Pastilhas coloridas

Luiz Rebinski Junior

As luzes foram aos poucos se apagando. Uma tontura súbita precedeu o apagar definitivo dos feixes de luz. Escuridão. Acordei na cama do hospital com o braço furado. O soro pingava, gota a gota, devagar. Olhei ao meu redor e só vi um armário, um sofá e uma cadeira. Sabia que era um hospital.

– Caralho – disse em voz baixa.

Estava desolado. Sozinho em uma cama de hospital. Meu braço esquerdo estava roxo, muito roxo. Tentei apalpá-lo, não consegui. Estava fraco demais. Fiz um movimento com a cabeça e senti que tinha um machucado na testa. Não lembrava como tinha ido parar ali, só sabia que queria sair o mais rápido possível daquela geladeira branca. Mas estava impossibilitado.

A enfermeira entrou sem bater. Tinha os olhos grandes e era gorda. Era bem gorda. Com uma voz que contrastava com seu tamanho, perguntou como eu estava me sentindo.

– Mais ou menos – respondi com dificuldade.

Ela deu um sorrisinho, regulou o soro e olhou para mim.

– Você melhora – disse, quase fechando a porta.

Fiquei pensando por que não perguntei o motivo de estar ali. Queria tanto me lembrar e quando tive a oportunidade de saber, desperdicei. Eu sempre fora desligado. Fiquei um instante olhando para o teto branco tentando recordar o que acontecera. Nada, nem um só momento. O máximo que conseguia era lembrar daquele feixe de luz apagando, diminuindo vagarosamente até desaparecer por completo. Já estava ficando de saco cheio daquela recordação que não me dizia nada.

A porta abre novamente e um médico entra. Era barbudo e lembrava a fisionomia de Karl Marx. Olhou fixo nos meus olhos e anotou algo em uma prancheta. Quando sorriu pude ver seus dentes amarelados pela nicotina.

– O senhor é fumante há muitos anos - disparei sem pestanejar.

– É, dá para notar, né?!

Assenti com a cabeça.

– Doutor, não lembro de nada.

Olhou para mim e, depois de um longo silêncio, disse que era normal. Saiu rápido, da mesma maneira que a enfermeira. Tentei novamente levantar. Doeu, mas consegui. Segurei o braço e tirei o soro. Coloquei o pé esquerdo para fora, estava frio. Joguei o direito e calcei o chinelo que estava ao lado da cama. Fui ao banheiro, olhei meu rosto machucado no espelho. Sentia meu corpo cansado, parecia que eu tinha levado uma grande surra. Por um longo tempo olhei no espelho e não consegui lembrar de nada, apenas o feixe de luz apagando em minha mente. Sempre o feixe de luz. Abri a porta do quarto e vi um longo corredor. Era grande pra cacete. Andava feito um velho, devagar. Enquanto me escorava nas paredes geladas do hospital, comecei a tentar recordar o que tinha acontecido comigo. Aos poucos eu lembrava de algumas cenas.

Sentei em um banco e tentei concentrar minha atenção. Abaixei a cabeça e fiquei quieto. Senti que alguém sentou ao meu lado.

– Está se sentindo bem? – perguntou a pessoa ao lado. Sem olhá-la disse que sim e calei.

– Este lugar me dá calafrios – disse a voz.

Ergui o corpo e respondi que também não gostava dali. Olhei para minha interlocutora e vi que ela estava tão mal quanto eu. Seu rosto estava magro e seus olhos esbugalhados. Mesmo assim era bonita. Muito bonita. Olhei para ela e perguntei por que estava ali, que doença tinha.

– Mundo – respondeu. – Meu problema é estar neste mundo.

Não entendi e fiquei quieto por um tempo.

– Sempre tive problemas. Desde de muito jovem eu fui problemática. Quando criança eu era diferente das outras crianças. Agora que sou adulta, tento fugir desta realidade que me dá nojo. Na verdade não sei ao certo o que sou e nem o que quero. Acho que sou uma insatisfeita. Uma insatisfeita por excelência. É, é isso o que sou.

Enquanto falava eu via um brilho em seus olhos. Sentia amargura nas suas palavras. Fiquei olhando para ela com vontade de perguntar mais uma vez o porquê de sua internação. Não precisei. Começou a me contar que era designer e que trabalhava em uma agência de publicidade. Não tinha problemas financeiros ou coisa parecida. Nunca teve. Seu problema era si mesma.

– Tomei uma dose generosa de barbitúricos – disse. – Tentei me matar.

Enquanto falava eu olhava para seus lábios. Sua fisionomia doce e seu rosto belo contrastavam com a amargura de suas palavras e sentimentos.

– É a segunda vez que esta merda acontece. Eu preciso tomar rumo, não posso mais ficar tendo este tipo de atitude. Tomo jeito ou não dá mais. Hoje estou arrependida de ter feito o que fiz. Na verdade não quero morrer. Nunca quis. Mas na hora do desespero... aí não tem jeito. É uma sensação muito ruim, fico desesperada, com vontade de fugir de tudo e de todos.

Não sei por que aquela moça com voz suave estava relatando os seus problemas a um desconhecido. Devia estar se sentindo muito sozinha para abrir o jogo a uma pessoa que nunca viu na vida. Eu gostei daquilo, achei sincero. Gostava da companhia.

– Eu tenho uma história parecida com a sua. Ontem, ou anteontem, não lembro bem, tomei uma overdose de cocaína em casa e vim parar aqui.

Aquelas palavras saíram espontaneamente. Algumas cenas começaram a ficar visíveis em minha mente. A conversa com minha colega de hospital fez com que eu rapidamente descobrisse como fui parar naquele lugar, sem esforço. O sofá, as agulhas e os pacotinhos de coca ficaram nítidos em minha mente.

– Você é viciado em cocaína?

– Não sei se sou viciado. Acho que não. Tomo esta merda de vez em quando para me livrar dos meus fantasmas. Todos nós temos fantasmas e de vez em quando é bom escorraçá-los. Mas acho que desta vez exagerei. Fui longe de mais. Acho que eu tinha muitos fantasmas para exorcizar desta vez.

– O que você faz?

– Tenho uma loja de discos. Um sebo.

– Porra, que legal! Você fica escutando música o dia todo e acha que está ruim a situação?

– Todo mundo acha que a vida é uma merda.

Gostei da companhia da menina, aquilo me deixou mais confortável. Principalmente porque retomei a memória. Estava arrependido do que tinha feito, mas talvez se não tivesse travado aquele diálogo estaria pior. Sempre quando eu bebia demais ou tomava porcarias, ficava com peso na consciência. Era inevitável, como era inevitável não me entorpecer de algum jeito. Acho que nós, ali no banco do hospital, vendo as macas com gente quebrada e fodida passando, nos sentíamos mais confortáveis. Um ao lado do outro, era o conforto que ambos queriam. Falar de suas experiências para uma pessoa que provavelmente nunca mais veria. Isto era bom.

– O fato é que somos desajustados. Nem te conheço direito, mas, você, assim como eu, não deve ser muito certo da cabeça. Porra, que coincidência: dois drogaditos que não sabem o que fazem neste mundo em um banco de hospital trocando figurinhas sobre suas cagadas, desilusões e o existencialismo da vida. Porra, nós estamos na mesma, parece. Eu levo uma vida com segurança, tenho emprego e não passo perrengue. Mas mesmo assim resolvi tomar estas merdas de barbitúricos. Eu os chamo de pastilhas, pastilhas coloridas. Adoro e odeio as pastilhas coloridas. Tem dias que amo, tem dias que odeio.

Ficou em silêncio por um instante.

– O fato é que sou vazia. Alguma coisa está faltando. Algo que não sei exatamente o que é. Isto é ruim. Olho para você e não consigo ver problema algum na sua vida pacata com seus discos. Mas mesmo assim você resolveu tomar uma overdose de cocaína. Não dá para entender.

Fiquei calado ouvindo suas palavras. Era tudo verdade. Nós éramos dois casos perdidos, ou quase. Eu sempre me dei bem. Sempre fui um cara normal. Gostava de música e fiz o que quis na vida. Mas mesmo assim nunca fiquei satisfeito. Sempre procurei a liberdade onde ela já existia.

– A liberdade é o problema.

– Parece que você leu meu pensamento. Era isto que eu estava pensando. A liberdade é o grande problema. Nunca se sabe lidar com ela. Queremos a tal da liberdade a todo custo, mas quando a temos, não sabemos como domá-la. Sempre fiz o que quis e parece que minhas escolhas foram sempre erradas. Mesmo quando me dou bem em algo, acho que poderia ter sido melhor. É foda. Foda pra caralho.

– Eu também acho. Quando eu era pequena, queria muito ter um cachorro. Quando consegui convencer minha avó a comprar o bichinho, já tinha desencanado da idéia. Quando eu era adolescente, queria muito fazer parte da turma mais badalada do colégio. Quando consegui entrar para o grupo, odiei. Achei o pessoal muito infantil e saí logo daquele convívio. Na verdade eu não me agüento. Acho que já falei isto para você, mas é o que sinto.

Acho que nunca na vida tive uma conversa tão franca com alguém. Ao mesmo tempo em que era doloroso falar de coisas tão difíceis e tristes, sentia que aquilo me fazia bem. Era como se eu estivesse conversando com alguém que eu gostasse muito e que não via há muitos anos. A conversa rolava solta. Ficava mais satisfeito porque sabia que o sentimento era recíproco e que o momento era bom para ambos.

– Acho que estou acabada – falou olhando nos meus olhos. – Estou feia, com o cabelo desgrenhado, com remela nos olhos e com um bafo desgraçado. Você deve estar assustado.

– Com certeza está melhor do que eu. Estou com este curativo na testa e com o braço roxo. Além de tudo, pareço um esqueleto. Estou magro demais.

– Eu gostei de você, sabia? Não sei por quê, mas sua personalidade é cativante. Você sabe a hora de ficar quieto e ouvir. Gosto disso. Nunca falei com ninguém sobre minhas frustrações e logo aqui, em um banco de hospital, após tentar suicídio, eu encontro um porto seguro. É irônico. Gostaria de te encontrar fora daqui. Quando você sai?

– Não sei, antes de encontrá-la não fazia idéia da razão de estar machucado e com um pijama de hospital. Mas acho que não vai demorar muito.

– Eu saio daqui a pouco. A enfermeira disse que dentro de duas horas posso estar na rua, só preciso ter mais uma conversa com o médico. Mas a verdade é que estou com medo de sair. Não do preconceito das pessoas. Com medo de mim. O medo é das minhas pastilhas, do meu humor inconstante e de meu gênio. Tenho medo que as cores me tragam novamente para cá ou me levem para um lugar ainda pior. Não sei como vou reagir quando estiver sozinha. O que queria mesmo é que este momento nunca acabasse.

Olhei de soslaio e sorri. Nuca imaginara que me sentiria tão bem em um lugar como aquele. Minha vida, por um instante, ganhava sentido. Era estranho, mas era bom. Ela levantou de repente e disse que tinha que ir embora. Fiquei olhando com cara de choro. Pegou minha mão e disse que queria me ver novamente um dia. Afirmei que sim com a cabeça quando ela me largou. Foi andando devagar rumo ao quarto. Olhei por um instante e depois fiz o mesmo. De repente ela me chamou. Virei quando falou: meu nome é Daiane, moro no edifício Asa, número 80. Aparece lá.