chora como criança. A noiva se aproxima
silenciosamente por trás, arrastando seu véu, e o abraça. Ele
chora mais ainda. Logo todos ficam sabendo que foi um ataque
cardíaco rápido e fulminante, durante o banho. O vizinho, que
era médico, deu a notícia, e nada pôde fazer. De qualquer forma,
uma ambulância estava a caminho. Durante uns minutos, ninguém
diz nada. Depois, a noiva começa a falar baixinho no ouvido do
companheiro:
- Olha, eu sinto muito, de verdade. É uma tragédia. Mas ela está
descansando agora, vinha sofrendo muito com a doença
ultimamente, não é mesmo ?
Ele apenas assente de leve com a cabeça, algumas lágrimas ainda
escorriam pelo seu rosto.
- Sei que é muito difícil para você, mas a gente tem que pensar
em uma coisa. Por favor, escute o que vou dizer. São sete horas,
a igreja deve estar lotada, as pessoas impacientes. Pessoas que
se importam conosco, também, e que amavam ela. Nós temos que ir
agora. Quando acabar a cerimônia, a gente volta ...
Ele a olha nos olhos, e não consegue falar nada. O pai dela, que
havia escutado quase tudo, repreende-a discretamente com um
sinal.
- Por favor, me ouça, nós temos que ir.
Desta vez, ela fala mais alto, angustiada, e quase todos os
parentes da falecida escutam. O ambiente fica tenso no apertado
recinto. Ela insiste mais uma vez, até que se descontrola:
- Ou você vem comigo agora ou nunca mais olho pra você !
O noivo, finalmente, se manifesta:
- Sai da minha casa.
- O quê ?
- Saia da minha casa, agora ! Vai, porra !
- Seu idiota, sabe o que está dizendo ?
A velha morta era a única pessoa a não tentar apaziguar o ânimo
entre os noivos. De nada adiantou, porém, a intervenção dos
parentes, pois a menina perde a linha de vez, gritando pra
falecida:
- Safada, miserável, mesmo morta acaba com a minha vida !
- Calma, pelo amor de Deus, filha, olha o vexame !
- Me solta, esta velha desgraçada ! Ela fez isso pra acabar com
meu casamento !
E a noiva, toda de branco, sai correndo e gritando pelas ruas
mal iluminadas do bairro.

ANDRÉ CALAZANS é analista de projetos, carioca, e tem 39
anos. Possui um livro de poesias publicado, e já participou de
diversas antologias de prosa e verso.
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