Sem título

Julio Cezar Rodrigues

Ele se chama José. Vive sozinho, não tem esposa nem filhos. Nunca teve. Da família constam alguns irmãos distantes. Não se sabe ao certo quantos. José nunca tem contato com eles. Amigos parece também não ter nenhum, ou pelo menos, nenhum próximo. Já ocorreu de algumas vezes se encontrar num bar com um senhor sisudo, de barba, que ao que parece, não bebe nem fuma. Parece ser dessas pessoas para quem o ontem infelizmente passou e o amanhã, quem sabe, está sempre por vir. Parente de José não é. Disso pode-se ter certeza. Sabe-se que ele economiza algum dinheiro e, à noite, quase num ritual às escondidas, estuda por conta própria algumas lições de espanhol. Pensa, pois, quem sabe um dia, visitar Buenos Aires.
José trabalha todos os dias. Não é possível saber quando sai para o trabalho. Chega sempre às 18:40. Algumas raras vezes, segundo contam, chegou às 18:55. Trabalha numa fábrica de televisores... Bem, na verdade, trabalha numa empresa terceirizada que produz todo o material plástico usado nos televisores. Nessa fábrica é o José responsável pela checagem diária de uma certa máquina, cuja função é bastante estranha e incerta. Dificilmente alguém, até hoje, soube explicá-la, mas ao que parece todos chegam até mesmo à ignorá-la.
O endereço de José também é incerto. Afinal, nunca houve uma vez que precisasse informá-lo à alguém, exceto para a ficha do emprego, coisa jamais lida por algum Geraldo ou qualquer João.
É importante também notar, que o José tem 38 anos; uma dessas idades em que um certo pessimista observador, dentro do ônibus, percebe como serão os próximos domingos do José e até arrisca sobre suas raras idas à padaria.

Parece que uma vez, aos 16 anos, teve um livro. Spinoza ou algo do tipo. Difícil de saber. Hoje em dia parece que o próprio José nem se lembra mais disso. Também pudera; nunca foi capaz de ler uma só página daquele alfarrábio esquecido pela vizinha húngara que resolvera, repentinamente, voltar à sua pátria.

Apesar da enorme quantidade, enorme não, do bom número de garfos que tem José em casa, este prefere sempre fazer uso apenas da única colher de que dispõe. Dizem ser hábito comum das pessoas vindas de onde José vem.

O que importa disso tudo, é que amanhã não saberemos mais nada do José. Não que não nos interessaremos mais, muito pelo contrário. É até desnecessário dizer o quanto nos interessaremos. Mas não adianta. Qualquer esforço não será suficiente para termos a mais pálida notícia de José. O por quê disso também não é sabido. Nessas condições, só nos resta encerrar o conto.



JULIO CEZAR RODRIGUES
, 21 anos, estudante de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais e escritor imaginário – os médicos nunca ousaram contradizê-lo.