|
 |
 |
O menininho do Presépio
João Simões Lopes Neto
- Olhe! Aí está um peão do major Vieira; jogo o pescoço se ele
não traz invite pra ir lá, hoje, festejar o Natal na
estância!...
Eu sei!...Aquele é gauchão buenaço!
Eu, se fosse o patrãozinho, ia. Ia, só pra ver o que é uma gente
de devoção.
E é que o seu major Vieira não era assim, não; pro caso que ele,
em moço, até que era um virado, da gente se benzer três vezes!
O major Vieira quando era cadete, haraganeava muito pela
rancheria dos postos.
A estância era grande, e entre agregados e posteiros havia um
povaréu; o patrão velho, pai dele, era mui esmoleiro e não
gostava de, perto dele, ver ninguém com cara de fome.
Mas o diabo era que o que o velho fazia com as mãos o cadete
desmanchava com os pés...
O mocito era abusador, e mais duma feita saiu ventando de certos
ranchos daqueles pagos... Sim, que um pai cria uma filha não é
pra carniça de gaudérios!... Por isso é que já os antigos
inventaram o casamento.
A divisa da estância, no fundo, faz uma quebrada forte, assim
como o cotovelo do meu braço; nesta ponta aqui, onde está a
minha mão, fica o Lagoão das Lontras, e mais pra cá passa a
estrada real.
Em certos tempos a gadaria pegava a costear o lagoão e andando,
andando, entrava na estrada e... adeus!
Assim perdeu-se numa primavera uma ponta de novilhos que se
evaporaram como sereno...
Foi um estafaréu, na estância, por causa disso; o patrão velho
ficou buzina com o capataz, que relaxou os repontes, e quase
mandou lonquear um certo Miguelão, que passava todo o santo dia
lagarteando na reserva do rancho, e de noite nunca parava em
casa...
Parece que eu estou lhe enredando o rastro, mas não ‘stou não;
vancê escuite.
É que este Miguelão não era trigo limpo; e tinha uma filha que
era uma criatura boa como uma santa, morocha linda como uma
princesa. E vai, o desgraçado obrigou a menina a casar-se com um
sujeito sem eira nem beira, e que diziam à boca pequena que era
parceiro nas velhacadas do Miguelão.
Era um mais que mouro, e meio corcunda, e tinha um lanho grande
entre a orelha e a nuca; e mal-encarado, era.
Amigo! A quincha dos ranchos esconde tanta cousa como os
telhados dos ricos!...
Marido e mulher davam assim uma idéia esquisita: vancê já
reparou quando abre um cacho de flor num jerivá velho, de casca
esbranquiçada, cheios de talos secos pendurados e um que outro
pendão esfiapado, que já deu coquinhos?...
O jerivá é uma árv’e tristonha, mas quando bota um cacho de flor
fica alegre, de enfeitada. Aquele pendão amarelo, lá de cima,
chama os olhos da gente, parece um favo de cera, de tão limpo e
dourado; chama as mandaçais, os passarinhos, os mangangás, as
joaninhas; dá cheiro que é doce; é uma boniteza pra todos os
viventes.
Assim era aquele casal: ele como o jerivá velho, ela como um
cacho de flor.
Ela chamava-se nhã Velinda: e chorava muito, às vezes.
Por que? Quem sabe lá...
Depois daquele sumiço dos novilhos, o cadete Vieira passou a
recorrer o campo por aquelas bandas; a bolear avestruzes por
aquelas várzeas; a correr veados por aqueles meios; a caçar
mulitas naquela costa; e até numa noite de breu arranjou uma
perdida – ‘magine! mas vaqueando que sorro! – mas perdida foi
que soube rumbear sobre o rancho do Miguelão...
Cousas de rapaz; que a nhã Velinda, essa, era de confiança.
Lá porque era moça, quase uma criança perto do marido, lá por
isso não era motivo pra qualquer um chegar-se de buçalete em mão
como se faz pra uma redomona pra amanusear-lhe desde a tábua do
pescoço até as ancas...
Mas o cadete gostava da moça numa paixão de verdade, diferente
de quantas cavaleiradas estava avezado a fazer.
Era uma adoração, quase um medo de ofender a querida do seu
coração; perdia a voz pra falar com ela, enredava-se nas
esporas, perdia o entono de todo o seu jeito e todo ele vivia só
nos olhos quando atentava na formosura do seu rosto.
Entrementes foi acabando o ano e já era sobre o Natal.
E vai a família do patrão velho armou um presépio na sala grande
da estância; e ele mesmo mandou avisar o vizindário todo que a
sia-dona convidava para se cantar um terço de festa, na noite
santa.
E veio tudo, velhada e crianças, moçada, namorados, e até alguns
andantes, que estavam de pouso, ficaram, todos pra louvar a Deus
na noite mais pequena do ano.
O cadete andava no meio do povo caçoísta, dançarino e
pisa-flores, mas no que chegou a gente do Miguelão, já se foi
pondo como um céu amontoado, emburrado, de dar nas vistas.
Houve jantarola e doçaria, na sombra das figueiras.
Escureceu; a sala grande estava fechada, e as moças da estância
lá dentro, preparando as luminárias; enquanto o velho e a
sia-dona pauteavam com a gente sisuda, em baixo da ramada
grande, em frente da casa, a gurizada corria na pega de
vaga-lumes, rodando por cima dos cachorros ou fazendo provas de
burlantins, nos cabeçalhos das carretas; do galpão vinha o
zunzum da peonada; na sombra do campo não se via nada, mas de lá
vinham relinchos e mugidos, cracrás das corujas e uais!.... dos
graxains...
E no ar, como uma cerração que não se via, andava o fartum dos
churrascos.
Por um segredo do destino a sia-dona mandou o cadete ver se as
luminárias estavam ou não prendidas; e vai, o moço, no entrar a
porta, topou de cara a cara com a nhã Velinda que saía,
justamente para vir chamar os donos da casa: toparam-se as
criaturas e miraram-se, num clarão que só elas viram...
As mãos se encontraram... e num de-repente, um silêncio, num
tirão das suas almas, na pressa e no lusco-fusco, perto da
gentama, numa relancina de corisco, as duas bocas famintas se
encontraram... e um beijo, um beijo que jurou pelos dois, para
toda a vida, um beijo só derrubou todas as negaças, como uma
represa de açude aluída é derrubada por uma descida de águas...
Vê vancê, a gente sabe falar, dizer muitas enredices adocicadas,
mas às vezes a palavra nem dá pra partir... e caladito no mais,
um simples beijo, largado e tronco, chega ao laço, folheirito,
de rebenque alçado!
Pobres! Nesse passo cruzou na mesma porta o Miguelão e bispou o
caso, e decerto já o foi xeretear ao genro, e atossicá-lo,
suscitando-lhe maldades...
Mas logo escancararam as janelas e a claridade da sala alumiou o
terreiro; foi um alarido de contentamento, todos se ajuntaram e
a sia-dona, puxando a ponta, entrou, para principiar o rosário.
E aquele bandão de gente entrou, e foi se acomodando, olhando
com ar de riso pasmado, toda só dizendo: o presépio! o presépio!
o presépio!
Fazia a modo uma ramada no alto de uns cerritos, e fingindo
grotas e sangões e umas reboleiras; havia esparramados uns "alimais"
entre boizinhos e ovelhas de brinquedo e outros enfeites; e mais
uns figurões mui calamistrados, de coroa, que pareciam reis, e,
pro caso, um, que era negro retinto, era o mais empacholado. E
perto destes, sobre a ponta do presépio, estava então a Senhora
Virgem e o Senhor São José, e entre eles, acamado numas
palhinhas de milhã e uns musgos e umas penugens, estava o
Menininho Jesus, ruivito e rosado, nuzinho em pêlo, pro caso
como uma criancinha que não tem pecado por mostrar as
vergonhinhas do seu corpinho de inocente.
Todos se ajoelharam de roda, mas foi nessa ponta do presépio que
a nhã Velinda ajoelhou-se; e no costado dela, como um precipício
ou em encorrentado, aí amoitou-se o cadete Vieira, talvez até
para dar o seu peito em resguardo dalgum perigo...
Não lhe conto nada!... Quando pegou a cantoria do rosário e no
cantante da reza a gente se foi enquarlando e emparelhando as
vozes, que era uma boniteza de ouvir, por aí os olhos dela
estavam como amarrados no presépio, mas os olhos dele estavam no
rosto dela, como se aí estivesse o próprio presépio, com as suas
velinhas e prateados e bichinhos mimosos...; era até um pecado
do inferno, aquela maneira de adorar gente, ali assim, nas
barbas dos santos e da Senhora Virgem e do seu Menino!...
Mas porém, lá da porta, outro olhar, raiado de sangue, estava
vendo tudo; por certo que alguma loucura de cabeça atacou aquele
cristão velho, porque, num só flagrante sem um deus-te-salve! –
o aflito aquele meneou os passos, derrubando gente, e logo o
facão relampeou na direitura do coração da nhã Velinda!...
Houve um grito d’espanto pro mode o desaforo do desatinado.
- Jesus!... foi o grito de todas as bocas.
- Ah! patrãozinho!...Olhe que às vezes, na luz das velas bentas,
se passam cousas de deixar um golpeado qualquer mais, mais
aplastado que mancarrão reiúno em mão de recruta...
Quando a ponta do ferro matador estava a uma mão atravessada....
a quatro dedos só da carne macia, aí – credo! louvado seja Deus!
– aí rolou da sua caminha de milhã... rolou e caiu no boleado do
seio da moça, na canhadita dos dois, caiu no regaço da nhã
Velinda o Menininho Jesus, como uma defesa... e aí no regaço
delicado ficou, como um dono na sua casa...
E o facão matador sentou, tironeado... depois recuando, "minuindo",
caiu mermado, mal seguro na mão sem força, do braço sem vontade,
e o cuerudo aquele deu costas e se botou porta fora, e o
Miguelão com ele, boquejando.
Tempos depois se soube que lo mataram, num entrevero, numa
bochinchada de carreiras.
Jerivá torto não dá ripa!...
Os velhos já ouviram do cadete e de nhã Velinda o que havia, e
lá arrumaram as cousas.
O que le conto é que o seu major Vieira, ainda em cadete, se
casou com a nhã Velinda, e que aquele tal Menininho Jesus ainda
hoje é o figurão do oratório e é o mesmíssimo do presépio que,
há mais de cinqüenta anos, se arma sempre na estância, no festo
do Natal.
Não lhe parece que houve um milagre? Claro! Foi por causa do
Menininho que... Se o diabinho é tão milagroso!...
J. Simões LOPES NETO
(Pelotas — RS, 1865 — Pelotas, 1916). Enquanto vivo, o escritor
não teve sua obra reconhecia. Consideravam-no por outros
motivos, não pelos seus livros. A modificação a seu respeito
aconteceria a partir de 1924, através de estudos críticos de
João Pinto da Silva, Augusto Meyer e Darcy Azambuja. Desde
então, seu nome começou a tomar vulto na posteridade, para
afinal impor-se como nosso maior escritor regionalista. A
copiosa bibliografia hoje existente sobre a sua obra, em que
avultam os trabalhos de Flávio Loureiro Chaves e Lígia C. Moraes
Leite, não deixa dúvidas a esse respeito. Com ele o regionalismo
ultrapassou as aparências nativistas e as limitações localistas,
para tornar-se francamente universal, como sempre acontece com
os criadores verdadeiramente representativos da sua terra e da
sua gente. Dos três livros por ele publicados em vida, dois se
encarregariam, postumamente de fazer-lhe a "carreira literária":
"Contos Gauchescos" (1912) e "Lendas do Sul" (1913), ambos
editados pela Livraria Universal, de Pelotas — RS.
|