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Rebelião em Palma
Manoel Hygino dos Santos
Ágil e infatigável, Nilto Maciel lançou, este ano, o romance 'Os
luzeiros do mundo', primeiro lugar no Concurso Graciliano Ramos
no gênero, promovido pelo Governo de Alagoas. Se a láurea lhe
foi outorgada há cerca de uma dúzia de anos, somente agora houve
a publicação, por motivos que não sei explicar.
Porque é um trabalho que desperta natural interesse, mercê da
imaginação do autor, da grande criatividade, e da própria trama
que engendrou, a partir da morte de Lucas na amorável casa dos
Thaumaturgos - o 'Sítio Itamaracá' -, como inscrito numa
tabuleta afixada no portão principal.
O personagem é uma figura rara na pequena, pacata e
aparentemente pura cidade de Palma, perdida aí pelos grotões,
mas atenta aos acontecimentos regionais, estaduais e nacionais.
Alimentava Lucas sonho unionista e pré-sebastianista, escrevia
longas e líricas cartas e as enviava a personalidades nacionais
e estrangeiras, entre as quais não faltavam frades medievais,
pesquisadores da história luso-brasileira e artistas anônimos de
obras raras.
Solitário, quando a noite descia percorria becos e ruelas
escuras ou mal iluminadas, enquanto os cães latiam e, talvez, só
funcionasse o cabaré de Ana Souto. Naquelas horas, perambulava
por lugares ermos e, quando a lua se mostrava, recitava sonetos
de Camões.
Não comparecia a festas de qualquer natureza, sequer costumava
ir à igreja, embora não fosse considerado ateu. Escudava-se em
desculpas para não comparecer às reuniões do Movimento de Defesa
da Liberdade, da Família e da Propriedade, embora acedesse em
redigir documentos sobre os projetos sediciosos do grupo, que
congregava as mais importantes figuras da sociedade legal.
Escrevendo bem, 'preocupado com o rigor artesanal de seu
ofício', como opinou com justo critério Ronaldo Cagiano, Nilto
Maciel constrói uma obra atraente, em que não falta a ironia em
torno dos projetos dos integrantes do Movimento, que se propõe
contrapor-se aos comunistas e a seus históricos projetos.
O Movimento procura organizar-se, consolidar-se, para agir em
defesa do cidadão, da pátria, da sociedade. Chegou a planejar a
fundação do Sindicato das Operárias do Sexo (SOS), para
participar de programas de ação. Para o comunista Josias
Nóbrega, pela primeira vez um patrão, no caso Ana Souto,
sexagenária proxeneta, cuidava de constituir um sindicato de
operários.
O mundo imaginário de Nilto Maciel é rico em figuras raras, mas
no fundo, localizadas e identificadas aí pelos sertões. É gente
como qualquer outra, com idéias as mais comuns ou raras, claras
ou birutas.
O propósito precípuo é acabar com o comunismo. Nada de
vermelhinhos na cidade de tantas e tão caras tradições. Pensando
no futuro, o fanfarronesco Eunápio Calado sugere que, após a
queima dos livros e da distribuição das armas dos bolchevistas,
deveria ser aprovada uma lei pela Câmara Municipal.
Ficava proibida a utilização da cor vermelha, onde possível.
Batom podia ser verde, amarelo, azul, branco, menos vermelho.
Assim também as roupas, os móveis, as paredes, os carros. Um
exemplo para os restante do país.
E quanto ao sangue, se também é vermelho? A cruel dúvida foi
longamente discutida, até porque em Palma não existia quem quer
que seja com sangue azul. Chamado a emitir opinião, o padre
Gregório não deu resposta imediata, não enfrentara, em tempo
algum, problema dessa natureza e prometeu consultar a Bíblia e
seus superiores.
Mas além dos comunistas e do sangue, havia muita cousa mais da
cor condenada: frutas, flores, legumes. O problema com que teria
de defrontar-se o Movimento era mais amplo e complexo. Num livro
extremamente agradável, Nilto Maciel põe o tema em discussão.
MANOEL HYGINO DOS SANTOS é jornalista e escritor.
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