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Ilustração de Paul Klee
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2.188 d.C.
André Daniel Reinke
- Os gaúchos amam seus heróis.
Miguel traga mais uma vez o cigarro, recostado na cadeira sob a
luz avermelhada daquela sala insalubre, pernas cruzadas e
perdido em seus pensamentos. É um homem grande e forte, de
aspecto perigoso, a idade revelada no rosto enrugado e pelas
profundas cicatrizes em suas faces. Prossegue:
- Os veneram como a santos, como titãs a quem devem seus
sucessos e suas glórias, espelhos de um gauchismo que acreditam
ser mesmo real.
O homem à sua frente ri chiado, desagradável até.
Constata:
- Tu teve lá, não teve? Lutou na Terceira Revolução.
Fala amargo como um soldado.
Um breve silêncio, mais uma tragada, a resposta:
- Estive. Fiz parte do exército libertador que, naquele inverno,
conquistou a independência da República. Nosso inspirador e
herói, o general Salvatore, era o meu comandante.
- Tu peleou com o Líder? - o homem acendeu um cigarro, tragou,
coçou o canto do olho e tossiu. - Aquele maldito já era um filho
da puta naquela época?
Miguel ri da pergunta. Era procedente, porque havia algo de
imprevisível na figura quase mitológica do herói da República.
Marco Antonio Salvatore fora o grande líder da Independência, o
catalisador da massa de revoltas em que o estado se encontrava.
Aglutinou forças indignadas e conduziu, qual redivivo Bento
Gonçalves, as escaramuças e batalhas que culminaram no 20 de
setembro de 2.163 d.C., data oficial da proclamação da República
Federativa Gaúcha. A vitória na batalha final contra a
desmembrada Federação do Brasil ocorrera duas semanas antes,
porém a data fora modificada por motivos, digamos, românticos.
Com a independência, herói que era, foi logo proclamado
presidente da nova República. Governou durante cinco anos
fazendo uma série de ajustes econômicos que tornaram seu nome
sagrado por todos os pagos do novo país. Tal desenvolvimento
veio a despertar a cobiça da Federação dos Estados Argentinos,
que começava a estender seus tentáculos sobre as terras gaúchas.
A unanimidade - que invariavelmente é estúpida - da nação
determinou o sombrio destino que estava por vir. Congressistas
declararam estado de guerra e nomearam Salvatore
comandante-em-chefe com plenos poderes para manter a unidade do
país e a integridade frente aos belicosos vizinhos. Todos
confiavam nele - mas ele os traiu. No início de seu segundo
mandato, com o apoio de seu fascista exército e de um povo que
imaginava estar sendo protegido, dissolveu o congresso, declarou
o estado de sítio e eliminou, em uma única noite de terror,
todos os desafetos e possíveis opositores de uma ditadura que
iniciava. Mudou seu título de Presidente para O LÍDER. Isto
ocorreu há quase duas décadas.
- Nós o amávamos, morreríamos por ele. Como de fato morremos.
As lembranças batem em sua memória com uma força avassaladora: a
noite do terror, quando chegou em casa e encontrou a polícia
secreta executando sua mulher; como defendera o filho de quatro
anos dos homens que o atacavam; da dor dos disparos de plasma
quando finalmente tombou como morto (não sem levar consigo um
oponente e aleijar outros dois); de como fora encontrado nas
lixeiras das ruas antigas e retornara milagrosamente da morte; e
finalmente quando, meses depois, assistira ao vídeo de segurança
de sua arruinada casa e descobrira seu pequeno filho sendo
levado pelos demoníacos devoradores de crianças. Que tipo de
horror teria sido reservado para ele não tinha coragem de
conceber.
Miguel sente a angústia fazer tremer seu ventre. Tanto tempo
havia passado, e a dor da traição e da perda da família era
ainda latente. Voltou de seus pensamentos macabros.
- Bem, vamos ao que interessa. Conseguiu a encomenda?
- Meu amigo, não há o que o rei do submundo não consiga - disse
o homem, novamente rindo entre chiados. - Essa beleza é um
protótipo ainda em fase de testes e tivemos que roubá-la do
fabricante. Você sabe que nem sequer existe oficialmente, não é?
Miguel balança positivamente a cabeça. O criminoso levanta-se,
vai até o canto da sala e abre um baú metálico. Retira uma arma
estranha: um cilindro aparentemente metálico de mais ou menos 10
centímetros de diâmetro com 50 de comprimento, empunhadura com
gatilho, alguns botões de um lado e um pequeno orifício na
ponta. Entrega a encomenda e observa, com uma interrogação no
rosto. O ex-soldado explica:
- Esta coisinha fantástica é um protótipo em fase de testes.
Trata-se de um rifle eletromagnético, a mais curiosa arma de mão
já desenvolvida. Provavelmente não servirá para guerras porque
possui um limitador: demora para carregar, dispara uma única vez
e necessita muito tempo para disparar novamente. Porém, sua
precisão é milimétrica. Melhor: vence o principal inconveniente
que tenho em minha empreitada: suas ondas podem atravessar
estruturas sólidas inorgânicas - mesmo superestruturas como
vidro ultra-blindado - para atingir um alvo orgânico, o que
nenhuma arma convencional pode fazer.
O homem, impressionado, pergunta:
- Isto não me importa, para mim são apenas negócios. Mas com
estas características, a arma é perfeita para apenas um alvo que
eu conheça. E gosto da idéia.
Miguel encara o homem com verdes olhos de uma tonalidade opaca e
desesperançada:
- Sim. Meu alvo é o tirano. Vou assassinar o Líder.
******
Lucius é um fenômeno. O Chefe da Segurança Pessoal do Líder
tornou-se famoso por ser o mais jovem investigador a ocupar o
cargo. Assumira-o com apenas vinte e um e conseguira, em dois
anos, evitar inúmeras tentativas de atentado contra o supremo
herói gaúcho, valendo-se de sua imensa habilidade de
rastreamento. O garoto-prodígio, como era denominado pelo
tirano, criara um sistema de segurança preventivo: uma
intrincada rede de espionagem lhe informava possíveis planos de
assassínio, aos quais ele investigava com habilidade e perícia
sem igual. Em seu curto e eficiente período no cargo, jamais
alguém conseguira sequer tentar um disparo contra o Líder, tal a
precisão do seu trabalho. Todos os adversários foram
implacavelmente eliminados antes mesmo de apertarem o gatilho de
suas armas ou bombas. Tal desempenho lhe rendeu a Estrela do
Seival, mais alta condecoração nacional por serviços prestados à
unidade da República. Tornara-se quase um mito entre
conspiradores. Tanto que chegou-se até a desacreditar a sua
existência. Jamais aparece em público; alguns dizem que o tinham
visto, que era muito alto, aspecto cruel e que talvez nem fosse
totalmente humano. A verdade é que Lucius adora estes mitos.
Reforça-os permanecendo anônimo e deixando escapar alguma marca
de sua ação - como surgir, em meio à escuridão, a determinados
interrogatórios. O povo teme mais o que não pode ver ou
compreender.
Um soldado trajando o uniforme negro da guarda pessoal do Líder
entra na sala e entrega a Lucius uma esfera metálica,
colocando-a sobre a mesa. A esfera projeta no meio da sala um
holograma com a imagem de um homem grande, de óculos escuros,
saindo de uma porta em uma das ruas baixas. Lucius e o
subalterno caminham entre a tridimensionalidade projetada, como
que fazendo parte de uma imagem estática, e observam o rosto do
homem face a face.
- É mais um? - pergunta Lucius.
- Sim, recebemos hoje de nosso Centro de Inteligência. Ao que
parece, comprou do Rei algum equipamento que não está nos nossos
registros. Só por esse detalhe, vale uma investigação; mas há
mais...
- O que poderia ser?
- Fiz uma busca por semelhança em nossos arquivos digitais, e
este homem foi um dos capitães do Exército Libertador. Até aí,
tudo bem. O problema é que ele está morto, ou deveria estar.
- Isto está ficando interessante. - diz Lucius, com alguma
soberba. - O que houve?
- O capitão Miguel foi morto em 23 de fevereiro de 2.169 d.C.,
logo após as medidas de urgência de Nosso Líder. Fazia parte da
resistência contra o novo regime. Os registros da força
designada para a execução dizem que seu corpo foi jogado nas
ruas baixas, como exemplo contra sublevações. A mulher e o filho
também constam como eliminados.
- Alguém não fez o serviço direito.
- Bem, senhor, ao que parece, não. Se examinar a ficha de
Miguel, verá que sua especialidade era camuflagem urbana e
desorientação para fuga.
Um brilho sinistro surge no olhar de Lucius:
- Ao que parece, finalmente temos um desafio de verdade. O
dossiê dele já está no meu computador?
- Sim, senhor, tudo o que sabemos sobre o capitão Miguel está
nos arquivos.
- Obrigado, você está dispensado.
O soldado bate continência e sai da sala. Antes, vira-se e
observa Lucius, que já está lendo o arquivo projetado em sua
frente. Sente uma admiração, quase uma veneração. O predador
começa a rastrear sua presa.
******
Miguel caminha entre a multidão nas ruas baixas. Na Andradas,
olha para a escuridão e imundície do submundo que o cerca. Eleva
seus olhos e observa as gigantescas torres que tomam conta de
toda a cidade; prédios de uma a duas centenas de andares,
interligados por rampas cruzando-se qual teia de concreto: as
ruas altas. Onde circulam os produtivos da sociedade, as pessoas
de bem, os legais. Que jamais descem até a base putrefata sobre
a qual está construída sua nova Porto Alegre, o excremento
social que rejeitaram em sua utopia ditatorial, os ilegais que
não passam de sobras indesejáveis da nova ordem.
Aqui o vingador pode caminhar sem ser descoberto - entre aqueles
que são, mais que rejeitados, temidos. Atravessa a Borges de
Medeiros - todos os tipos de substâncias proibidas e
contrabandeadas estão ali, desde o cigarro até drogas para
eutanásia - e sobe a General Câmara até a abandonada e árida
Praça Matriz. Observa ao redor: os arranha-céus não adentram
àquela área, formam quase uma clareira de construções. Não há
árvores, onde fora o Palácio Farroupilha só há monturos,
resultado da guerra. Toda a área está tombada como patrimônio
histórico há mais de dez anos, quando o Líder transferiu a sede
do governo para a Fortaleza Marco Antonio, um prédio
absolutamente inexpugnável.
Há muita atividade na praça, funcionários de limpeza -
escoltados pelo exército gaúcho - trabalhando intensamente na
eliminação de pichações, restaurando monumentos, preparando as
ruínas do Palácio Piratini para um grande evento. Quando Miguel
percebe as sacadas do palácio sendo revestidas pelo vidro
ultra-blindado, tem a confirmação de suas teorias: o Líder fará
uma aparição pública na comemoração de Independência. O
megalomaníaco tem que se mostrar, está na sua essência.
O vingador sente pontadas lancinantes em seu lado direito. O
braço biônico, peitoral sintético e costelas de titânio ligados
à sua coluna e esqueleto ainda lhe doíam, mesmo após tantos anos
da restauração e recuperação naquela clínica clandestina da
resistência. Faz uma última análise, um prédio distante, em
direção ao rio, muito alto. Sim, o ângulo é perfeito. Desce a
rua retornando à Borges e faz o que melhor sabe fazer:
desaparece.
******
Secretaria de Segurança da República, sala do chefe da guarda do
Líder, véspera da festa da Independência. Dois assassinos que
pretendiam um atentado contra Salvatore haviam sido obstruídos e
seus cadáveres estavam pendurados no Monumento ao Expedicionário
do Parque Farroupilha. Mas nada de Miguel; seu rastro fora
perdido totalmente. Lucius já começa a se impacientar quando um
sargento adentra ao escritório com uma informação:
- Senhor, fiz o levantamento que me solicitou. Falei com todos
os nossos informantes infiltrados na indústria, e havia algo de
suspeito na Órion Equipamentos de Combate. Fora roubado um
protótipo sobre o qual ninguém queria informar. Provavelmente
uma encomenda de algum grupo terrorista dos fundamentalistas
americanos. Pressionamos a direção da Órion e obtivemos isto. É
a arma desaparecida.
Um holograma projetado da esfera demonstra o desenho técnico de
uma arma movimentando-se em seus vários ângulos. Ao lado, um
texto pairando no ar descreve as características do projeto.
Lucius lê atento as palavras à sua frente. Encosta-se na
cadeira, cruza os braços, coça o pescoço, fala:
- Ótimo trabalho, Sargento. Isto faz muito sentido. Me
perguntava como o assassino poderia atravessar nosso vidro.
Somente armas de artilharia de grande impacto poderiam vencer
aquela barreira, o que não seria viável para um simples
franco-atirador. Esta arma responde a minha segunda pergunta e
também a terceira.
- Comandante, perdoe minha inconveniência, mas quais seriam as
perguntas?
- Buenas, preciso responder na verdade quatro perguntas para
antecipar um atentado. A primeira: quem o fará? Já sabemos que
este Miguel planeja algo neste sentido, e convenhamos que ele
tem um bocado de motivos. A segunda pergunta é: como ele fará?
Temos este protótipo roubado que, vamos acreditar, tem
correlação com a situação presente. O mais interessante é que a
resposta - esta arma - também nos leva à solução da terceira
pergunta: quando será? Ora, este rifle eletromagnético só teria
utilidade no caso da necessidade de vencer uma barreira física,
como o nosso vidro ultra-blindado. Então, o "quando" é amanhã...
Miguel sabe que o Líder não abrirá mão de sua aparição pública e
do seu discurso do herói.
- Como o inimigo pode ter certeza que o Líder realmente irá à
festa da Revolução? Ante a iminência de um ataque, não
consideraria que ele recuasse?
- Sargento, estamos falando de um homem que foi comandado por
Salvatore diretamente em batalha. Miguel conhece o Líder melhor
que nós mesmos. E nada o deterá.
- Bem, agora que temos estas respostas, como o prendemos?
- Você não está prestando atenção, estabanado. Respondemos três
perguntas, mas falta a quarta. Onde? De onde ele dará o tiro?
Um silêncio cai na sala. O sargento bate continência e se
retira. Lucius permanece sentado, e a pergunta se repete em sua
mente. De onde? De onde? Levanta-se, em voz alta solicita ao
computador o mapa de Porto Alegre, e um gigantesco holograma
toma conta de seu escritório. Uma miniatura da cidade está
montada, com prédios, elevações, ruas baixas e altas, em uma
tonalidade azul-esverdeada. Caminha entre o holograma e começa a
traçar possíveis trajetórias de um disparo contra o Palácio do
Piratini. Há prédios muito altos em todos os lados e se
estendendo até a Área de Lazer Exclusivo do lago Guaíba, e com a
tecnologia daquela arma, haveriam centenas de possibilidades.
Santo Brizola, o atirador poderá ficar quilômetros de distância,
o que multiplica as probabilidades dele não ser encontrado...
De onde será?
O dia já está findando, e a resposta à quarta e decisiva
pergunta não surge. Lucius sabe, mas as buscas que determinara
em toda Porto Alegre não surtirão efeito. Nas ruas baixas há
oposição dos ilegais, e ali sua polícia praticamente não poderá
atuar. O tempo está passando e seu prazo, pela primeira vez, se
esgotando. O que fazer? Ir ao Líder, dizer com licença Sua
Reverência Salvatore, aconselho-o a não ir à comemoração dos 25
anos da Independência e da Sua Glória, porque há um atirador com
uma arma sem registro e não sei onde ele está? Não posso fazer
isso. Ele mandará cortar minha cabeça e vai ao espetáculo assim
mesmo. Já deve até pensar que é imortal...
Lucius levanta-se e relê o arquivo de Miguel. Alguma coisa está
lhe escapando. Faz algumas anotações, quando um detalhe
salta-lhe aos olhos. Claro! Só pode ser isso. Tem que ser. Corre
novamente até o holograma e faz a verificação. Perfeito: ângulo
de tiro, acesso à cobertura, e a subjetividade; o atirador não é
um assassino contratado, ele age por vingança. O prédio onde
vivia a família de Miguel é o único local que empresta algum
significado ao atentado. O comandante aciona a comunicação:
- Atenção, todas as unidades, temos uma posição do alvo Miguel.
Estou transferindo as coordenadas para o sistema unificado.
Desde agora, quero todos os atiradores e dróides de ataque em
emboscada nos prédios próximos ao objetivo determinado. Em
camuflagem total, repito, em camuflagem total. O alvo é nível
máximo de periculosidade e deverá se manifestar amanhã durante o
comício do Líder. Seguir procedimento padrão de eliminação.
O comandante recosta-se na poltrona e sorri. Mais uma vez, pela
sua habilidade, cumprirá seu dever. Quem sabe até mais uma
medalha... Mas há algo em seu íntimo, uma inquietação que não
cessa. E Lucius já aprendeu a confiar nos seus instintos.
Levanta-se, solicita ao computador para projetar novamente os
arquivos de Miguel, e volta a estudar o seu oponente. E agora,
Miguel, o que mais há para descobrir?
******
Vinte de setembro de 2.188 d.C., 25 anos de independência, 20
sob o regime do Líder Marco Antonio Salvatore. Uma seqüência de
números que exigem uma grande festa. Naves de combate
Quero-Quero IV sobrevoam os céus de Porto Alegre fazendo
evoluções com fumaça colorida, pintando a atmosfera gaúcha de
verde-vermelho-amarelo. Sirvam nossas façanhas de modelo a toda
a terra - tocam alto os propulsores de som espalhados em todas
as ruas altas. Um laser ao redor da antiga praça funciona como
cordão de isolamento, mantendo os ilegais das ruas baixas
afastados, porém agraciados pelo Líder em assistir ao espetáculo
tão de perto. Módulos de transporte aéreo trazem os cidadãos
legais sorteados para verem pessoalmente o grande comício.
Descem das ruas altas e chegam aos confortáveis assentos
preparados frente ao Piratini. É um clima festivo, muito
alarido, risadas, brindes. O exército está em toda a parte
garantindo a segurança. Os soldados de preto - a guarda do Líder
- não piscam, sisudos, atentos e prontos para agir com precisão.
Do alto de sua torre, na Fortaleza Marco Antonio, Lucius
acompanha virtualmente o desenrolar dos fatos. Passara a noite
estudando seu adversário. Está sério, compenetrado, com o rosto
apoiado nas mãos cruzadas sobre a escrivaninha, observando a
imagem via satélite - fixo nas coordenadas de onde acredita
sairá o ataque a Salvatore - e as cenas que recebe da
transmissão da festa no Palácio. O palco de sua ação está
armado. Só falta seu antagonista entrar em cena.
Um espetáculo pirotécnico começa ao redor do Piratini. O hino
gaúcho é executado novamente e a população levanta-se, cantando
com a mão no peito. Ao final, entre muito brilho das explosões
dos fogos de artifício, ele surge na sacada do histórico prédio.
Salvatore. O Líder em pessoa. A multidão vai à loucura, entre
palmas, gritos e louvações. A população além do cordão de
isolamento permanece silenciosa, temendo. De um lado do cordão,
o povo enxerga um herói, um santo, um salvador. Do outro, um
tirano, um demônio, um acusador.
Salvatore sorri, acena para a multidão. É altivo, percebe-se a
soberba em seu aceno, causa temor o seu olhar, causa assombro o
seu porte, o seu carisma. Ele começa a falar, primeiro baixinho,
contando suas angústias nas batalhas, em como sofrera as dores
do nascimento de uma nação ao parir uma nova ordem gaúcha.
Continua seu discurso, aumentando cada vez mais o tom de voz,
levando a multidão ao delírio.
Lucius assiste ao pronunciamento de sua torre, sem tirar os
olhos da imagem do satélite. Estaria errado? Não, não estava.
Uma figura aparece no telhado do prédio vigiado e começa a se
esgueirar até a beirada. Há uma arma na sua mão - sim, o rifle
eletromagnético -, trata-se de Miguel. Do ângulo aberto, pode
ver sua equipe se movimentando, já tendo o visual do alvo. A
armadilha está sendo armada.
Miguel aproxima-se da beirada e monta o tripé do rifle. Liga o
aparelho, que já está previamente carregado. Apenas um tiro,
pensa, e tudo está acabado. Outro botão, e uma pequena tela
holográfica projeta-se sobre a arma, apresentando o alvo. Ajusta
a mira, e centraliza a imagem: o tirano Salvatore. Travar alvo.
Confirmado. A partir deste momento, a arma acompanhará o imundo
até ser disparada. Só mais um minuto.
Salvatore continua seu discurso, agora falando de sua abnegação
em assumir o peso de tamanha responsabilidade da condução de uma
nação ímpar como a gaúcha. Os habitantes do alto vibram.
Lucius assiste à formação de ataque de sua equipe. São muito bem
treinados e impecáveis nos procedimentos. Os atiradores de elite
já estão posicionados e ele escuta no áudio de seus soldados:
temos visual do alvo, repito, temos visual do alvo; prontos para
disparar. Imediatamente Lucius abre o desktop do sistema único e
digita em seu teclado infravermelho:
_ INSERIR VÍRUS HECATOMBE _
Na imagem, os comandos vão sendo executados:
_ VÍRUS EXECUTANDO_ TRAVAR SISTEMA DE SEGURANÇA _ ARMAS
INOPERANTES _
- Central! - grita o atirador no áudio - Armas travadas! Repito,
armas travadas! Sistema não responde, não consigo disparar no
alvo! Dróides de ataque estão inoperantes, repito, dróides de
ataque estão inoperantes!
Miguel, com seus verdes olhos entreabertos, observa Salvatore
pela última vez. Ajusta carinhosamente o dedo no gatilho, e
puxa-o com determinação. Um som agudo faz o justiceiro tapar os
ouvidos e um intenso clarão ilumina como um raio o topo do
prédio.
Para a glória do povo gaúcho! Salvatore termina de pronunciar a
frase quando se abaixa com a mão no peito. Ergue a cabeça
contorcendo-se e emite um urro assustador. Cai no chão entre
gritos medonhos e arranca sua camisa negra. Sua pele está
vermelha, ensopada de suor que começa a evaporar, bolhas se
formam em toda a extensão de seu corpo e uma tremedeira toma
conta de braços e pernas. O tirano está fervendo de dentro pra
fora. Os gritos e espasmos cessam, a pele parece soltar-se da
carne e sangra por todos os poros, olhos, ouvidos e narinas. O
Líder está morto.
Correria e desespero tomam conta da praça. Os habitantes do alto
fogem para os módulos de transporte, os ilegais enlouquecem e
partem em confronto com o exército; um levante toma conta das
ruas de baixo e uma guerra civil tem início.
O comandante da segurança observa tudo, via satélite, de sua
sala de controle. As naves Quero-Quero dirigem-se rapidamente
para o topo do prédio de onde partiu o disparo. Miguel está no
centro, em pé, com os braços abertos, mas não em sinal de
rendição. Tem um detonador na mão, aperta o botão, e uma
explosão destrói seu corpo e a cobertura do edifício, abatendo
as naves de combate que ali pairavam.
Lucius desliga o sistema. Fica no escuro; recorda-se de uma
infância perdida em meio à brutalidade; ressente-se de crescer
sem pai e mãe. Seus olhos se umedecem.
Verdes olhos de uma tonalidade opaca e desesperançada.
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