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O enterro do Capitão
Norma Ramos
Josué morreu ao amanhecer. Tão linda a cor rosada do céu
clareando, junto com a luz amarela das lâmpadas da rua. Acabara
o desfile, voltavam para a vila.
Cremilda vinha na frente, a fantasia toda amassada, úmida de
suor, a peruca branca na mão. Por isso não viu quando ele caiu,
redondo, de barriga para cima. Ouviu os gritos, a correria, mas
estava tão cansada que nem olhou para trás. O moleque Feijão
Preto foi quem segurou-lhe o braço e falou, num susto:
-Dona Cremilda, volte! O Capitão caiu, ele está mal!
Ela seguiu andando, de olhos entrefechados.
-O que é que você quer, Feijão?
-Venha acudir ele!
Voltou-se devagar e então viu o companheiro caído no asfalto, a
roupa desarrumada, a boina com pluma vermelha ao lado. Correu.
-O que foi, meu nego? O que foi?
Seu Justino, da farmácia, que entendia, estava ali, o ouvido
colado no peito do Capitão.
-Não adianta, o coração parou.
Os outros, não eram muitos, ao redor, guardavam respeitoso
silêncio. Cremilda, ajoelhada ao lado dele, um soluço seco,
arrancado da garganta, o olhar perdido. Alguém falou:
-Vamos levar ele para casa.
-Não. É melhor chamar o Pronto Socorro - definiu Seu Justino,
tomando conta. Alguém tem um cartão para o orelhão?
Dalva tinha, metido no sutiã.
A ambulância demorou em chegar. Cremilda continuou meio deitada
sobre o corpo, naquele choro seco, os amigos por ali, uns
sentados no meio-fio, outros caminhando ao redor. Amanhecia a
terça-feira de carnaval.
Bem mais tarde o corpo foi levado para o barracão da Escola.
Juntaram três mesas para colocar Josué, ele era alto e bem
gordo. A boina de veludo e o apito ajeitados entre as mãos
cruzadas no peito.
Aos poucos foi chegando mais gente, trazendo pequenos buquês.
Velas foram acesas. Todos tinham mudado de roupa.Só Cremilda,
que não quisera afastar-se do companheiro, continuava de dama
antiga. A cabeça encostada no ombro dele, olhos fechados,
parecia dormir. Mas o mesmo soluço continuava a levantar-lhe os
seios fartos.
A um lado, três homens conversavam.
-Coitado do Capitão! Que hora pra morrer!
-Pelo menos teve o prazer de participar do desfile...
-Pois é, mas pra a gente também é um azar. Agora os
“Turistas”vão levar o prêmio, nem vamos poder comparecer hoje de
noite.
-É, mas nós fomos os melhores, todo mundo viu, e agora não é
hora de pensar nisto.
Desde sempre houvera uma acirrada rivalidade entre os dois
blocos: os “Turistas do Mar”e os “Vagalumes da Madrugada”.
Josué, por alcunha “Capitão”, era o Diretor dos “Vagalumes,” e
naquele ano estavam todos confiantes de receber o prêmio da
Prefeitura. Gastaram o que tinham e o que não tinham com as
fantasias, os dois carros alegóricos, as figuras de vagalumes
com uma lanterninha na cabeça, vinte, que a rapaziada levara.
Estava lindo! O povo, assistindo, redobrara os aplausos! Com
certeza receberiam o prêmio ao melhor bloco daquele ano. E
agora, nada! Não comparecendo para a última apresentação, seriam
desqualificados.
Aproximou-se Seu Justino:
-Já está tudo resolvido. Estou com os papéis aqui, o enterro vai
ser hoje mesmo, no cair da tarde. Com este calor...
As horas foram passando, a temperatura subindo. Pelas janelas
abertas não entrava o menor sopro de ar. Pessoas iam e vinham.
-Será que o pessoal dos “Turistas” já sabe?
-Tem que saber, não se fala em outra coisa, aqui na vila e no
centro. O Capitão era muito querido.
-É, mas não apareceu nenhum deles. Que gente ruim!
-Nem para trazer umas flores, dar um abraço na Cremilda.
À tardinha, o corpo de Josué, que estivera em cima das mesas,
foi passado para o caixão simples. Com dificuldade, pelo tamanho
dele. Houvera uma breve conversa, ainda de manhã, sobre
mudar-lhe a roupa, colocar um terno, mas Cremilda fora firme.
-Não muda nada, ele vai assim mesmo. Está tão bonito, o meu
nego.
E assim foi feito. O Capitão ficou com sua fantasia de Cristóvão
Colombo. A boina na cabeça, a pluma que quebrara substituída por
outra, nova. Aí todos concordaram: ele, que tinha sido um mulato
bem apanhado, estava muito bem de branco.
Veio o carro da funerária. Cremilda e todos os outros foram em
dois ônibus, cedidos pela diretoria da fábrica de fósforos, Seu
Rogério, o gerente, acompanhando.
Os comentários sobre a ausência dos “Turistas”corriam de boca em
boca: Que gente ruim!
Quando o padre fez a encomendação, ao pé da cova, o sol estava
descendo, numa luz rosada como a do amanhecer. Andorinhas
passavam, em vôo rasante. Uma brisa fresca agitou os
estandartes, as pessoas suspiraram, aliviadas.
Cremilda firme, apoiada no braço do filho, sempre na aflição
daquele soluço seco.
O caixão foi descido. Os instrumentos, trazidos por um demais,
esquecidos. O padre jogou água benta, todos se benzeram.
Ouviu-se então, de longe, um som bonito, o ritmo dos “surdos”, o
repinicar dos tamborins. As cabeças baixas levantaram de
repente, numa surpresa. Voltaram-se para e entrada do cemitério.
Passando o portão, vinha avançando pela rua central, o bloco dos
“Turistas do Mar”, com suas brilhantes roupas de cetim verde e
azul. Na frente, a pequena bateria tocando em surdina. Começaram
a cantar baixinho o samba-enredo dos “Vagalumes”, composição do
Capitão. Os de cá cantaram também, apareceram os instrumentos e
começaram a dançar, devagarinho.
Cremilda, ajoelhada ao pé da cova, finalmente soltou o choro.
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