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O Vermelho

Somerset Maugham
Tradução de Roberto Schmitt-Prym
O capitão meteu a mão num dos bolsos das calças e, com alguma
dificuldade porque os tinha à frente e não aos lados e era
corpulento, tirou para fora um grande relógio de prata.
Consultou-o e depois tornou a encarar o sol poente. O canaca ao
leme deitou-lhe um olhar rápido, mas não falou. Os olhos do
capitão fixaram-se na ilha que se aproximava. Uma linha branca
de espuma assinalava os recifes. Ele sabia que havia uma
passagem suficientemente larga para o navio, e contava vê-la
quando se aproximassem um pouco mais. Ainda tinham uma hora de
luz do dia. A laguna era funda e nela poderiam ancorar
confortavelmente. O chefe daquela aldeia que já se avistava por
entre os coqueiros era amigo do imediato e seria agradável
passar a noite em terra. Nesse momento o imediato aproximou-se,
e o capitão virou-se para ele.
- Vamos levar conosco uma garrafa de aguardente e arranjar
algumas garotas para dançar - disse ele.
- Não vejo a passagem - disse o imediato.
Era um canaca, tipo simpático e moreno, com algo dos últimos
imperadores de Roma, com tendência para engordar; mas os traços
do rosto eram finos e bem delineados.
- Tenho certeza absoluta que há uma precisamente por aqui -
disse o capitão, olhando pelo binóculo. - Não compreendo porque
é que a não vejo. Manda um dos homens subir ao mastro para dar
uma olhada.
O imediato chamou um homem da tripulação e deu-lhe a ordem. O
capitão viu-o trepar ao mastro e esperou que ele dissesse alguma
coisa. Mas o canaca gritou que não via nada a não ser a
ininterrupta linha de espuma. O capitão falava samoano como um
nativo, e insultou-o copiosamente.
- Quer que ele fique lá em cima? - perguntou o imediato.
- E que diabos vai fazer lá? - respondeu o capitão. - O filho da
mãe não vê um palmo adiante do nariz. Podes ter a certeza que eu
veria logo a passagem se estivesse lá em cima.
Olhou o delgado mastro com raiva. Era muito fácil para um
indígena habituado a trepar aos coqueiros toda a sua vida. Mas
ele era gordo e pesado.
- Podes descer - gritou. - És tão inútil como um cão morto.
Temos de ir ao longo dos recifes até encontrarmos a passagem.
Era uma escuna de setenta toneladas, revestida de parafina;
andava, quando não tinha vento contrário, a uma velocidade de
quatro a cinco nós por hora. Uma coisa imunda; outrora fora
pintada de branco, mas agora estava suja e manchada. Cheirava
fortemente a parafina e a copra, que era o seu carregamento
habitual. Estavam agora a cerca de trinta metros da linha dos
recifes e o capitão disse ao homem do leme que fosse ao longo
dela até encontrarem a passagem. Mas depois de algumas milhas
compreendeu que a tinham perdido. Mandou virar de bordo, e
regressaram lentamente. A espuma branca dos recifes continuava
sem interrupção, e o sol já desaparecia no horizonte.
Praguejando para a estupidez da tripulação, o capitão
resignou-se a esperar até à manhã seguinte.
- Ponham o barco ao largo - disse ele. - Não podemos ancorar
aqui.
Navegaram mar adentro e já era noite. Ancoraram. Quando ferraram
as velas, o navio começou a balouçar muito. Em Ápia diziam que
ele um dia ainda se viraria de borco; e o proprietário, um
germano-americano que era dono de grandes armazéns, dizia que
não havia dinheiro no mundo capaz de fazê-lo viajar nele.
O cozinheiro, um chinês de calças brancas muito sujas e rasgadas
e uma pequena bata branca, veio dizer que o jantar estava
pronto; quando o capitão entrou na cabina, encontrou o
maquinista já sentado à mesa. O maquinista era um homem magro e
comprido, de pescoço de galinha. Vestia um macacão azul e uma
camisa sem mangas, que mostrava os braços delgados, tatuados do
cotovelo ao punho.
- Bem, temos de passar a noite a bordo - disse o capitão.
O maquinista não respondeu; jantaram em silêncio. Uma pálida
lâmpada de óleo iluminava a cabina. Quando acabaram de comer os
damascos de conserva com que terminava o jantar, o chinês
trouxe-lhes uma xícara de chá. O capitão acendeu um charuto e
foi para o convés. A ilha agora era apenas uma massa escura de
encontro à noite. As estrelas brilhavam intensamente. O único
som era o contínuo quebrar das ondas. O capitão afundou-se numa
cadeira de bordo, fumando ociosamente. Três ou quatro membros da
tripulação subiram e sentaram-se. Um deles trazia um banjo e
outro uma concertina. Começaram a tocar; um cantou. O cântico
nativo soava estranhamente naqueles instrumentos. Depois, a
acompanhar a música, dois começaram a dançar. Era uma dança
bárbara, selvagem e primitiva, rápida, com movimentos sacudidos
das mãos e dos pés e contorções do corpo; sensual, mesmo sexual,
mas sexual sem paixão. Era muito animal, direta, estranha mas
sem mistério - natural, em resumo, - e poder-se-ia mesmo dizer
infantil. Por fim cansaram-se. Estenderam-se no deck e
adormeceram, e tudo ficou em silêncio. O capitão ergueu-se
pesadamente da cadeira e desceu pela íngreme escada do
tombadilho. Entrou na sua cabina e despiu-se. Depois subiu no
beliche e deitou-se. Arquejava, tal era o calor da noite.
Mas na manhã seguinte, quando a aurora deslizou ao longo do mar
tranqüilo, a tal passagem dos recifes que os arreliara na noite
anterior apareceu, um pouco a leste de onde estavam. A escuna
entrou na lagoa. Não havia uma ruga à superfície da água.
Viam-se pequenos peixes coloridos, no fundo, nadando por entre
os bancos de coral. Depois de o navio ter ancorado, o capitão
tomou o desjejum e subiu ao convés. O sol brilhava num céu sem
nuvens, mas àquela hora da manhã o ar estava agradável e fresco.
Era domingo, e havia uma sensação de quietude, um silêncio, como
se a própria natureza estivesse descansando, que lhe deu uma
estranha sensação de conforto. Sentou-se, olhando a costa
arborizada, e sentiu-se preguiçoso e bem disposto. Um sorriso
assomou-lhe aos lábios; atirou o toco do charuto à água.
- Vou até terra - disse ele. - Lancem o bote à água.
Desceu a escada com ar importante; e o barco levou-o a uma
pequena enseada. Os coqueiros vinham até à orla da água, não em
fileiras, mas espaçados numa formalidade ordenada. Davam idéia
de um grupo de solteironas dançando um bailado clássico, em
atitudes afetadas com o sorriso tolo de uma idade passada. O
capitão vagueou preguiçosamente entre eles, seguindo um caminho
tão tortuoso que mal se via, que o conduziu até um ribeirão.
Havia uma ponte por cima; mas uma ponte feita de uma escassa
dúzia de troncos de coqueiro, colocados topo a topo e suportados
nas juntas por forquilhas de ramos de árvore enterrados no leito
da corrente. Tinha de se caminhar por uma superfície redonda e
lisa, estreita e escorregadia, e não havia corrimão. Para se
atravessar uma ponte dessas é preciso ter pés firmes e coração
forte. O capitão hesitou. Mas viu no outro lado, aninhada no
meio das árvores, a casa de um homem branco; decidiu-se e, com
um passo hesitante, começou a andar. Olhava onde punha os pés,
e, nos lugares em que os troncos se juntavam e onde havia uma
diferença de nível, tropeçava. Foi com um suspiro de alívio que
alcançou o último tronco e finalmente pisou chão firme do outro
lado. Estivera tão ocupado com a difícil travessia que nem
reparara que estava sendo observado, e foi com surpresa que
ouviu alguém dirigir-lhe a palavra.
- É preciso coragem para atravessar estas pontes, quando se não
está habituado a elas.
Ergueu os olhos e viu um homem na sua frente. Tinha saído,
evidentemente, da tal casa.
- Vi-o hesitar - continuou o homem, com um sorriso nos lábios, e
estava esperando vê-lo cair.
- Isso é coisa que nunca verá - disse o capitão, que tinha
recuperado a confiança em si próprio.
- Eu próprio já caí. Lembro-me de uma noite em que eu voltava da
caça e caí dentro de água com espingarda e tudo. Agora arranjo
sempre um rapazinho para me levar a espingarda.
Era um homem de certa idade, com uma pequena barba já um pouco
grisalha e um rosto magro. Vestia uma camisa sem mangas e calças
de lona. Não tinha nem meias nem sapatos. Falava inglês com um
leve sotaque.
- Você chama-se Neilson? - perguntou o capitão.
- Sim.
- Já ouvi falar. Calculei que morasse por aqui.
O capitão, seguindo o dono da casa, entrou no pequeno bangalô e
sentou-se pesadamente na cadeira que o outro lhe indicou com um
gesto. Enquanto Neilson ia buscar whisky e copos, o capitão
passeou o olhar pela sala. Ficou admirado. Nunca vira tantos
livros. As estantes iam desde o chão até ao teto nas quatro
paredes, e encontravam-se apinhadas de livros. Havia um grande
piano coberto de partituras, e uma larga mesa com livros e
revistas amontoados em desordem. A sala fê-lo sentir-se
embaraçado. Lembrou-se de que Neilson era um tipo estranho.
Ninguém sabia muito acerca dele, embora já vivesse nas ilhas
havia muitos anos; mas aqueles que o conheciam concordavam em
considerar Neilson estranho. Era sueco.
Tem um monte de livros aqui - disse ele, quando Neilson voltou.
- Não fazem mal a ninguém - respondeu Neilson com um sorriso.
- Leu-os todos? - perguntou o capitão.
- A maior parte.
- Eu também gosto muito de ler. Leio todas as semanas o
Saturday Evening Post.
Neilson encheu um bom copo de whisky forte ao seu visitante e
ofereceu-lhe um charuto. O capitão resolveu prestar alguns
esclarecimentos.
- Cheguei ontem à noite, mas não consegui encontrar a passagem.
Por isso tive de ancorar fora. Nunca tinha feito esta rota, mas
tive de trazer mercadorias para cá. Para um tal Gray; conhece?
- Sim, tem um armazém aqui perto.
- Bem, ele pediu uma grande porção de conservas, em troca de
copra. E eles pensaram que era melhor mandarem-me cá, em vez de
estar sem o que fazer em Ápia. Geralmente viajo entre Ápia e
Pago-Pago, mas agora anda por lá a varicela e o comércio está
parado.
Bebeu um gole de whisky e acendeu o charuto. Era homem de poucas
palavras, mas havia em Neilson qualquer coisa que o enervava; e
essa sensação obrigava-o a falar. O sueco olhava-o com grandes
olhos escuros, em que havia uma expressão de ligeiro
divertimento.
- Pois aqui é um lugar muito bom.
- Faço o que posso.
- Deve fazer bom dinheiro com as suas árvores. Têm ótimo
aspecto. E com a copra ao preço que está... Eu também já tive
uma plantaçãozinha, em Upolu, mas tive de vender.
Tornou a percorrer a sala com os olhos; todos aqueles livros
davam-lhe sensação de qualquer coisa incompreensível e hostil.
- Deve achar isto um bocado monótono, apesar de tudo.
- Habituei-me. Já estou aqui há vinte e cinco anos.
O capitão não conseguiu lembrar-se de mais nada para dizer, e
continuou fumando num silêncio que Neilson parecia não ter
desejos de quebrar. O sueco fitava com olhar meditativo o seu
hóspede. Este era um homem alto, com mais de um metro e oitenta,
muito corpulento. O seu rosto era vermelho e manchado, com
ramais de pequenas veias purpurinas nas faces, e as feições
submergiam-se na gordura. Os olhos, raiados de sangue. O
pescoço, enterrado em rolos de banha. Não tinha cabelo, exceto
uma comprida franja encaracolada, quase branca, na parte de trás
da cabeça; e essa imensa e brilhante superfície da testa, que
lhe poderia dar um falso aspecto de inteligência, dava-lhe pelo
contrário um ar de particular imbecilidade. Trazia vestidas uma
camisa de flanela azul, aberta no pescoço, que lhe deixava ver o
peito gordo, coberto de uma floresta de pelos avermelhados, e
calças de sarja azul muito velhas. Alastrava na cadeira com uma
atitude desajeitada e pesada, e a enorme barriga espetada para
frente e as gordas pernas abertas. Toda a elasticidade
desaparecera dos seus membros. Neilson perguntava-se,
ociosamente, que espécie de homem fora aquele na mocidade. Era
quase impossível imaginar que esta criatura de enorme volume
tivesse sido menino, a correr de um lado para o outro. O capitão
acabou o seu whisky, e Neilson empurrou a garrafa para o lado
dele.
- Sirva-se à vontade.
O capitão inclinou-se para frente e com a sua grande mão pegou
na garrafa.
- E como é que o senhor veio parar aqui? - disse ele.
- Ah, eu vim para estas ilhas por causa da saúde. Estava mal dos
pulmões e ninguém me dava mais de um ano de vida. Como vê,
enganaram-se.
- Quero eu dizer - como é que se decidiu a fixar-se aqui?
- Sou um sentimentalista.
- Ah!
Neilson sabia que o capitão não fazia a mínima idéia do que ele
dissera, e mirou-o com um brilho irônico nos olhos escuros.
Talvez por o capitão ser um homem tão bruto e estúpido,
apeteceu-lhe falar mais.
- Você estava demasiadamente ocupado em não perder o equilíbrio
para ter reparado, quando atravessou a ponte; mas este lugar é
geralmente considerado bastante bonito.
- É realmente uma casinha engraçada, esta sua.
- Ah, não existia quando para cá. Havia uma cabana indígena, com
o telhado em forma de colméia, sobre pilares, à sombra de uma
grande árvore com flores vermelhas; e os arbustos de cróton, com
folhas amarelas vermelhas e douradas, formavam uma sebe colorida
em volta. E depois havia por toda a parte os coqueiros, garridos
como mulheres, e tão fúteis como elas. Ficavam à beira da água e
passavam os dias a mirarem a imagem refletida nela. Eu era um
homem novo nessa altura - meu Deus, foi há um quarto de século!
– e queria gozar todas as coisas belas do mundo no pouco tempo
que me restava antes de mergulhar na escuridão eterna. Pensei
que era o mais belo lugar que vira em toda a minha vida. Da
primeira vez que o vi senti apertar-me o coração, e pensei que
ia chorar. Tinha só vinte anos; e, por mais que procurasse
conformar-me, não queria morrer. E no entanto parecia que a
própria beleza do lugar me tornava mais fácil aceitar o meu
destino. Quando cheguei, senti que toda a minha vida passada
desaparecera - Estocolmo e a sua Universidade, e depois Bonn:
tudo isso me parecia a vida de outra pessoa, como se finalmente
tivesse acabado por alcançar a realidade que os nossos doutores
em filosofia - sou um deles, sabe? - tanto têm discutido. "Um
ano", dizia eu para comigo. "Tenho um ano. Passá-lo-ei aqui e
depois poderei morrer."
Aos vinte e cinco anos somos tolos, sentimentais e
melodramáticos, mas se o não fossemos talvez tivéssemos menos
juízo aos cinqüenta.
Mas beba, meu amigo. Não preste atenção demasiada à minha tola
conversa.
Indicou a garrafa com a mão magra, e o capitão emborcou o que
ficara no copo.
- Você não está bebendo coisa alguma, - disse ele, pegando na
garrafa.
- Sou de hábitos sóbrios, - sorriu o sueco. - Embriago-me de
maneiras que penso serem mais subtis. Seja como for, os efeitos
são mais duradouros e os resultados menos deletérios.
- Dizem que agora nos Estados Unidos estão usando muita cocaína,
- disse o capitão.
Neilson riu.
- Mas é raro que eu encontro um branco, continuou, e uma vez na
vida não será um pouco de whisky que me irá fazer mal.
Deitou um pouco no copo, adicionou soda, e tomou um trago.
- E depois descobri porque é que este lugar tinha tal beleza
extraterrena. Aqui o amor parava por um momento, como uma ave
emigrante que encontra um navio no meio do oceano e por um curto
instante dobra as asas cansadas. O aroma de uma paixão pairava
sobre tudo isto como a fragrância das silvas em maio nos prados
da minha terra. Parece-me que os lugares onde os homens amaram
ou sofreram conservam para sempre à sua volta um ligeiro aroma
de qualquer coisa que não morreu inteiramente. É como se
tivessem adquirido um significado espiritual que misteriosamente
afeta os outros que por eles passam. Gostaria de saber
exprimir-me com clareza. - Sorriu levemente. - Embora creia que
mesmo que o fizesse, você não me compreenderia.
Fez uma pausa.
- Acho que este lugar era maravilhoso por eu ter sido amado aqui
de uma forma intensa. - Encolheu os ombros. - Mas talvez isto
seja apenas por meu senso estético aceitar a feliz conjugação de
um amor jovem e de um cenário adequado.
Até mesmo um homem menos imbecil do que o capitão ficaria
admirado com as palavras de Neilson. Porque parecia fazer troça
daquilo que ele próprio dizia. Era como se falasse movido por
uma emoção que o seu cérebro achasse ridícula. Ele próprio
dissera que era um sentimentalista, e quando o sentimentalismo
anda junto ao cepticismo, as pessoas muitas vezes sofrem os
horrores do inferno.
Calou-se por um momento e contemplou o capitão com um olhar
perplexo.
- Sabe, não posso deixar de pensar que creio já o ter visto
nalgum lugar - disse ele.
- Confesso que não me lembro do senhor - respondeu o capitão.
- Tenho a curiosa sensação de que a sua cara não me é estranha.
Tenho tentado me lembrar, mas não consigo situar essa recordação
em qualquer lugar ou qualquer época.
O capitão encolheu os ombros maciços.
- Já há trinta anos que vim para estas ilhas. Um homem não se
pode lembrar de toda a gente que encontrou em trinta anos.
O sueco abanou a cabeça.
- Você sabe como a gente às vezes tem a sensação de que um lugar
onde nunca se esteve nos é estranhamente familiar. É o que me
sucede consigo. Talvez eu o tenha conhecido numa existência
passada. Talvez, talvez você fosse o capitão de uma galera da
Roma antiga e eu um dos escravos nos remos. Há trinta anos que
anda por estas regiões?
- Trinta anos certos.
- Por acaso terá conhecido um homem chamado Vermelho?
- Vermelho?
- Foi esse o único nome por que eu o conheci. Nunca o conheci
pessoalmente. E apesar disso parece-me vê-lo mais nitidamente do
que a muitos outros homens - os meus irmãos, por exemplo, com os
quais passei a minha vida diária durante muitos anos. Vive na
minha imaginação com a nitidez dum Paolo Malatesta ou dum Romeu.
Mas você se calhar nunca leu Dante ou Shakespeare?
- Confesso que isso nunca li.
Neilson, fumando um charuto, recostou-se na cadeira e olhou
negligentemente o anel de fumo que flutuava no ar parado. Depois
olhou para o capitão. Havia na sua larga obesidade qualquer
coisa de extraordinariamente repelente. Tinha a pletórica
satisfação dos muito-gordos. Era um insulto. Aquilo irritou
Neilson. Mas o contraste entre o homem na sua frente e o homem
em que estava pensando era divertido.
- Parece que o Vermelho era o homem mais belo que jamais se viu.
Tenho falado com muita gente que o conheceu nessa época - homens
brancos, é claro - e todos concordam que a beleza dele, a
primeira vez que o víssemos, até nos tirava o fôlego.
Chamavam-lhe Vermelho por causa do cabelo cor de fogo. Era
ondeado, e ele usava-o comprido. Devia ser dessa maravilhosa cor
de que os pré-rafaelistas tanto gostavam. Não creio que ele
fosse vaidoso por isso, era demasiadamente simples para tal; mas
ninguém o poderia censurar se fosse. Era alto, com mais de um
metro e oitenta - na cabana indígena que havia aqui estava uma
marca da sua altura: um golpe de faca no tronco central que
sustentava o telhado, - e tinha a figura dum deus grego, largo
de ombros e estreito de ancas; era como Apolo, com aquelas
linhas maciçamente arredondadas que Praxíteles lhe deu, e aquela
graciosidade suave e feminina que tem qualquer coisa de
perturbante e misterioso. A sua pele era deslumbrantemente
branca, leitosa, como cetim; era como a pele duma mulher.
- Eu também tinha a pele branca quando era garoto, - disse o
capitão, com um brilho nos olhos raiados de sangue.
Mas Neilson não lhe prestou atenção. Estava agora contando a sua
história, e as interrupções impacientavam-no.
- E o seu rosto era tão belo como o corpo. Tinha grandes olhos
azuis, muito escuros, a tal ponto que muita gente dizia serem
negros; e, ao contrário da maior parte das pessoas ruivas, tinha
negras as sobrancelhas e as longas pestanas. Os seus traços
fisionômicos eram perfeitamente regulares e a sua boca como uma
ferida escarlate. Tinha vinte anos.
Aqui o sueco parou, com certo sentimento dramático. Bebeu um
gole de whisky.
- Era único. Nunca houve alguém mais belo. A sua existência
explica-se pela mesma razão por que pode numa planta silvestre
desabrochar uma flor maravilhosa. Era um feliz acidente da
natureza.
"Um dia aportou àquela enseada onde você deve ter desembarcado
esta manhã. Era um marinheiro americano, e desertara de um navio
de guerra em Ápia. Convencera algum indígena de bom coração a
dar-lhe uma passagem num cutter partiria de Ápia para Safoto, e
trouxeram-no a esta enseada numa canoa.
Não sei por que desertou. Talvez não suportasse a vida num barco
de guerra, com a sua disciplina, ou talvez estivesse metido em
apuros; ou então talvez fossem os Mares do Sul e estas ilhas
românticas que lhe entraram no corpo. De vez em quando elas
tentam estranhamente um homem, fazem dele uma mosca numa teia de
aranha. Pode ser que houvesse nele certa moleza de fibra, e
estas colinas verdes com o seu ar macio, e este mar azul lhe
roubassem a força nórdica - tal como Dalila a de Sansão. Seja
como for, pretendia esconder-se e pensou que estaria em
segurança neste recanto isolado, até que o navio partisse de
Samba.
"Havia uma cabana indígena na enseada; e enquanto ele hesitava,
pensando para onde devia ir, uma rapariga saiu da cabana e
convidou-o a entrar. O Vermelho apenas sabia duas ou três
palavras da linguagem indígena, e ela a mesma coisa de inglês.
Mas compreendeu perfeitamente o que significavam o sorriso e os
graciosos gestos, e seguiu-a. Sentou-se numa esteira, e ela
ofereceu-lhe fatias de abacaxi. Nunca conheci o Vermelho
pessoalmente, mas vi a rapariga três anos depois de ele a ter
encontrado; nessa altura tinha ela dezenove anos. Não pode
calcular como era maravilhosa. Tinha a graça apaixonada do
hibisco e a sua rica coloração. Era bastante alta, delgada, com
as delicadas feições da sua raça, e grandes olhos como lagos
tranqüilos sob os palmeirais; o cabelo negro e encaracolado,
caía-lhe pelas costas; e trazia uma grinalda de flores
perfumadas. As mãos eram lindas - tão pequenas, tão
maravilhosamente desenhadas, que faziam parar o coração de quem
para elas olhava. E nessa época ria-se com facilidade. Um
sorriso tão delicioso que perturbava. A pele era como um campo
de trigo maduro num dia de verão. Meu Deus, como posso eu
descrevê-la? Era bela demais para ser real.
E esses dois jovens - ela com dezesseis anos e ele com vinte -
apaixonaram-se à primeira vista. Esse é o verdadeiro amor, não o
amor que resulta da simpatia, ou de interesses comuns, ou de
afinidade intelectual, mas o amor puro e simples. Esse é o amor
que Adão sentiu por Eva quando acordou e a viu no paraíso
olhando-o com olhos orvalhados. Esse é o amor que atrai os
animais uns para os outros, e os deuses. É esse o amor que dá à
vida o seu intenso significado. Você nunca ouviu falar naquele
sábio e cínico duque francês que dizia que, entre dois amantes,
há sempre um que ama e outro que se deixa amar? É uma amarga
verdade, à qual quase todos nós temos de nos resignar; mas, de
vez em vez, há dois que se amam e ao mesmo tempo se deixam amar.
Então podemos imaginar que o sol pára na sua órbita - como parou
quando Josué rezou ao Deus de Israel.
"E mesmo agora, depois de todos estes anos, quando penso nesses
dois - tão jovens, tão puros, tão simples - e em todo o seu
amor, sinto uma angústia no coração. Sinto meu coração
rasgar-se, tal como quando em certas noites vejo a lua cheia a
refletir-se na lagoa, do alto de um céu limpo de nuvens. Provoca
sempre sofrimento a contemplação da beleza perfeita.
"Eram como crianças. Ela era meiga, doce, bondosa. Dele não sei
nada, mas gosto de imaginar que, então, ele era em tudo simples
e franco. É-me agradável imaginar que a sua alma era tão correta
quanto o seu corpo. Mas estou em dizer que ele não tinha mais
alma do que os habitantes dos bosques e das florestas que faziam
flautas de cana e se banhavam nas torrentes da montanha - quando
o mundo ainda era jovem, e se podiam ver pequenos faunos
galopando escarranchados no lombo de um centauro barbudo através
das clareiras. A alma é um objeto incômodo, e quando o homem a
criou perdeu o Jardim do Éden.
"Ora, quando Vermelho chegou à ilha, esta fora recentemente
assolada por uma dessas epidemias que os brancos trazem para os
Mares do Sul, e a terça parte dos habitantes morrera. Parece que
a moça perdera todos os seus parentes próximos e vivia agora em
casa de primos afastados. Nessa casa viviam duas velhotas,
curvadas e enrugadas, duas mulheres mais novas, um homem e um
rapaz. Durante alguns dias ele viveu lá. Mas talvez se sentisse
demasiadamente perto da praia, com a possibilidade de dar de
cara com algum branco que poderia revelar o seu esconderijo;
talvez os amantes não pudessem suportar que a companhia dos
outros os roubasse por instante que fosse ao prazer de estarem
sozinhos. E assim, uma manhã partiram - os dois sozinhos, - com
as poucas coisas que pertenciam à moça, e caminharam ao longo de
uma trilha relvada, por entre os coqueiros, até que chegaram a
este regato. Tiveram de atravessar a ponte que você hoje
atravessou, e a moça ria alegremente porque ele tinha medo. Ela
ajudou-o até chegarem ao fim do primeiro tronco, mas aí ele
perdeu a coragem e teve de voltar atrás. Foi obrigado a despir a
roupa toda antes de se arriscar, e ela levou-lha à cabeça.
Instalaram-se na cabana vazia que aqui estava. Se ela tinha ou
não direitos sobre essa cabana (aqui nas ilhas a propriedade das
terras é uma questão complicada), ou se o dono dela morrera na
epidemia, é coisa que não sei. Mas fosse como fosse ninguém os
incomodou, e eles apossaram-se dela. A mobília consistia
unicamente nas duas esteiras de palha em que dormiam, no
fragmento de um espelho, e em duas ou três tigelas. Isso chega
para montar casa nesta maravilhosa terra.
"Dizem que as pessoas felizes não têm história, e na verdade um
amor feliz não a tem. Durante todo o dia não faziam coisa alguma
- e apesar disso os dias pareciam-lhes curtos. A moça tinha um
nome indígena, mas Vermelho chamava-lhe de Sally. Aprendeu com
facilidade a língua indígena, e costumava ficar horas seguidas
na esteira ouvindo-a falar-lhe alegremente. Ele era um tipo
calado; talvez o seu espírito fosse preguiçoso. Fumava
incessantemente os cigarros que ela lhe fazia com tabaco
indígena e folhas do pântano, e observava-a enquanto ela fazia
esteiras de palha com as mãos ágeis. Frequentemente apareciam
indígenas, e contavam longas histórias dos velhos tempos em que
a ilha era agitada pelas guerras entre as tribos. Às vezes ia
pescar nos recifes e voltava trazendo um cesto cheio de peixes
coloridos. Às vezes ia à noite com uma lanterna pescar lagostas.
Havia frutos nos arredores da cabana, e Sally assava-os para as
suas frugais refeições. Sabia fazer deliciosos pratos com coco;
e a árvore-do-pão que havia perto do regato abastecia-os de
frutos. Em dia de festa matavam um leitão e assavam-no sobre
pedras quentes. Banhavam-se no regato; e à noite iam até à
lagoa, onde passeavam numa canoa indígena. O mar era
azul-escuro, cor de vinho ao pôr do sol, como o da Grécia
homérica; mas na lagoa a cor da água tinha infinitas variantes -
turquesa, ametista, esmeralda; - e o sol poente transformava-a,
durante um curto momento, em ouro líquido. E havia também a cor
do coral, castanho, branco, cor de rosa, vermelho, púrpura; e as
formas que ele tomava eram maravilhosas. Era como um jardim
mágico, onde os peixes velozes eram borboletas. Era
estranhamente irreal. Entre os bancos de corais havia lagos com
fundo de areia branca onde, numa água espantosamente límpida,
era muito agradável tomar banho. Depois, ao crepúsculo, frescos
e felizes, regressavam lentamente pela trilha de erva macia,
caminhando de mãos dadas, enquanto os pássaros enchiam os
coqueiros com a sua algazarra. E depois a noite, com este enorme
céu salpicado de pontos dourados que parece ser maior do que os
céus da Europa, e a macia brisa que atravessava suavemente a
cabana aberta, a longa noite também era curta. Ela tinha
dezesseis anos, ele mal tinha vinte. A aurora rastejava por
entre os pilares de madeira da cabana e vinha contemplar essas
encantadoras crianças dormindo nos braços uma da outra. O sol
escondia-se atrás das grandes e velhas folhas das palmeiras para
os não incomodar, e depois, com graciosa malícia, dardejava um
raio dourado nos seus rostos, como a pata estendida dum gato
angorá. Abriam os olhos sonolentos e sorriam, em boas-vindas a
um novo dia. As semanas cresceram, meses, e um ano passou. E
eles pareciam amar-se tão... hesito em dizer apaixonadamente,
porque a paixão tem sempre em si uma sombra de tristeza, uma
ponta de amargura ou de angústia;... mas tão completamente, tão
simples e naturalmente como nesse primeiro dia do seu encontro,
em que compreenderam terem um deus dentro de si.
"Se alguém lhes tivesse perguntado, não tenho dúvida de que
responderiam ser impossível que o seu amor morresse. Não sabemos
nós que o elemento essencial do amor é a crença na sua
eternidade? E contudo talvez houvesse já em Vermelho uma pequena
semente, desconhecida dele próprio e não suspeitada pela moça,
que com o correr do tempo cresceria em enfado. Porque um dia um
dos indígenas da enseada disse-lhes que um barco inglês de pesca
da baleia estava ancorado a alguma distância da costa.
"- Ah, - disse o Vermelho, bem que eu gostaria de saber se eles
querem trocar uma libra ou duas de tabaco por uns cocos e umas
bananas.
"Os cigarros de pandano que Sally lhe fazia com mãos incansáveis
eram fortes e bastante agradáveis, mas deixavam-no insatisfeito;
ansiou subitamente por tabaco verdadeiro, áspero, amargo,
picante. Não fumava uma cachimbada havia muitos meses. Dava-lhe
a água na boca só de pensar nisso. Supor-se-ia que qualquer
pressentimento poderia ter levado Sally a procurar dissuadi-lo,
mas o amor possuía-a tão completamente que acreditava não haver
poder no mundo capaz de separá-lo dela. Foram aos montes
próximos buscar laranjas bravas, ainda verdes, mas doces e
sumarentas, de que encheram um grande cesto; colheram frutos das
árvores ao redor da cabana, e cocos, e frutos da árvore-de-pão,
e mangas; e transportaram-nas para a enseada. Carregaram com
eles a instável canoa; e Vermelho e o rapaz indígena que
trouxera a notícia da chegada do navio embarcaram e remaram em
direção à linha dos recifes.
"Foi essa a última vez que ela o viu.
"No dia seguinte o rapaz indígena regressou sozinho. Vinha
banhado em lágrimas. Eis a história que ele contou. Quando,
depois de remarem durante muito tempo, alcançaram o navio e
Vermelho chamou pelo capitão, um branco olhou por cima da
amurada e disse-lhes que subissem a bordo. Levaram a fruta que
haviam trazido e empilharam-na no tombadilho. O branco e
Vermelho começaram a conversar e pareceram chegar a um acordo.
Um homem da tripulação desceu e voltou trazendo tabaco. Vermelho
imediatamente pegou algum e acendeu o cachimbo. O rapaz imitava
a volúpia com que ele soprou uma grande nuvem de fumo. Depois
lhe disseram qualquer coisa e ele entrou na cabina. Olhando
curiosamente pela porta aberta, o rapaz viu-os tirarem para fora
uma garrafa e copos. Vermelho bebia e fumava. Pareceram
perguntar-lhe qualquer coisa, porque ele abanou a cabeça e
riu-se. O homem - o primeiro que lhes falara - riu-se também e
tornou a encher o copo de Vermelho. Continuaram a conversar e a
beber; e a certa altura o rapaz, cansado de observar um
espetáculo que para ele não tinha significado algum, deitou-se
no tombadilho e adormeceu. Foi acordado por um pontapé; e,
levantando-se dum salto, viu que o navio saía lentamente da
lagoa. Avistou Vermelho sentado à mesa com a cabeça descansando
pesadamente nos braços, num sono profundo. Fez um movimento na
sua direção, querendo acordá-lo, mas uma mão rude agarrou-o por
um braço, e um homem, com cara feroz e palavras que ele não
compreendeu, apontou-lhe a amurada. Gritou pelo Vermelho mas sem
resultado, nadou até à canoa que andava por ali à deriva e
empurrou-a até aos recifes. Subiu e, soluçando, remou em direção
à praia.
"O que acontecera era evidente. O barco de pesca da baleia
sofria com falta de homens - por deserção ou por doença - e
quando Vermelho subira a bordo, o capitão perguntara-lhe se
queria engajar. Perante a sua recusa, embriagara-o e raptara-o.
"Sally quase enlouqueceu de dor. Durante três dias gritou e
chorou. Os indígenas fizeram o que puderam para consolá-la, mas
ela não se conformava. Recusou-se a comer. E então, exausta,
caiu numa apatia taciturna. Passava longos dias na enseada,
olhando a lagoa, na vã esperança de que Vermelho conseguisse de
qualquer maneira escapar. Ficava sentada na areia, durante horas
e horas, com as lágrimas a correrem-lhe pelo rosto, e à noite
arrastava-se penosamente até à cabana à beira do regato onde
fora feliz. Os parentes com quem vivia antes do Vermelho chegar
à ilha queriam que ela fosse viver com eles, mas ela recusou;
estava convencida de que o Vermelho voltaria, e queria que ele a
encontrasse onde a tinha deixado. Quatro meses mais tarde deu à
luz uma criança morta, e a velha que viera ajudá-la no parto
ficou com ela na cabana. Toda a alegria se fora da sua vida. Se
a sua angústia com o tempo se tornou menos intolerável, foi
substituída por uma melancolia permanente. Ninguém imaginaria
que nesse povo, cujas emoções, embora violentas, são
passageiras, se encontraria uma mulher capaz duma paixão tão
duradoura. Nunca perdeu a profunda convicção de que, mais cedo
ou mais, o Vermelho voltaria. Estava sempre à espera dele;
sempre que alguém atravessava esta pontezinha de troncos de
coqueiro ela corria a ver quem era. Podia ser que fosse ele,
finalmente.
Neilson parou de falar e soltou um ligeiro suspiro.
- E depois o que foi feito dela? - perguntou o capitão.
Neilson sorriu amargamente.
- Ah, três anos depois se juntou com outro branco.
O capitão soltou uma larga gargalhada cínica.
- É geralmente o que lhes acontece, - disse ele.
O sueco dardejou-lhe um olhar de ódio. Não sabia por que é que
esse homem grosseiro e obeso lhe causava uma repulsa tão grande.
Mas os seus pensamentos tomaram outra direção e o espírito
encheu-o de recordações do passado. Voltou vinte e cinco anos
atrás. Fora quando pela primeira vez viera a esta ilha, cansado
das bebedeiras e do jogo e da grosseira sensualidade de Ápia,
doente, procurando resignar-se à perda da carreira que lhe
enchera a cabeça de pensamentos ambiciosos. Pusera de lado
resolutamente todos os desejos de criar um grande nome e tratara
de se contentar com os escassos meses de vida hesitante que eram
tudo com que podia contar. Morava em casa de um comerciante
mestiço que tinha uma loja a poucas milhas, numa pequena aldeia
indígena, na costa; e um dia, vagueando sem objetivo pelos
carreiros relvados por entre os coqueiros, deparara-se-lhe a
cabana em que Sally vivia. A beleza do lugar enchera-o de um bem
estar tão grande que quase era doloroso; e depois vira Sally.
Era a mais bela criatura que jamais vira e a tristeza naqueles
olhos escuros e magníficos afetou-o estranhamente. Os canacas
eram uma raça de feições simpáticas, e a beleza não era rara
entre eles, mas era uma beleza de animais bem conformados. Era
vazia. Mas aqueles olhos trágicos eram negros de mistério, e
neles pressentia-se a amarga complexidade da obscura alma
humana. O comerciante contou-lhe a história dela, que o comoveu.
"E acha que ele voltará?", perguntara-lhe Neilson.
"Não. O contrato de fretamento do navio durará ainda alguns
anos, e por essa altura já ele se terá esquecido dela. Calculo
como deve ter ficado furioso quando acordou e descobriu que fora
raptado, e não me admirava nada que tivesse querido brigar. Mas
teve de resignar-se e agüentar, e aposto que um mês depois já
achava que nada melhor lhe poderia ter sucedido do que sair
daquela ilha".
Mas Neilson não conseguiu esquecer a história. Talvez por estar
doente e fraco, a radiosa saúde do Vermelho não lhe largava a
imaginação. Homem feio, de aparência insignificante, apreciava
grandemente a beleza nos outros. Nunca amara apaixonadamente e,
com certeza, nunca fora apaixonadamente amado. A atração mútua
dessas jovens criaturas dava-lhe um singular prazer. Tinha a
inefável beleza do Absoluto. Foi outra vez à pequena cabana
junto do regato. Tinha grande facilidade em aprender línguas e
um cérebro ágil, habituado a trabalhar, e já dedicara muito
tempo ao estudo do idioma local. Por força dos velhos hábitos
estava reunindo material para um trabalho sobre o idioma samoano.
A velhota que vivia na cabana com Sally convidou-o a entrar e a
sentar-se. Ofereceu-lhe cava para beber e cigarros. Ela estava
contente por ter alguém com quem conversar, e enquanto ela
falava, ele olhava Sally. Fazia-lhe lembrar a Psique do Museu de
Nápoles. Aquelas feições tinham a mesma nítida pureza de linhas;
e, embora tivesse tido um filho, conservava um aspecto virginal.
Só ao fim de duas ou três visitas conseguiu fazê-la falar. E
mesmo isso foi para lhe perguntar se não vira em Ápia um homem
chamado Vermelho. Tinham passado dois anos desde o seu
desaparecimento, mas era evidente que ainda pensava nele
incessantemente.
Neilson não levou muito tempo a perceber que estava apaixonado
por ela. Era apenas com intervenção da sua força de vontade que
conseguia não ir todos os dias ao regato; quando não estava ao
pé de Sally, estavam-no os seus pensamentos. A princípio,
considerando-se condenado, apenas desejava vê-la, e
ocasionalmente ouvi-la falar; e este amor dava-lhe uma
felicidade maravilhosa. A sua pureza exaltava-o. Nada queria de
Sally a não ser a oportunidade de tecer à volta da sua graciosa
pessoa uma rede de belas fantasias. Mas o ar puro, a temperatura
moderada, e repouso, a comida simples, começaram a ter um efeito
inesperado sobre a sua saúde. A temperatura já não atingia tão
alarmantes alturas de noite, tossia menos frequentemente e
começou a criar peso; passaram-se seis meses sem uma hemoptise;
e subitamente entreviu a possibilidade de viver. Tinha estudado
a sua doença cuidadosamente, e começou a ter esperança de, com
grandes cuidados, poder deter-lhe a marcha. Regozijou-se ao
olhar outra vez o futuro. Fez planos.
Era evidente que não voltaria nunca a ter uma vida muito ativa,
mas podia viver nas ilhas; e o pequeno rendimento que tinha,
magro em qualquer outro lugar, seria suficiente para viver bem
aí. Poderia cultivar coqueiros; seria uma ocupação; e mandaria
vir os seus livros e um piano. Mas o seu espírito viu
imediatamente que, debaixo de todos estes planos, estava a
tentar esconder de si próprio o desejo que o obcecava.
Queria Sally. Amava não só a sua beleza mas a alma sombria que
adivinhava por trás daqueles olhos sofredores. Embriagá-la-ia
com a sua paixão. Conseguiria por fim fazê-la esquecer. E num
êxtase de rendição, imaginava-se a compartilhar com ela a
felicidade que imaginara nunca mais ter e que tão
miraculosamente alcançara.
Pediu-lhe que fosse viver com ele. Ela recusou. Já esperava isso
e não desanimou, porque tinha a certeza de que, mais tarde ou
mais cedo, ela cederia. O amor dele era irresistível. Contou à
velhota os seus desejos, e descobriu com certa surpresa que ela
e os vizinhos, sabedores há muito tempo, aconselhavam fortemente
Sally a aceitar a proposta. Afinal de contas, todo o indígena
gosta de viver com um branco; e Neilson era um branco rico,
comparado com o que era habitual na ilha. O comerciante em casa
de quem Neilson vivia foi falar com Sally e disse-lhe que não
fosse idiota; uma oportunidade dessas não tornaria a
aparecer-lhe, e depois de tanto tempo ela certamente não ia
acreditar que o Vermelho voltasse. A resistência da moça apenas
aumentava o desejo de Neilson e o que fora um amor puríssimo em
breve se transformou numa paixão desvairada. Estava decidido a
servir-se de todos os meios para conseguir o que queria. Não
dava tréguas a Sally. Por fim, vencida pela persistência dele e
pela persuasão - ora implorativa, ora zangada - de toda a gente
à sua volta, ela consentiu. Mas quando no dia seguinte,
exultante, ele a foi visitar, viu que durante a noite ela
queimara completamente a cabana onde ela e o Vermelho tinham
vivido. A velhota correu zangada ao encontro de Sally; mas ele
afastou-a; isso não tinha importância; construiriam um bangalô
no lugar onde estivera a cabana. Uma casa européia seria
realmente mais conveniente se queria mandar vir um piano e
grande número de livros.
E assim se construiu a pequena casa de madeira onde vivia há
muitos anos; e Sally tornou-se mulher dele. Mas depois das
primeiras (e poucas) semanas de encantamento durante as quais
ele se satisfizera com o que ela lhe dava, sentira-se pouco
feliz. Ela cedera por cansaço, mas só cedera naquilo que para
ela tinha pouco valor. A alma que ele obscuramente entrevira
escapava-lhe. Sabia que ela o não amava. Ainda amava o Vermelho,
e continuava à espera dele. Neilson sabia que, não obstante o
seu amor, a sua ternura, a sua simpatia, a sua generosidade, ela
o deixaria sem um momento de hesitação a um sinal do Vermelho. E
que nem pensaria na sua dor. A angústia apossou-se dele; tentou
forçar aquela impenetrável outra parte de Sally que sombriamente
lhe resistia. O amor tornou-se-lhe amargo. Tentou comovê-la com
bondade, mas o coração dela continuou tão duro como antes;
fingiu indiferença mas Sally nem deu por tal. Às vezes perdia a
paciência e insultava-a, ela chorava silenciosamente. Muitas
vezes pensava que se enganava a seu respeito - aquela alma não
passava de simples invenção dele - e que não podia entrar no
santuário do seu coração porque tal santuário não existia. O
amor tornou-se-lhe uma prisão da qual ansiava escapar; mas nem
sequer tinha força de abrir a porta - bastaria fazer isso - e
sair para o ar livre. Era uma tortura. Por fim cansou-se e
perdeu as esperanças. O fogo apagou-se; e quando via o olhar
dela pousar por um instante na delgada ponte, já não era a raiva
que lhe enchia o peito, mas a impaciência. E agora viviam há
muitos anos ligados pelos laços de hábito e da conveniência, e
era com um sorriso que pensava na sua antiga paixão. Ela estava
uma velha, porque as mulheres nas ilhas envelhecem rapidamente;
e, embora já lhe não tivesse amor, tolerava-a. Deixava-o em paz.
A ele bastavam-lhe o piano e os livros.
Aqueles pensamentos provocaram-lhe o desejo de falar.
- Quando agora olho para trás e reflito nesse breve e ardente
amor do Vermelho e Sally, penso que talvez devam agradecer-lhe
ao implacável destino que os separou quando o seu amor parecia
estar no auge. Sofreram, mas tiveram um sofrimento belo. Foram
poupados à verdadeira tragédia do amor.
- Não percebo muito bem o que quer dizer - disse o capitão.
- A tragédia do amor não é a morte ou a separação. Quanto tempo
acha você que demoraria um deles a ficar farto do outro? Ah, é
horrivelmente amargo olhar para uma mulher que amamos com todo o
coração, com toda a alma, - tanto, que sentíamos não nos
podermos separar nunca dela, - e compreender que se nunca mais a
víssemos não teríamos desgosto nenhum. A tragédia do amor é a
indiferença.
Mas enquanto falava sucedeu-lhe uma coisa extraordinária.
Conquanto se tivesse dirigido ao capitão, não falava para ele;
pusera os pensamentos em palavras para si próprio; e, com os
olhos fixos no homem em sua frente, não o vira. Mas, de repente,
uma imagem apresentou-se aos seus olhos, não a do homem que via,
mas dum outro homem. Era como se estivesse a olhar para um
daqueles espelhos curvos, que alteram as figuras, fazendo-as
extraordinariamente altas ou ultrajosamente atarracadas. Mas
aqui sucedia precisamente o contrário; e, no homem gordo e feio,
entreviu o vago aspecto de um rapaz. Examinou-o, com um olhar
rápido e perscrutador. Porque o teria trazido a este sítio uma
viagem de acaso? Um súbito baque no coração fê-lo ficar com a
respiração suspensa. Uma suspeita absurda apoderou-se dele. O
que lhe ocorrera era impossível - e contudo podia ser
verdadeiro.
- Como é que você se chama? - perguntou brutamente.
O rosto do capitão encheu-se de pequeninas rugas e ele soltou
uma gargalhada sabida.
- Já há tanto tempo que não ouço o meu nome, que quase me
esqueci dele. Mas há trinta anos que sou conhecido aqui nas
ilhas por Vermelho.
O seu corpo balofo tremia num riso baixo, quase silencioso. Era
um espetáculo obsceno. Neilson estremeceu. O Vermelho estava
divertidíssimo, e lágrimas escorriam-lhe dos olhos raiados de
sangue pela cara abaixo.
Neilson ficou suspenso - porque nesse momento uma mulher entrou
na sala. Era uma mulher indígena de aspecto um tanto impotente,
forte sem ser corpulenta, escura, pois os indígenas escurecem
com a idade, e de cabelos grisalhos. Trazia vestida uma bata
preta, que deixava adivinhar, por baixo do pano fino, os seios
pesados. Tinha chegado o momento.
Fez uma observação a Neilson a respeito de qualquer assunto
doméstico, e ele respondeu. Perguntou a si mesmo se a voz lhe
soaria tão pouco natural como a ele próprio parecia. Ela deitou
um olhar indiferente ao homem sentado ao pé da janela, e saiu da
sala. O momento tinha chegado - e passado.
Neilson não pôde falar por instantes. Estava estranhamente
abalado. Depois:
- Teria imenso prazer em que ficasse para jantar comigo. Terá
que se sujeitar ao que houver.
- Creio que não posso, - disse o Vermelho. - Tenho de ir à
procura de Gray. Entrego-lhe a mercadoria e depois me vou
embora. Quero estar amanhã em Ápia.
- Vou mandar-lhe um garoto para lhe ensinar o caminho.
- Ótimo.
O Vermelho ergueu-se com custo da cadeira, enquanto o sueco
chamava um dos rapazes que trabalhava na plantação. Disse-lhe
para onde o capitão queria ir, e o rapaz começou atravessar a
ponte. O Vermelho preparou-se para segui-lo.
- Não caia, - disse o sueco.
Neilson viu-o fazer a travessia; e, quando o outro desaparecera
por entre os coqueiros, ainda olhava. Depois se deixou cair
pesadamente na cadeira. Era então esse o homem que o impedira de
ser feliz? Era esse o homem que Sally amara durante todos esses
anos e por quem esperara tão desesperadamente? Era uma coisa
grotesca. Apoderou-se dele uma fúria repentina; apetecia-lhe
levantar-se e partir tudo à sua volta. Fora ludibriado. Eles
tinham-se visto um ao outro, finalmente, e não se tinham
reconhecido. Começou a rir, sem alegria; o riso aumentou-lhe até
se tornar histérico. Os deuses haviam-lhe pregado uma peça
cruel. E agora estava velho.
Sally entrou para lhe dizer que o jantar estava pronto.
Sentou-se a sua frente e tentou comer. Perguntava-se o que diria
se lhe contasse que o homem gordo e velho sentado na cadeira era
o amante de quem se recordava ainda com o apaixonado abandono da
sua juventude. Alguns anos atrás, quando a odiava por torná-lo
tão infeliz, teria sentido prazer em fazê-lo. Nessa altura
queria feri-la como ela o feria, porque o seu ódio apenas era
amor. Mas agora tanto lhe fazia. Encolheu os ombros, com
indiferença.
- Que queria aquele homem? - perguntou ela.
Não lhe respondeu logo. Ela também estava velha, uma indígena
velha e gorda. Ele pensava: como pudera tê-la amado tão
loucamente? Espalhara aos seus pés todos os tesouros da sua
alma, e ela não lhes fizera caso. Desperdício - que desperdício!
E agora, quando a olhava, apenas sentia desprezo. A sua
paciência acabara-se. Respondeu à sua pergunta:
- É o capitão de uma escuna. Veio de Ápia.
- Ah?
- Trouxe-me notícias de casa. O meu irmão mais velho está muito
doente e tenho de lá ir.
- Demoras-te muito?
Ele encolheu os ombros.
SOMERSET MAUGHAM nasceu
a 25 de janeiro de 1874 em Paris, onde seu pai fazia parte do
corpo diplomático britânico. Em 1927, mudou-se para a Riviera
Francesa, onde morou até sua morte, em 1965. Freqüentou a King's
School de Canterbury e formou-se médico em 1897. Estreou na
literatura em 1897, com "O Pecado de Liza". Em 1915 publicou
"Servidão Humana", considerada sua obra-prima. "O Fio da
Navalha" saiu em 1945 e, ao lado de "Servidão Humana" e "Os
Mares do Sul" (inspirado na vida do pintor Paul Gauguin), está
entre as obras mais conhecidas de Maugham. Em 60 anos de
carreira, Somerset Maugham publicou 70 livros, incluindo algo em
torno de 20 romances e 30 peças de teatro, além de contos,
coletâneas, ensaios e textos autobiográficos. Apesar de os
críticos, em sua maioria, torcerem o nariz para o prolífico
Maugham, ele tem lugar garantido na galeria dos grandes
narradores da língua inglesa. Não apenas pela acolhida do
público, mas, e sobretudo, pelo mérito da descrição literária de
sentimentos e idéias que tomaram corpo entre a burguesia
européia no final do século XIX e se expandiram ao longo do
século XX para além do Velho Continente.
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