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Na profunda paz dos movimentos servis Mário Cabral Era uma vez um homem que de um momento para o outro começou a evacuar pérolas. O homem não precisava de dinheiro por ser de natureza frugal e a sua primeira preocupação foi em esconder o facto, com receio de dar nas vistas. Felizmente para ele esta é uma obrigação natural que a cultura obriga a ser feita na privacidade. Porém, meses mais tarde, já ele se habituara a ocultar as alvas pérolas numa arca construída para o efeito e fechada a cadeado e correntes, deu-se conta que emanava do seu corpo um cheiro inebriante que, por mais que se lavasse, era impossível de retirar. Desta vez o problema era muito mais grave, por ser público. Passadas as primeiras semanas ele, que nunca fora vaidoso, decidiu comprar perfumes raros e da moda, tentando enganar os narizes alheios... Impossível de enganar os narizes mais vulgares. — Desculpe-me a pergunta: será que pode dizer o nome deste seu perfume? Tão distinto, tão subtil, tão... — Fahrenheit, da Dior. Aprecio muito os aromas orientais e nocturnos, misteriosos, com essências de madeiras exóticas e canela, não é assim? — Não, não me refiro ao Fahrenheit, que conheço. É algo mais... como direi... Meu Deus, é tão difícil definir um perfume! — Ah, então só pode ser o desodorizante. Tsar! Merece o nome que tem, não acha?! Não lhe parece que tem um quê de hortelã, seja como for um cheiro verde, não é assim?! — Não. O senhor desculpe-me a insistência, mas é algo do outro mundo, algo de — INFINITO! Claro, algo de Infinito e longínquo! É isso! Exacto! Exacto! Leve, leve, como se levitássemos! Qual é o nome disto? Olhando para o homem viu-o a chorar sem um gemido ou ginástica facial. Chorava só, só por chorar. Tempos passados, começou a emanar uma luz. Como se limpasse o pó às coisas ou se abrissem portadas em casa. Muitas pessoas que se encontravam de costas viravam-se para descobrir de onde vinha aquele foco resplandecente. Comprou casacos e chapéus, mesmo para usar no Verão. Mas a mágica chama era ainda mais efectiva deste modo. Era preferível andar como toda a gente, porque ao menos não parecia um boneco de Natal. Trancou-se em casa e evitou o mais que podia o convívio social. Procurara toda a vida o anonimato e de um dia para o outro o seu próprio corpo abria-se em público de uma forma que lhe parecia escandalosa. Sozinho em casa via muita televisão e numa noite em que assistia a um programa do canal História, sobre os místicos, tomou conhecimento de um monge medieval que voava pelos campos em redor. Assustou-se de imediato com a possibilidade de no futuro lhe acontecer algo de semelhante. «Meu Deus, pensou. Não me tortures deste modo!». Mas a partir deste dia, a várias horas do dia, versos estranhos de um hino desconhecido lhe apareciam à palavra, sem que pudesse evitá-lo: «Levitarei, levitarei um dia, leve, evitarei a carne». «Já sei!, pensou ele a meio das insónias. Se fornicar bastante nada disto se repetirá». Mal conseguiu esperar pela hora de pôr em prática a sua evasão. Entusiasmou-se ao ponto da erecção mas, chegada a hora exacta, a companheira da aventura nem queria acreditar naquilo que os seus olhos viam. O falo abria ao levantar-se, era majestosa flor amarelo vivo. As lágrimas que de novo tombaram serviram-lhe de rega. E aconteceu que certo Domingo acabou mesmo por voar em plena missa das onze. A obsessão nunca mais o largara, melhor dizendo o pavor. Talvez tivesse sido um prenúncio do futuro, ou a inversa. Devagar, muito suavemente, muito muito em silêncio o seu corpo começou a elevar-se como um canto cristalino. Já os pés se levantavam do chão e os joelhos de todos se baixavam e as mãos se juntavam e as bocas rezavam em louvor do Altíssimo. O perfume daquela alma era impossível de prender e fosse qual fosse o grau da grosseria humana era inevitável que se cogitasse em milagre. Não havia modo de o homem passar desapercebido, por mais que tentasse. Havia sempre um olho de soslaio à espreita do extraordinário. E o inusitado não poderia ser mais onírico e arquetípico. Foi-se elevando no ar desafiando todas as leis da Natureza e a Graça derramava-se de forma quase visível. A meio do grande templo inclinou o tronco para trás e começou a virar-se sem nenhuma pressa, fazendo lembrar aquelas nadadoras de acrobacias olímpicas. Sem querer, o corpo obrigava-o a uma dança celestial. Fechou os olhos e chorou amargamente, sem que se visse nem a fímbria de um comportamento rebelde em seu planar. As lágrimas foram tecendo uma teia de prata, uma rede, um disco voador, uma ventoinha de brilho esplendoroso. A fama que nenhuma serapilheira era forte quanto baste para ocultar. Por detrás das lágrimas se elevou cristalina a voz, como se não fosse ele a cantar:
Levitarei, levitarei um dia Acordou exangue, com um anjo aos pés da cama. — Porque choras tanto com as graças do Teu Criador?, perguntou o anjo. Ele queria falar ao anjo, talvez pedir perdão ou dispensa. Não conseguiu. Baixou os olhos, puxou os lençóis e quis-se de novo menino — e o seu corpo transformou-se num corpo de menino em ouro maciço. O anjo partiu em cânticos de Glória a Deus nas Alturas. Por tudo isso decidiu suicidar-se. Não tinha a certeza. Talvez apenas nadar. Quem sabe o perfume do corpo não desaparecia nas águas salgadas e todas as outras extravagâncias fossem ocultadas pelo grande mar? Com esta última esperança se encaminhou para a praia. Desnudou-se e olhou por uma última vez para terra. A areia estava repleta de uma multidão que o seguira. A sua fama aumentara de dia para dia. Voltou-se para o grande mar e entrou pelas vagas diminutas em diminuta velocidade. Quando a água lhe dava pela cintura baixou-se por completo e reapareceu a nadar de costas. Nadou até ao horizonte, chorando sempre. Ele não viu, mas de cada lado do seu corpo-navio se foi abrindo um leque das cores do arco-íris e o arco-íris deste modo se levantava à medida que as mãos rodavam na profunda paz dos movimentos servis. E do arco-íris saíram todos os pássaros que Noé levou na arca. MÁRIO CABRAL é natural da ilha Terceira, Açores (1963), licencia-se em Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (1986), onde ultima o Doutoramento sob a orientação do Professor Doutor Paulo Borges: Via Sapientiæ: da Filosofia à Santidade – a Inspiração Cristã do Pensamento Contemporâneo Português a partir de Delfim Santos, Teixeira de Pascoaes e Agostinho da Silva. Para além das publicações científicas, tem publicadas as seguintes obras de Literatura: Histórias duma Terra Cristã (Crónicas, Horta: 1995); O Meu Livro de Receitas (Poesia, Guimarães: Pedra Formosa, 2000), O Livro das Configurações (Romance, Porto: Campo das Letras, 2001) e O Acidente (Romance, Porto: Campo das Letras, 2005). Está traduzido para castelhano (Ventana a la Nueva Poesía Portuguesa, México: Desierto, 2001) e para Inglês (On a Leaf of Blue: Bilingual Anthology of Azorean Contemporary Poetry, Berkeley: Institute of Governmental Studies Press – University of Califórnia, Berkeley, 2003). Mário Cabral também é pintor, com exposições feitas em Lisboa e na Terceira.
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