Ilustração de Paul Klee

O nascimento de uma assassina

Sábado, dia 25 de janeiro de 2003, 22:36 h...

O som do salto alto quando se choca com o piso de cerâmica chama a atenção do porteiro. Ele apenas vê as ancas dançantes que emolduram o lindo vestido vermelho, que acompanha o gingado invulgar de sua dona. Lá está ela, esperando pelo elevador, que a levará ao encontro de mais um de seus inúmeros clientes.

Rachel, se é que podemos chamá-la pelo seu nome de guerra, não está há muito tempo nessa vida tão comum a tantas e tantas pessoas, sejam mulheres, sejam homens, sejam travestis, sejam o que for mais cômodo para a sua imaginação.

Ela caminha há passos vigorosos, altivos, é a dona da situação, verdadeira loba cercada de cordeiros. E ela gosta disso, sente que nasceu para o que está fazendo. Rachel, Rachel, tu sabes mesmo por onde andas? Sim, ela sabe ou, pelo menos, pensa que sabe.

O elevador, enfim, chega para pegar a dama da noite. O porteiro estica o pescoço para dar a derradeira olhada naquele monumento de mau caminho, já que pedaço é muito pouco para Rachel. Antes de apertar o botão do sexto andar, ela se olha no espelho do elevador. Tudo em ordem, ela pensa. Esboça um sorriso.

Aperta o botão.

A porta pantográfica range ao se abrir. Rachel sai do elevador e caminha em direção ao apartamento 601. Toca a campainha, que faz blim-blom, blim-blom.

Rachel nota que alguém se aproximou da porta e a está observando através do espelho mágico. A porta se abre.

_ Boa noite... Rachel. É esse o seu nome, né?

_ Sim, meu bem.

_ Eu sou Arnaldo - diz o cliente, enquanto inclina o rosto para dar os tradicionais dois selinhos nas faces da profissional.

Arnaldo é um homem relativamente baixo, não deve ter 1,65 metro, uns cem quilos, mas tem um certo ar de elegância, traços finos, nariz aquilino, maçãs proeminentes enfeitam seu rosto redondo. Anda com desenvoltura, apesar do corpo roliço, não aparenta seus sessenta e poucos anos.

O acerto financeiro desse tipo de serviço costuma acontecer antes do finalmente. Rachel gosta de manter a tradição nesse quesito. Recebe o combinado anteriormente e guarda a féria na bolsa prateada.

O gorducho oferece licor de menta a Raquel, que não hesita em aceitar. Ela sorve o líquido verde fazendo biquinho, saboreia a bebida em todos os cantos da sua língua. Rachel observa o seu cliente, percebe que não se trata de alguém vulgar, mesmo tendo lhe oferecido licor de menta. Ela até gosta dessa bebida.

Finalmente ela deixa o líquido descer pela garganta, o que lhe proporciona o primeiro prazer da noite.

Arnaldo liga o aparelho de som, pergunta se Rachel gosta de Julio Iglesias, ela diz que sim, talvez por educação, talvez porque realmente aprecie. Ele coloca um CD do cantor espanhol, puxa com delicadeza uma das mãos de Rachel e a enlaça. Dançam, dançam, logo seus lábios buscam os da sua par. Beijos nessa profissão não são comuns, mas Rachel tem lá suas exclusividades. Ela se entrega ao jogo de casalzinho apaixonado, deixa o amante da vez guiar o barco até certo ponto. Logo, logo Arnaldo passará o timão à verdadeira capitã. E ele gosta, e ela aprecia ainda mais.

_ Vamos pro quarto, minha querida.

Rachel acompanha o cliente, ele se senta na beirada da cama e retira a camisa.

Está ansioso, chega a arrancar dois botões que teimam em não abrir. Abaixa a calça de tergal. Ela observa o corpo do amante só de cueca, a enorme barriga com algumas estrias. A figura lhe faz lembrar daqueles enormes lutadores de sumô, mas Rachel continua o ritual. As mãos gordas de Arnaldo vão de encontro aos polpudos seios da profissional, que finge se excitar. Ela mesma abre o zíper que está nas costas, abaixa as alças do vestido expondo as mamas de auréolas rosadas e bicos pontudos.

_ Vem! - Rachel o instiga a mamar seus peitos.

Esse convite parece irrecusável ao cliente, que aproxima a boca dos seios de Rachel, suas narinas sentem o odor do perfume invulgar que exala da pele da amante. Arnaldo suga os mamilos de Rachel, que começa a acariciar o membro do amante sob a cueca. Não é dos maiores que viu, é até pequeno, mas logo dá sinal de vida. Rachel se ajoelha, retira a última peça de roupa do cliente e começa a retribuir o carinho que recebeu de Arnaldo. Ele se esvai em gemidos e urros de prazer. Agora é Rachel que está no comando. Ela pede, ou melhor, rainhas não pedem, não imploram... Rainhas mandam!

Rachel retira o vestido, joga-o sobre uma poltrona ao lado. Ela pega dois macios travesseiros e se senta na cama.

_ Dance pra sua rainha! - ela ordena.

No mesmo instante o escravo está remexendo suas banhas. Parece uma grande baleia branca, seu pênis fica ainda menor entranhado na gordura pubiana. Seus peitos parecem os de uma índia velha. As coxas pelancudas com pêlos irregulares, tudo pode ser repugnante aos olhos de uma jovem que sonha com príncipes encantados. Rachel, no entanto, parece estar gostando da cena esdrúxula, seu corpo começa a mostrar os primeiros sinais de excitação. Talvez ela faça aquilo por prazer, talvez o dinheiro que recebe pelos serviços prestados seja apenas uma agradável conseqüência.

Depois de quase 20 minutos dançando para Rachel, o gorducho está encharcado em suor. Ela finalmente lhe ostenta o brinquedinho que tem em sua mão. Arnaldo sorri já prevendo o que vai acontecer.

_ Minha deusa, mas é muito grande! Não sei se vou agüentar tudo isso! - o gorducho finge estar assustado com o que vê.

_ Vou te enrabar, seu cachorro sarnento! - enquanto profere tais palavras, Rachel desfere um forte tapa na cara gorda de Arnaldo, o que parece excitar ainda mais o seu cliente, gotículas da próstata lustram a glande peniana.

As palavras de Rachel não demoram a se concretizar. Arnaldo está de quatro, a enorme bunda virada para sua rainha, que não se inibe, pelo contrário, está cada vez mais excitada. Logo a operação é iniciada, o que faz o gorducho se transformar no ser mais submisso da Cidade Maravilhosa. As estocadas cada vez mais fortes o fazem chorar de alegria, não demora muito e ele despeja toda a felicidade sobre o lençol florido que cobre a cama. O enorme corpo desaba fazendo a estrutura da cama estremecer.

Rachel observa o amante da ocasião estatelado na cama, parece adormecido.

Ela vai ao banheiro da suíte, lava o seu brinquedindo que tanto prazer deu ao gorducho. Volta para o quarto onde veste a calcinha e o lindo vestido vermelho. Calça o sapato salto 15, pega sua bolsa prateada e retorna ao banheiro. Saca seu batom vermelho e passa cuidadosamente em seus lábios cada vez mais experientes. Ajeita o cabelo loiro. Está pronta para sair, confere mais uma vez as seis notas de R$ 50,00 que recebeu por mais uma noite de trabalho e se vira para ir embora.

_ Onde você pensa que vai, sua vaca? - é o gorducho, que acabara de despertar de seu cochilo pós-orgasmo.

_ Você já teve o ... - antes mesmo de Rachel terminar a frase, recebe um tapa no seu lindo rosto, ainda mais forte do que o que há pouco havia desferido na cara do cliente.

_ Cala a boca, sua vagabunda!!! - Arnaldo em nada lembrava aquele cliente delicado e submisso de instantes atrás. Estava totalmente transtornado, seus olhos congestos pareciam querer saltar da sua cara redonda.

_ Vou te ensinar como se trata um homem de verdade!!! - o gorducho continuava a gritar para Rachel, que se encontrava pela primeira vez em apuros em toda a sua trajetória de "vida fácil", se bem que estava há não mais de um ano em tal profissão.

Arnaldo pegou Rachel pelos cabelos, mas não eram os verdadeiros de Rachel. O gorducho ficou assustado por meros segundos com a peruca loira da profissional em suas mãos, tempo suficiente para que Rachel pegasse um vidro de loção de barbear e acertar a cabeça do agora rival. Em seguida dá-lhe um chute no meio das pernas, fazendo com que Arnaldo caia de joelhos gemendo de dor. Ela aproveita e sai correndo para a sala, onde tenta abrir a porta desesperadamente, mas antes que consiga sair é agarrada pelo gorducho, que a puxa pelo braço e desfere-lhe um soco no olho, fazendo a dama da noite cair perto da cozinha. A partida parecia já ter um vencedor, quando Rachel vê uma faca de carne em cima da pia. Ela agarra a arma branca e, antes que Arnaldo perceba, desfere-lhe um golpe na garganta, cortando-lhe as jugulares, a traquéia e o esôfago, fazendo o sangue jorrar. O gorducho não consegue
proferir uma única palavra, um som sequer, mas seus olhos de desespero e angústia dizem tudo. Seu corpo de hipopótamo tomba. Ele sabe que o fim está próximo, o que logo se concretiza.

Rachel está exausta, mal consegue controlar a respiração ofegante. Ela olha seu adversário caído, o sangue espalhado pelo piso da cozinha, respingado nas paredes. Há sangue em suas mãos, ela liga a torneira da cozinha e as lava.

Lava também a faca. Depois segue para a suíte, onde pega as suas coisas, coloca a peruca loira, lava o rosto, retoca o batom em frente ao espelho...

Sorri.

A dama da noite volta para a cena do crime, observa o corpo inerte de Arnaldo.

Profere algumas palavras de insulto. Já está de saída, quando se lembra da faca. Ela quer a faca. Talvez como um troféu.

EDUARDO MARTÍNEZ (escritor de contos, romances, livros técnicos, formação em Medicina Veterinária e Jornalismo, autor de "Despido de ilusões", que há quase um ano é um dos livros mais requisitados para leitura de todos o acervo da Biblioteca do Centro Cultural Banco do Brasil).