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Dois contos Vássia Silveira Paz noturna
Eu
pensava que finalmente teria sossego. As luzes tinham sido
apagadas. A casa estava Foram longos minutos de espera. A casa toda dormia. Menos ele. Pensei em sair, entrar na sala e acabar de vez com essa agonia. Talvez o confronto resolvesse o assunto. Quem sabe com o aborrecimento de me ver ainda ali, ele largasse o controle, desligasse o aparelho e fosse dormir. Ou ler, quem sabe. Pouco me importava. Sai sem fazer barulho e fui seguindo reto em direção ao sofá. Queria mostrar-lhe minha insatisfação. Fazer-lhe entender que precisava também de um pouco de paz. Ao roçar a perna cabeluda, ele se irritou. E ia, tenho certeza, desistir de resolver nosso assunto ali. Tudo acabaria bem, não fosse a outra. Não esperava vê-la a essas horas da madrugada. Mas lá estava ela, na porta do corredor, aos berros. Um grito histérico que me deixou atordoada. Tentei fugir mas não havia mais remédio: era a minha vida ou a honra dele. Ele pulou então do lugar onde estava e acertou-me com um único e decisivo golpe. Senti o líquido escorrendo pelo meu corpo esmagado. Minha dignidade exposta, as pernas tremelicando e todos os planos estendidos ali, naquele chão de lajotas. Arght! Foi ainda o que ouvi antes de sentir que me juntavam com uma pá e me lançavam no saco plástico da área de serviço. Deixe, querida, amanhã a empregada recolhe. Fiquei ainda um tempo pensando sobre minha existência: Minhas pernas não obedeciam mais, embora as antenas insistissem o movimento.
O Amante
Era a terceira vez, naquele dia, que se enroscavam furtivamente. Nela, as mãos suadas denunciavam ao amante a languidez necessária. Entregava-se ávida e aflita ao instante de prazer. E nas escadas sujas, vigiava as sombras. Como das outras vezes, era um encontro rápido. Desses que mal dá tempo de recompor o semblante ou a roupa. E a mancha na camisa branca acabaria por denunciá-la, não fosse o cuidado de carregar no bolso da calça, lenços umedecidos. Cheirinho de neném. Um perfume que a resgatava do êxtase, jogando-a no chão espalhado de culpas. Sentia raiva de si mesma. Queria fugir, voltar ao controle da situação. Mas o corpo lhe negava esse direito. E amolecia cada vez mais. As pernas, quase arquejando, os lábios úmidos, a mão nervosa cravando no outro a pressa. Controle-se. Vai acabar chegando alguém. Talvez as crianças, ou mesmo o marido. Mas não, era um desejo incontrolável de entrega. Sentada ainda nos degraus, jogou no saco escuro preso ao lixeiro o papel alumínio que segundos atrás lambia trêmula. E suspirando, rendeu-se uma vez mais ao encontro. Prendeu os cabelos, limpou os dedos e procurou esconder em baixo das sandálias os restos espalhados no piso. E finalmente sacou da bolsa mais um chocolate.
O último do dia, prometeu a si mesma.
VÁSSIA SILVEIRA é jornalista e autora do site www.anaesuasmulheres.com
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