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Epistolário
Sylvia R. Pellegrino
Na primavera de 2001 ele descobriu que o amor crescia em seu
ser, como acontece aos amantes daquela estação. Nada parecia
aplacar aquele sentimento, nem mesmo seus encontros furtivos com
as esquálidas garotas da sociedade curitibana. Maria Eduarda
soubera, com sua inteligência arguta, envolvê-lo totalmente.
Sob o fascínio daqueles longos cabelos negros e brilhantes, o
intelecto sobressaía em faíscas de raciocínio rápido e culto. Os
olhos o percebiam em suas mínimas reações e devolvia-lhe através
dos lábios a sabedoria de sua pequenez. Exatamente. Sentia-se
diminuto diante dela.
Seu sofrimento era maior ao perceber o completo absurdo de seus
sentimentos. Em outras palavras, intuía quão tolo fora ao se
deixar enredar por conceitos interessantes e inteligentes, se o
coração não lhe respondia aos anseios. Mas ela realmente era um
ser estranho dentro da sociedade em que perambulava.
Somente na solidão de seu quarto, tarde da noite, conseguia
escrever. No papel tornava-se o cavalheiro talentoso, que
imaginava ser o objeto dos sonhos dela. As respostas também
partiam de sua mente e eram guardadas separadamente. No entanto,
quando o dia amanhecia e a encontrava, a articulação das
palavras, os gestos, tudo era desastroso.
Os dias passavam e suas cartas noturnas se amontoavam, sem
encontrar eco na realidade diária.
Esta correspondência solitária durou meses, gerando refrigério à
alma angustiada de Fernando. Como todo amante atormentado,
Fernando tornara-se visionário e desfrutava silenciosamente de
sua amada nos segredos engendrados naquele epistolário. Sua
felicidade tornava-se desmedida e o deixava assombrado quando
relia aquelas cartas.
Assim, um dia, reticente e impreciso, procurou um amigo.
Precisava desabafar. Não se correspondia. Sofria apenas. Não
mentiu, disse que mostrava seu segredo, porque era fruto de sua
imaginação. Estava se tornando doentio.
Não percebeu que o amigo ao ler os escritos não acreditou.
Invejou-lhe a sorte, pois tudo estava descrito com riqueza de
detalhes e Maria Eduarda era o sonho de todos eles. Depois,
Renato, o amigo, era tido como o escritor da turma e nada do que
escrevia se comparava com o que agora lia. A beleza, agonia e
magia daquelas páginas faziam dele um poeta, que se mortificava
e se encantava com sua felicidade. Ninguém escrevia daquela
forma sem ser verdadeiramente correspondido e nem razões para
tão-só fantasias amorosas nos anos 2000.
Fernando permitiu que Renato copiasse algumas linhas das cartas,
para tirar frases de efeito aos seus poemas, depois de as ter
lido com vagar. E não percebeu que Renato tentava captar
sentimentos que imaginava serem de Maria Eduarda, para tirar
temas às conversas do escritório, imaginando-se envolvê-la em
suas próprias teias intelectuais. Não podia ouvir as conclusões
de Renato: “O sortudo já teve o seu pedaço. Agora é minha vez de
mostrar conhecer o temperamento e gostos de Maria Eduarda e
fazê-la observar-me com mais atenção. Tenho certeza de que as
cartas são verdadeiras e que por alguma razão indecifrável
Fernando está escondendo a verdade através de tergiversações
mentirosas. Preciso dar uma lição em Fernando e a única forma
plausível é tomar-lhe o objeto de desejo – Maria Eduarda”.
Fernando chegou às portas da loucura e pensou em contar para
Maria Eduarda o que se passava em seu íntimo. Lógico que não a
deixaria jamais ter acesso ao seu epistolário, inclusive por
suas discórdias internas. Aquela luta férrea que travava entre
render-se à timidez ou continuar na tentativa de demonstrar mais
inteligência na conversação atiçava o fogo impiedoso da culpa
interna. Até mesmo sua profissão estava sendo atingida por
aquele comportamento compulsivo.
O escritório fervilhava naquele horário e ele sentia apenas
vontade de ir para casa e escrever continuadamente em busca de
respostas para seu desalento. “Fernando”, disse Maria Eduarda,
enquanto ele sofregamente se voltou, buscando um olhar de
amorosa compreensão. Mas o olhar era duro e estava voltado para
um problema a ser resolvido. “Aquele caso da partilha de bens já
foi sanado? Vamos falar com a viúva, para que componha com seus
enteados, ou deixaremos que eles procurem outro advogado fora do
escritório?”. Fernando a olhou embevecido. “Pelo que percebo,
continua com algum problema indefinido e os assuntos do
escritório parecem não atingi-lo”. Gostaria imensamente de
retorqui-la, explicar seus sentimentos, fazer um comentário
inteligente sobre aquele caso, mas ela o subjugava e suas
vontade e inteligência pareciam diluir diante daquele olhar.
Voltou para casa naquele dia e exorcizou seus demônios,
escrevendo várias cartas cada vez mais apaixonadas, com
respostas que o satisfaziam. Era a maneira que encontrava para
manter a mente sã. Se é que havia algo de saudável naquele modo
de viver. Até mesmo Renato se permitira fugir de suas obsessões
e não mais lera qualquer coisa que lhe apresentava. Aliás, ele
andava esquivo, desde que sua amizade com Maria Eduarda se
estreitara. Agora outra coisa vagava pela mente de Fernando. A
possibilidade de Renato contar sobre as cartas a Maria Eduarda.
Aquilo espremia seu cérebro como um torniquete. Fernando tentava
aniquilar dentro de si aquele pavor que crescia a cada dia. “Era
óbvio que Renato não havia falado nada. Ela o teria abordado
sobre aquilo, com sua sagacidade habitual”.
Enfim, voltava-se com fúria para suas cartas, em busca da paz e
do amor inatingíveis. Adentrava às portas da fantasia fresca,
silenciosa e afável. Lá ficava horas a fio, depurando sua
solidão.
Naquele inverno de 2002 chegou ao escritório enregelado, mas sua
alma endureceu realmente quando percebeu a troca de sorrisos e
olhares entre Renato e Maria Eduarda. O amigo sabia de seus
sentimentos por ela, no entanto ali estavam. Rodopiou e voltou
para casa.
Passou alguns dias errando pelas ruas da cidade sem saber aonde
ir. Deixou celular em casa, tornou-se incomunicável.
Decidiu, finalmente, voltar para casa. A arma era uma atração
irresistível. Pegou-a. Acariciou o metal gelado. Soltou sobre a
mesa, foi até o armário, pegou o baú com seu epistolário e o
abriu. Era como ter a presença dela ali. Lentamente pegou a
arma, abriu a boca e atirou. Caiu no vácuo.
Quando voltou a si não entendia exatamente o que acontecia ao
seu redor. Não reconhecia nenhum daqueles rostos, somente o
dela. Maria Eduarda estava ali e o olhava demoradamente. As
lágrimas caíam abundantes e ela acariciava lentamente o rosto
dele. Não se recordava do que havia acontecido, mas era muito
bom tê-la ao lado dele.
Os dias corriam vagarosos. Ele foi aos poucos recordando e a
cada vez que ela entrava ele voltava a se encolher. Ela percebeu
o gesto e começou a ler as cartas a ela dirigidas. “São lindas”
falou, num sopro. “Só não precisava fazer aquilo”, complementou
docemente. “Se não tinha coragem de me dizer, podia tê-las
enviado”.
Fernando estendeu a mão num gesto de agradecimento e tentou
pronunciar alguma coisa, mas não conseguiu. A voz agora
realmente não saía. A morte o poupara, mas não à sua garganta.
Optou por olhá-la apenas, num pedido mudo de perdão.
SYLVIA R. PELLEGRINO além de ter publicado três livros,
vários contos em antologias, revistas e jornais também já
exerceu o ofício de editora. Foi editora-chefe das revistas
Estilo In e Boletim Cult, da Editora Pellegrino, da qual era um
de seus proprietários.
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