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Encontro às escuras
Aline Ponce
“Então, tá. Amanhã, às duas da tarde, no parque municipal. Vou
te esperar sentada num dos bancos...” De pé, em frente ao
espelho, ele relembrava as palavras dela, tão bem impressas
haviam ficado na sua mente que chegava até mesmo a ver os pontos
e as vírgulas. As reticências que teimavam aparecer ao final não
chegavam a incomodá-lo, percebera mesmo um pouco de hesitação na
sua voz. Mas a certeza inerente aos apaixonados, a do amor
inabalável que eles necessitam ter para continuar amando,
fazia-o acreditar que ela compareceria ao encontro.
O encontro fora marcado depois de eles conversarem por semanas
ao telefone. Nunca haviam se visto. Um dia, o telefone tocou,
ele atendeu, era engano, mas ele insistiu, queria saber de quem
era a voz feminina do outro lado. Sempre fazia isso. Puxava papo
até com as moças de tele marketing. Dizia para elas que sabia,
que tinha certeza, intuição mesmo, que ele conheceria a mulher
de sua vida assim, casualmente, numa conversa de telefone. Nunca
convencera moça alguma, até esse dia. A voz feminina do outro
lado respondeu seu nome e a conversa rendeu uma amizade
provisória, como um ensaio para o grand finale, que não tardou a
acontecer, logo estavam prontos para o sentimento que se
manifestava. E agora ele estava na frente do espelho pensando
num traje para usar no encontro. Mas para além da escolha do
traje, uma dúvida o encarcerava. Ele não tinha o braço esquerdo
e ela não sabia. Quis contar várias vezes, mas sempre recuava
como uma criança travessa diante da mãe castradora. O espelho,
impiedoso, acusava sua falta.
Nasceu assim, do ombro não partia nada, acabava ali, sem
explicação. A mãe, mortificada com a notícia do defeito do
filho, culpou-se durante meses, como era congênito?, vinha dela
então? O médico explicou, mas ela só se acalmou depois que
buscou conforto na tragédia da vizinha: o filho tão aguardado
era autista. “Pelo menos, meu filho me reconhece.”
Olhando para a imagem ausente do braço, lembrou-se do primeiro
dia de aula no jardim de infância, também o primeiro dia que se
lembra na vida. Chegou de mãos dadas com a mãe ao portão da
escola, nem deu tempo de se soltar, um menino apontou gritando:
“Olha, ele não tem um braço!”. E a mãe dizendo para ele ser
homem e enxugar aquelas lágrimas, que homem não chora. “Mas eu
não era um homem, eu era um menino.” E o menino descobriu que
era diferente. A mãe lhe dizia que, mesmo sem ter um braço, ele
podia ser feliz. “Como, mãe, se eu não posso soltar pipa igual a
todo mundo?” A mãe mostrava o filho da vizinha: “Ele não sabe
nem o que é pipa.” A comparação com o autista não lhe trazia o
mesmo efeito que o provocado na mãe. “Ele tem os dois braços,
não solta pipa porque não quer.” Riu do raciocínio infantil,
observou os dentes refletidos no espelho como quem nota um
pássaro intruso na paisagem; virou-se para o armário e pegou a
prótese. O primeiro braço mecânico foi uma doação dos pais de um
coleguinha rico, já que sua mãe, e somente ela, pois pai não
tinha, não podia arcar com a compra de um. Voltou da escola
chorando, carregando o braço na mão direita; disse à mãe que
nunca mais ia usá-lo, porque não queria ser o Capitão Gancho da
turma. “Bobagem, meu filho.” “Mas eu queria ser O Homem de Seis
Milhões de Dólares, o homem biônico da TV.” “O filho da vizinha
não pode ser nem a Mulher Biônica!” Não adiantou, o braço ficou
esquecido no fundo do armário. Agora, tinha uma prótese moderna,
totalmente flexível, mas ainda um corpo estranho. “Como fui bobo
em não contar a ela.”
Foi ela quem tomou a iniciativa de se encontrarem. Achou que
estava na hora. “Não somos mais tão jovens, sabemos o que
queremos, pelo menos de minha parte, e sei que quero ficar com
você, pra que então perdermos mais tempo?” Ele, sem olhar para o
lado, assentiu e o encontro foi marcado para o dia seguinte.
Muito pouco tempo para assimilar a novidade, pensaria ele mais
tarde, num misto de arrependimento e covardia. Mas o encontro
estava marcado, não ia fugir, “já não basta não ter um braço,
não vou ter coragem também?”
Ajustou a prótese, passou o olhar pelo tronco e parou nas
pernas. Um dia, assistindo à TV, ficou impressionado quando viu
num comercial um garoto que não podia jogar bola porque era
para-lítico. Paralítico, foi a mãe que explicou, não pode andar
porque não tomou a vacina, teve paralisia. Poliomielite,
aprendeu o nome da doença na aula de Ciências. Foi uma
reviravolta em sua vida. Descobriu que havia gente em situação
pior que a dele, ele pelo menos podia jogar futebol, desde que
não ficasse no gol. Começou então a sentir prazer em pensar em
quantos meninos como aquele do comercial existiam por aí, sem
poder brincar como as outras crianças; ele ainda podia correr, e
o outro? preso para sempre na cadeira de rodas. Com o tempo, na
adolescência, percebeu que havia outros tipos de defeitos, os
escondidos, defeitos de caráter. Passou a procurar nas pessoas
qualquer tipo de imperfeição, até mesmo as circunstanciais.
“Aquele é pobre, mora na favela, o outro é corno, coitado.” Era
como se pegasse uma lanterna e fosse invadindo a vida alheia,
esmiuçando as cavernas mais profundas; queria desvendar a
podridão escondida nas entranhas. Tornou-se perito nisso. “Esse
critica demais, deve ter alguma frustração.” De tanto procurar
subterrâneos, resolveu estudar espeleologia. Mas desistiu,
quando no dia do vestibular, um sujeito espinhoso, que estava na
sua frente, disse-lhe com ar cínico que aquilo não era para
qualquer um. “Pra qualquer um, todo mundo, menos o maneta aqui”,
pensou. Apesar de o sujeito ter várias espinhas no rosto, que o
tornavam um ser repugnante à primeira vista, seu defeito não o
impedia de usar os braços numa eventual escalada. Resignou-se
diante do óbvio: sem um braço para lhe dar apoio, não teria a
segurança necessária. Cogitou uma prótese, mas a idéia, afastada
desde a infância pelo episódio do cyborg, teve que ser adiada.
Ou a prótese, ou a faculdade particular de alguma coisa. De
Direito, resolveu mais tarde. “Não ter o braço esquerdo não me
fará falta ao Direito.” Só a mãe achava graça, “um doutor na
família”, dizia para a mãe do autista, o qual freqüentava uma
escola especial, sabe-se lá o que fazia. Voltou a atenção
novamente para o armário, repassou alguns cabides, pensou numa
camisa de manga comprida, esconderia a prótese, “bobagem, uma
hora ela vai ver.”
Ela demonstrava ser racional e ao mesmo tempo romântica:
“Querido, não quero que tenha ilusões quanto a mim, quero que vá
ao meu encontro de coração aberto, como eu irei. Se nos amamos
de verdade, nada vai se interpor na nossa relação.” Parecia
adivinhar seus pensamentos: “Não tenha medo do que vou pensar de
você, já conheço sua alma, por isso posso dizer que te amo,
mesmo sem jamais tê-lo encontrado pessoalmente.” Apesar de crer
no sentimento mútuo, faltava-lhe a mesma determinação. Como um
anão diante de Gulliver, sentia-se amedrontado com a confiança
dela. Imaginava-a linda e perfeita como uma deusa esculpida com
maestria. A dúvida que o encarcerava parecia se avolumar cada
vez que a idealizava. Não concebia a perfeição ao lado do
mutilado. Sua Vênus era completa.
Vasculhando o armário, reviu a camisa miúda que usou no dia da
primeira comunhão. A camisa, de uma manga apenas, foi feita pela
mãe, assim como todas as outras, cuidadosamente arrematadas à
altura do ombro esquerdo. Uma vez disse na aula de catecismo:
“Deus não fez o homem a sua imagem, senão todos tinham que ser
iguais, com dois braços.” Os coleguinhas riram escanda-losamente.
A professora, abismada, mais com a consciência precoce do
menino, do que com seu atrevimento, não achou outra saída para
manter a ordem na classe e expulsou-o da sala. A mãe quando
soube apenas sorriu, mais de resignação do que de vergonha. O
filho da vizinha era pior, muito pior, não podia sequer fazer
primeira comunhão. Mas ele não fez a primeira comunhão, não
naquela igreja, não voltou mais à aula de catecismo: o riso
escandaloso dos colegas não foi nada cristão. Implorou tanto,
que a mãe acabou concordando que ele fizesse as aulas na
paróquia vizinha. Lá, ele não disse nada, e os colegas nunca
riram escandalosamente dele.
A voz da amada, sempre doce a dizer palavras carinhosas, por
vezes lhe doía o coração. Sempre esperou algo semelhante de sua
mãe, mas ela, apesar de cumprir as funções esperadas, nunca foi
afável. Havia sempre o gosto amargo da comparação. Na idade
adulta, compreendia melhor a frustração dela e o lenitivo
encontrado. Mesmo depois de ir morar sozinho para advogar em
outra cidade, a mãe continuava com as referências, até que um
dia se calou. A vizinha a convidara para um recital e ela, como
quem recebe a notícia da própria morte, descobrira que o autista
sabia tocar piano. Desde então, como num pacto de silêncio entre
criminosos, mãe e filho nunca mais mencionaram o assunto. A
representação da mulher ideal se fortalecia no contraste entre o
amargor da mãe e a doçura da amada. No último telefonema
trocado, em que combinaram o encontro, ele sentiu mais uma vez a
falta de ternura da mãe: “Não tenha medo de se expor, todos nós
temos defeitos. O importante é o que carregamos dentro de nós. O
essencial é invisível aos olhos, como disse Saint-Exupéry.”
“De perto, ninguém é normal, como disse Caetano Veloso.” A
constatação da frase dita, quase que mecanicamente, trouxe-o de
volta ao espelho. Aproximou-se até onde podia enxergar com
nitidez. De repente, parecia enxergar sua verdadeira imagem,
como se a lanterna, antes usada para investigar a vida alheia,
agora estivesse voltada para si próprio. A consciência de tudo o
que fizera até então manifestava-se em forma de enxurrada, todos
os abjetos encontrados, revirados, esmiuçados com prazer;
cicatrizes mal fechadas, a dor que nunca sara. Sempre procurando
nos outros algo que desculpasse a sensação de imperfeição. Pela
primeira vez, olhou para dentro de si, no escuro da alma e viu
sua própria escuridão. O podre de suas entranhas exposto, em
carne morta, putrefata. Começou a transpirar medos, a expirar
angústias. Vomitou julgamentos verminosos, atos purulentos.
Perdeu os sentidos por alguns segundos, enquanto o espírito se
esvaziava. Acordou em forma de pluma, com sede e frio. Não
possuía mais o braço direito, nem as pernas, nem ossos, nem
pele; no tronco, somente um órgão pulsando. De sua cabeça, a
claridade surgia. Parado em frente ao espelho, temeu pelo
atraso. Vestiu a melhor camisa e a melhor calça que julgou
encontrar. Antes de sair, contemplou seu reflexo de corpo
inteiro.
E ele foi. Viu ao longe a moça que o esperava. Tinha certeza que
era ela. Aproximou-se, Suzana?, sim. De imediato, estranhou sua
atitude, ela parecia não querer olhá-lo de frente. “Está com
medo que eu a ache feia.” Riu para si, enquanto colocava a mão
no queixo dela. “Não, espere, eu preciso te falar uma coisa”,
disse com a mesma voz hesitante do telefone. Foi então que ele
percebeu: ela também tinha um defeito para lhe mostrar. Era
cega.
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