O Cristo do mar


Anatole France

Tradução de Roberto Schmitt-Prym

Naquele ano, vários pescadores de Saint-Valéry afogaram-se no mar. Os corpos, devolvidos à praia pela maré, foram encontrados junto com os restos dos seus barcos, e durante nove dias foram vistos, na trilha montanhosa que conduz à igreja, esquifes carregados nos ombros e acompanhados por viúvas em pranto, sob grandes mantos negros, como as mulheres da Bíblia.

Assim, foram o patrão Jean Lenoël e seu filho Désiré depostos na grande nave, sob a mesma arcada a que haviam pouco antes pendurado, em oferenda à Santa Virgem, um navio com todo o seu massame. Tinham sido homens justos e tementes a Deus, e o abade Guillaume Truphème, vigário de Saint-Valéry, tendo-lhes absolvido, disse em lágrimas:

- Jamais foram depostas em solo sagrado, para aí aguardarem o juízo de Deus, criaturas mais virtuosas e cristãos mais devotos que Jean Lenoé e seu filho Désiré.

E enquanto os barcos com seus donos pereciam ao longo da costa, grandes navios soçobravam ao largo, e não se passava dia sem que o oceano produzisse algum destroço. Então, certa manhã, meninos que remavam num batel viram uma figura em decúbito à tona do mar. Era um Cristo, em tamanho de homem, esculpido em madeira dura, pintado em cores naturais, e parecia uma obra antiga. O Cristo flutuava nas águas de braços estendidos. Os meninos o guindaram para bordo e o conduziram a Saint-Valéry. A coroa de espinhos cingia-lhe a fronte. Os pés e as mãos estavam traspassados. Mas faltavam os cravos, assim como a cruz. Com os braços ainda abertos para oferecer-se e bendizer, tinha a mesma postura em que o haviam visto José de Arimatéia e as santas mulheres no momento de o amortalhar.

Os meninos o levaram ao vigário Truphème, que lhes disse:

- Esta imagem do Messias é de valor antigo, e quem o executou certamente de há muito não pertence aos vivos. Ainda que os negociantes de Amiens e de Paris vendam hoje por cem francos, e até mais, estátuas primorosas, é necessário reconhecer que os artesãos de outrora tinham também o seu merecimento. Mas o que me alegra é sobretudo o pensamento de que, se o Salvador vem assim, de braços abertos, a Saint-Valéry, é para abençoar a paróquia tão cruelmente provada, e mostrar a sua piedade por essa pobre gente que na pesca arrisca a sua vida. Ele é o Deus que caminhou sobre as águas, e abençoou as redes de Cefas.

E o cura Truphème, tendo mandado depositar o Cristo na igreja, sobre a toalha do altar-mor, tratou de encomendar ao carpinteiro Lemerre uma bela cruz em lenho de carvalho.

Pronta esta, nela pregaram o Cristo com pregos novos, e o colocaram na nave, por sobre o banco dos mordomos.

Foi então que se viu que os seus olhos estavam repletos de misericórdia e pareciam umedecidos por uma celeste compaixão. Um dos tesoureiros, que assistia à instalação do crucifixo, acreditou ver lágrimas correrem pela divina face.

Na manhã seguinte, entrando com o acólito na igreja para dizer a missa, o vigário surpreendeu-se ao ver na parede a cruz vazia, e o Cristo deitado sobre o altar.

Tão logo acabou de celebrar o santo ofício, mandou chamar o carpinteiro e perguntou-lhe por que ele havia tirado o Cristo da cruz. Mas o carpinteiro respondeu que não lhe havia tocado. E, depois de interrogar o sacristão e os fabriqueiros, o abade Truphème assegurou-se de que ninguém entrara na igreja desde o momento em que o Cristo fora dependurado.

Ocorreu-lhe então que aquelas coisas fossem milagrosas, e meditou sobre elas com prudência. No domingo seguinte referiu-as na prédica aos seus paroquianos, e convidou-os a contribuir com donativos para a ereção de uma nova cruz mais bela que a primeira e mais digna de suster o Redentor do mundo.

Os pobres pescadores de Saint-Valéry deram todo o dinheiro que puderam, e as viúvas entregaram as suas alianças. Com o que o abade Truphème pôde ir imediatamente a Abbeville encomendar uma cruz de madeira negra, muito reluzente, encimada por uma tabuleta com a inscrição INRI em letras douradas.

Dois meses mais tarde plantaram-na no lugar da primeira, e a ela pregaram o Cristo entre a lança e a esponja.

Mas Jesus deixou-a como à outra, e foi, depois do anoitecer, estender-se sobre o altar.

Ao encontrá-lo de manhã, o vigário caiu de joelhos e orou por muito, tempo. A notícia do milagre espalhou-se por toda a redondeza, e as damas de Amiens promoveram peditórios para o Cristo de Saint-Valéry. O abade Truphème recebeu de Paris dinheiro e jóias, e a mulher do ministro da Marinha, Sra. Hyde de Neuville, enviou-lhe um coração de diamantes. Com todas essas riquezas, um ourives da Rue de Saint-Sulpice compôs, em dois anos, uma cruz de ouro e pedrarias, que. foi inaugurada em meio a grande pompa na igreja de Saint-Valéry, no segundo domingo após a Páscoa do ano de 18 * *.

Mas Aquele que não recusara o madeiro doloroso escapou-se daquela cruz tão rica e foi de novo estender-se sobre o linho branco do altar.

Com medo de ofendê-lo, deixaram-no ficar desta vez, e ele ali repousava por mais de dois anos quando Pierre, filho de Pierre Caillou, veio dizer ao senhor cura Truphème que tinha encontrado na areia da praia a verdadeira cruz de Nosso Senhor.

Pierre era um inocente, e como não tivesse entendimento bastante para ganhar a vida, davam-lhe pão, por caridade; e gostavam dele, porque era incapaz de fazer mal. Mas costumava engrolar coisas sem nexo, a que ninguém dava ouvidos.

Contudo, o abade Truphème, que incessantemente matutava no mistério do Cristo do mar, deixou-se impressionar pelo que contara o pobre idiota. Com o sacristão e dois fabriqueiros, dirigiu-se ao lugar onde o rapaz afirmava ter visto uma cruz, e ali encontrou duas pranchas guarnecidas de pregos, que as vagas haviam rolado durante muito tempo, e que efetivamente formavam uma cruz.

Eram detritos de um antigo naufrágio. Em uma das pranchas distinguiam-se ainda duas letras pintadas em preto, um J e um L, e não cabia duvidar que fosse um fragmento do barco de Jean Lenoel que, cinco anos antes, perecera no mar com seu filho Désiré.

Vendo aquilo, o sacristão e os fabriqueiros começaram a rir de um inocente que tomava as tábuas esfaceladas de um barco pela cruz de Jesus Cristo. Mas o vigário Truphème lhes atalhou as zombarias. Ele meditara muito e muito orara desde que o Cristo do mar fizera a sua aparição em meio aos pescadores, e o mistério da infinita caridade começava a se lhe revelar. Ele ajoelhou-se na areia, recitou a oração pelos fiéis defuntos, depois ordenou ao sacristão e aos fabriqueiros que carregassem aos ombros o destroço e o depositassem na igreja. Feito isto, ergueu o Cristo de sobre o altar, colocou-o sobre as pranchas do barco e pregou-o, com suas próprias mãos, com os pregos corroídos pelo mar.

Por ordem sua, a nova cruz ocupou, a partir do dia seguinte, sobre o banco dos mordomos, o lugar da cruz de ouro e pedrarias. E nunca mais o Cristo do mar dali se despregou. Aprouve-lhe permanecer naquele lenho sobre o qual homens morreram a invocar-lhe o nome e o de sua Mãe. E ali, entreabrindo a boca augusta e dolorosa, ele parece dizer: .A minha cruz é feita dos sofrimentos dos homens, pois em verdade vos digo que eu sou o Deus dos pobres e dos desvalidos...


Anatole François Thibault, literariamente conhecido por ANATOLE FRANCE, nasceu em 1844 e faleceu em 1924. Um dos mais notáveis escritores franceses modernos é autor de grande número de livros que são hoje considerados obras-primas, tanto pela sua fina ironia e riqueza de temas, como pela incomparável elegância do estilo. Iniciou-se nas letras em 1873, com o volume de versos "Poemas Dourados", a que se seguiu o volume, também de poesias, "Núpcias Corintias". Depois, nunca mais escreveu senão em prosa, contando-se por dezenas os volumes com que enriqueceu a literatura de seu país e do mundo. Destacam-se, de suas obras, as seguintes: "O Crime de Silvestre Bonnard", "Thais", "O Lírio Vermelho", "A Ilha dos Pingüins", "O Anel de Ametista", "O Manequim de Vime", "O Sr. Bergeret em Paris", "As Sete Mulheres de Barba Azul", "Historia Contemporânea" e outras.