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Ilustração de Paul Klee
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Retrato em preto e branco
Ele me mandou um auto-retrato. Maldade pura, fazer isso comigo.
Há cerca de seis meses eu o deixei. Não porque fosse minha
vontade, mas por pura vaidade. Traída! Traída em meus
sentimentos, em meus princípios, em minha arrogância de mulher
culta e emancipada. O Natal se aproxima, e quando vi aquele
pacote todo enfeitado de vermelho e verde, com figuras
natalinas, não resisti: abri sem nem ao menos querer saber quem
tinha enviado. Depois eu vejo quem foi. Um quadro. Um quadro e
um sarro. Desgraçado, deve estar rindo muito de mim. Com ar
arrogante, ele, lindo, de perfil, olhando o ovo – sua cria –,
pintando uma ave de mau agouro, negra como noite sem lua – eu,
sua criatura – .
Filho da puta! Filho da puta! Arda no inferno mil vezes, seu
cretino!
Maldito o dia em que nos conhecemos! Maldita nossa primeira
trepada! Maldito o dia em que nos deixamos! Maldito o quadro que
você me enviou! Maldito esse ventre intumescido chutando minhas
entranhas. Maldito amor que me penetrou! Bendito seja o fruto –
ovo! Não! Não voarei em agouro negro! Não! Gozarei, macularei
lençóis em meu gozo solitário de ave de rapina!
Hoje pela manhã enviei seu presente, embrulhado na tela negra e
branca, molhado no vermelho do sangue rubro. Toma teu fruto,
filho da puta! Bicou-me a noite toda, tive que arrancá-lo de
dentro de mim!

Thaty Marcondes
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