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Dialógica
Alexandre Acampora
Olha, eu não sei com muita clareza o que sinto por você. Nós nos
conhecemos há tão pouco tempo. Me sinto forte a seu lado. Só de
pensar em você fico excitado, desejando ficar no teu rumo, no
teu movimento. Mas não sei de nada. Estou me separando ainda. É
recente demais minha separação.
É claro, tava tudo errado. Era uma relação que se sustentava por
conta do amor a meus filhos. Pensava ser possível levar uma vida
com dedicação exclusiva a minhas crias, apesar da frustração da
convivência com Bete.
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É impossível, inviável querer viver com uma mulher que não se
ama mais por causa dos filhos. É confusão o tempo todo. Pior foi
a crise da saída de casa, com crianças chorando e tudo o que um
dramalhão mexicano dá de direito ao fim de um casamento. Tava me
achando o cara mais ridículo do planeta. E depois, as mágoas de
Bete impedindo meus passeios com os meninos. Agora ela sabe de
você e acredita que nos conhecemos durante o casamento. Acha que
você já era minha amante e que nos planejamos essa situação de
antes.
Eu morando nesse velho apartamento de minha família. Lugar sem
qualquer estrutura. Sem móveis, sem tralha de cozinha, sem
conforto. Não sei, não sei com certeza o que sinto ou o que nós
podemos esperar um do outro. Viver junto com outra mulher é
coisa que não passa por minha cabeça pelo menos por enquanto.
Toda essa coisa de repartir, partilhar, reconhecer os limites e
os direitos do outro. Ser, politicamente correto sem
chauvinismo, sem egoísmo.
Olha, a Bete me exigia tamanhas posturas corretas e dignas de
uma coexistência supostamente sadia que acredito que não vou
casar nunca mais.
Não quero saber de reviver aquilo outra vez. Será que toda
relação a dois tende à burocracia, à perversão? Quando casei com
Bete experimentava uma emoção tão potente, tão pujante...
Confiava na durabilidade de minha paixão.
Pensava na relação e no casamento de minha mãe e de meu pai.
Cinqüenta anos de bodas. Sobreviveram a dificuldades
inimagináveis. Quando nossas crises iniciaram, achei que
superaríamos tudo. Depois, como não tivemos êxito nas tentativas
de superação, ruiu o edifício da boa memória afetiva de minha
família. Pude então entender por minha própria experiência, que
minha mãe e meu pai não superavam suas dificuldades e crises.
Dissimulavam, enganavam a eles próprios e mantinham os conflitos
nos segredos das noites no quarto de dormir. Brigavam em
silêncio para que não soubéssemos, para que não dividíssemos as
encrencas existenciais aflitivas dos dois com o todo do grupo
familiar. Eles empurraram com a barriga suas crises e
escamotearam os resultados e conseqüências perversas do desastre
que havia entre os dois.
Via com olhos críticos os outros meninos da escola que os pais
eram separados. A permanência, a estabilidade do casamento de
minha mãe e meu pai guardava minha felicidade afetiva. Todavia
era mentira, lorota, se odiavam e destilavam suas abominações
com parceiros obtusos, desconhecidos, que não podiam ser
integrados à nossa amizade e companheirismo porque representavam
o papel social de adúlteros. Como é difícil aceitar tanta
estupidez em nome da moral, dos bons costumes, da família, da
boa constância da mesmice da vida. Vidas dedicadas à alienação e
à desagregação psicológica.
No tempo que casei, houve como que um terremoto simultâneo
destroçando os últimos pisos, os derradeiros chãos onde aquela
relação erguia baldrames. Os dois morreram pouco depois. Um de
cada vez e todos os dois de depressão.
Não sei e acho que não desejo saber onde nosso amor pode ou deve
chegar, mas não vou pensar nisso agora. Eu compreendo sua
ansiedade, de certa forma eu me sinto um tanto assim também, mas
não posso estruturar uma nova vida com você agora.
Estou apaixonado, acredito na paixão. Você é uma mulher
maravilhosa. Parece realizar minhas fantasias. Mais ainda,
parece interpretar com decisão e gosto os traços de desejos meus
sobre possuir uma mulher. Eu te quero, te desejo, te vejo e
arrepio com a certeza de nossa circunstância sensual, amorosa,
romântica.
Será que você pode me entender, me decifrar? Preciso ficar só,
preciso reconstruir alguma coisa, algo meu está perdido ou
desaparecido dentro de mim mesmo. Talvez seja impossível volver
a amar alguém com a mesma intensidade que amei e me entreguei ao
amor de Bete. O nome disso é trauma? Se tiver esse nome então
estou traumatizado. Quem sofre um trauma necessita um período de
reflexão, de repouso dos sentidos. Deixar baixar a poeira para
enxergar outra vez as possibilidades do amor.
Penso... Melhor, temo que, se der inicio a uma relação duradoura
com você, volte a cometer os erros perpetrados contra Bete. E
ainda tenho medo dos fluxos, das partes de sua personalidade que
só se revelarão no dia-a-dia, no cotidiano, na história da
relação sem os floreios e os encantos desses momentos. Sonho com
a eternização do tesão da paixão. Isso será crível?
Quando observava a falsa boa vida conjugal de meus pais, tinha
fé no tesão da paixão como um sentimento revestido e protegido
dos males do mundo. Tinha fé na permanência da sensação insana
da fidelidade interna do sexo, do prazer sexual. Mas o amor está
mais para Heráclito do que para Reich. As coisas se modificam,
se transformam. E se transformam para os dois, então, segurar
essa barra é para quem tem estrutura de caráter, de história de
vida pessoal. Para quem pode e deve se orgulhar disso. É para
quem pode esnobar o ciúme. É para quem pode se dar ao luxo de
amar a humanidade ao invés de amar uma pessoa somente. É para
quem não carrega medos e mentiras na formação da consciência,
como eu carrego a mentira do casamento cinqüentenário de meus
pais. Dá pra me entender?
Dá, dá pra te entender só que você também não é capaz de
sensibilizar os meus sonhos e pesadelos, a história da derrocada
da minha relação com o Meirelles. Você sabe, compreende, mede o
que é ser casada por dez anos com um psicanalista freudiano?
Pode tentar entender o quanto eu também sofri? As interpretações
diárias que o Meirelles realizava sobre meus comportamentos? Os
complexos, as taras, as neuroses? O tudo que fui acusada e
diagnosticada como deprimida, fria, doentia, maluca. Ser casada
com um cara que tem o reconhecimento público de um cientista de
grande importância política, e que, no entanto, dentro de casa,
não passa de um rato. Calculista, machista, exercendo controle
sobre todos os passos da tua vida. Querendo sempre saber com
quem você esteve, com quem almoçou, com quem vai se encontrar. E
além do mais, brocha, invariavelmente brocha. Incapaz
sexualmente e cuidando da vida mental dos outros e destruindo a
vida de com quem convive.
Eu pensava que essa praga havia abolido minha capacidade de
amar, até que conheci você e pude experimentar a mim mesma como
uma pessoa saudável e normal por gostar de sexo. Não vou te
exigir nada, nenhuminha decisão. Pra mim é difícil saber se sou
capaz de voltar a morar com alguém e viver um dia-a-dia de
intensa paixão. Eu quero acreditar na permanência do amor da
descoberta, do amor da paixão. Eu vou te entender e te entendo
pelo mesmo motivo que você me solicita compreensão. Eu também
estou destroçada.
Então vamos nos ver nos momentos que o coração pedir. Vamos
estar juntos sem forçar a barra. Não vamos nos impor limites. A
única regra que vamos adotar é a da liberdade. O respeito a
nossas individualidades. Aos desejos de cada um. Não queremos
acabar. Vamos deixar as coisas andarem a seu próprio ritmo. Cada
é cada um. Vamos admitir que é possível para alguém apaixonado a
maior das liberdades do ser, a realização do amor pela
oportunidade do encontro.
ALEXANDRE ACAMPORA é escritor com
cinco livros publicados entre poesia, contos, crônicas e
história.É carioca e está no estado do Tocantins desde 1998. Foi
secretário de cultura da cidade de Palmas e atualmente é
cronista dominical do jornal Folha Popular.
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