Conto de Natal

João César das Neves

A Maria assim que chegou, antes mesmo de tirar a mochila, disse «Estive a pensar e descobri uma coisa: vocês ficam muito melhor se eu tiver razão do que se a vossa opinião for a verdadeira.»

Sentados à mesa, os três amigos olharam-na com espanto, enquanto ela puxava uma cadeira e tirava o cachecol a sorrir.

Estes quatro universitários costumavam juntar-se todas as tardes para estudar na cantina da faculdade. Bons amigos, tinham posições religiosas muito diferentes e por isso o tema acabava por ocupar as conversas.

Perante os olhares interrogativos, Maria explicou. «Descobri hoje de manhã, no duche, que os infiéis, mesmo sendo infiéis, são muito mais felizes no reino de Cristo do que julgam vir a ser nas suas crenças.»

Os três continuaram calados e ela prosseguiu «Olha, Fernando, tu, como dizes que não crês em nada, nem em Deus nem na vida eterna, não tens de te espantar com a minha afirmação. Não é difícil ter uma sorte melhor do que a que nos destinas, uma cova e o nada. Tu, Cláudia, acreditas que vamos todos regressar pela transmigração e reencarnação, até chegarmos, talvez, ao Nirvana, que é também o nada. Quanto a ti, Ibrahim, és o que mais se aproxima de mim, acreditando num paraíso de delícias corporais no seio de Alá, mas...»

O Fernando interrompeu-a dizendo. «Pois, mas se tu tens razão e o teu Jesus é mesmo Deus, então nós, como ímpios, vamos todos dar com os ossos no Inferno. E isso é muito pior até do que a minha cova.»

«Não, Fernando», respondeu ela. «Se os cristãos têm razão, tu és recebido pelo Deus amoroso, Aquele que te ama a ti mais que tu mesmo. Até se fez homem, viveu aqui 33 anos, só para te salvar pessoalmente. Esse Deus, depois disto tudo, não te quer castigar, mas que vivas com Ele para sempre. Ele aproveitará todo o amor de que tu foste capaz, para assim conseguir que entres no reino do Amor.»

O Ibrahim disse com desconfiança. «Estás a dizer que não há o Inferno, que não há castigo para os maus. Deus, o Clemente, o Misericordioso, é também justo e retribui a cada um segundo as suas obras.»

Maria respondeu. «É verdade. Mas Deus é amor e quer sempre só o nosso bem. Até nos castigos. Quer isso até ao extremo da Sua eterna bondade. O nosso mal é que nos afasta d'Ele. Cristo quer só que todos vamos para o Céu, que é viver na contemplação da Sua bondade sem passagem de tempo. Mas não nos força ao Céu. O Inferno está ocupado por aqueles que lá querem estar, que rejeitam tanto o Bem e o Amor que o recusam de forma definitiva e total. Isto é horrível, mas acontece.»

«Mas se é assim», disse a Cláudia, «porque é que tu nos chateias com essas piedades? Como eu não quero o Inferno, quando morrer Deus me salvará!»

«Porque isto é verdade, não apenas depois da morte, mas já agora. Viver acreditando em Jesus é sentir, já aqui, um bocadinho do Céu. É tão triste passar os dias acreditando apenas num cinismo seco, em fantasias tolas ou seguindo códigos duros. Essas coisas podem levar ao desespero, egoísmo ou orgulho, três das portas do Inferno. Viver as alegrias e dificuldades da vida sob o olhar amoroso de Deus é já o início do Céu. É este o espírito do Natal, a salvação do Menino que sorri na miséria do Presépio.»

«E se a gente se deixasse de conversas e se agarrasse à Matemática?» disse o Ibrahim. «Os testes são logo a seguir ao Ano Novo e, se não marrarmos agora, não há espírito de Natal que nos salve.»

JOÃO CÉSAR DAS NEVES é escritor e professor português.