De fantasmas e outras assombrações

Cláudio Aguiar

Vem, agora, o poeta Majela Colares, com este curioso livro de contos, marcar sua estréia na prosa. É, antes de qualquer consideração, um acontecimento auspicioso, porque, mais uma vez, fica provado que, a exemplo de outros poetas, a prosa não é território exclusivo de prosadores, assim como em alguns casos a poesia não é privilégio daqueles que se consideram "puros poetas", se assim podemos chamar os cultores do belo.

Os especialistas em estética literária são unânimes em afirmar que a arte do conto, ao contrário do que muitos pensam, é gênero preferido por escritores iniciantes, talvez pela ilusão da brevidade. Não desconfiam eles que nesse particular reside um dos mais difíceis requisitos da arte de contar uma história. Esse gênero, na verdade, só se apresenta fácil na aparência. O conto, como qualquer outra obra de arte, é tarefa difícil, no sentido de que deve ser praticado com o emprego dos mesmos critérios gerais inerentes à boa obra de arte: talento e imaginação criadora.

É velhíssima a assertiva de que qualquer coisa que se conte pode ser considerada um conto. Ainda que Cervantes afirme que nenhuma história é má se leva em conta a verdade, há quem defenda exatamente o contrário. De fato, a invenção literária prescinde do enfoque da verdade, mas não de certos requisitos, que, a modo de ingredientes, provocam um climax capaz de comover o leitor e, justamente por isso, o conduz, de página em página, até o final do livro.

A primeira impressão dada pelos contos de Majela Colares é que foram escritos de uma só assentada, sem nenhuma preocupação técnico-formal, seguindo, apenas, aquela voz interior que, na maioria dos casos, guia a pluma do escritor. Essa facilidade, porém, é aparente. Na frase de Colares notamos o toque mágico do poeta que habita no prosador, emprestando à narrativa um sentido de arredondamento, de fecho final, pontuado por uma clara economia que beira ao essencial, porém, nunca perdendo de vista o inusitado e o imprevisto, elementos indispensáveis à arte do conto.

O Fantasma de Samoa, de Majela Colares, a rigor, não é só um livro de fantasmas e arrepiantes assombrações. Corre por suas páginas um halo que ultrapassa a peripécia e, de imediato, chega a um mundo onírico.

Essa realidade, no entanto, quer queiramos ou não, vive dentro de nós mesmos como se fora uma lembrança perdida da infância. Ainda que a ilusão e a fantasia sejam categorias que, em geral, dizem respeito a todos os homens, infeliz aquele que não guarde, para sempre, no mais profundo recôndito da memória, inolvidáveis momentos que poderíamos chamar de "horas da infância". São justamente nesses socavões de nossa existência onde habitam, adormecidos ou não, os fantasmas e as assombrações que agora nos vem mostrar Majela Colares.


CLÁUDIO AGUIAR, romancista, teatrólogo e ensaísta, autor, dentre outros, de Caldeirão e Suplício de Frei Caneca.