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Dois contos
Vitor Diel
J.
J. é o tipo de pessoa que não pode estar desocupada. Sua mente
tinha que se concentrar em alguma tarefa que a impedisse de
pensar besteiras. Qualquer coisa que evitasse seu cérebro de ter
idéias e tirar conclusões a respeito de sua vida. Por isso, num
surto, decidiu arrumar a casa.
Olhou ao redor, estava tudo impecavelmente arrumado. Não havia
nada esperando para ser guardado, para ser limpo. "Não pode
ser".
Desesperou-se.
De súbito, lembrou que não fizera sua cama. Lembrou também de
umas roupas, jogadas no canto do quarto que deveriam,
prudentemente, ir para o cesto de roupas sujas.
Rapidamente, entrou no quarto arrecadando as roupas do chão e as
que estavam no encosto da cadeira. Foi até a área de serviço e
enfiou-as no cesto, onde calcinhas e camisetas suadas se
misturavam a toalhas de mesa e lençóis encardidos.
Voltou num pé para o quarto, tirou as cobertas da cama, o
travesseiro também. Pegou o lençol do chão, suspendeu-o no ar e
deixou cair sobre a cama, como um balão que murcha e vai ao
chão. Começou a esticá-lo, alisando-o. "Eu preciso me expressar
mais". Uma tristeza infantil envolveu o coração de J. Seus olhos
começaram a se afogar sob as lágrimas, que não escorreram,
estranhamente. Achou que estava ficando louca. Achou que nada
mais que fizesse poderia abstrair seus pensamentos de questões
que talvez nunca fossem ser resolvidas. Talvez nem devessem ser
pensadas, não merecendo nem um segundo de sua atenção.
J. é o tipo de pessoa não pode estar desocupada. Por isso, ao
acabar de fazer a cama, resolveu escrever o que acabara de lhe
acontecer.
jesus nasceu, viu?
sou interrompido da minha leitura.
"tá ouvindo esse passarinho?".
levanto os olhos, aturdido.
"que passarinho?", pergunto com o desprezo de quem não quer
assunto e quer encerrar esse que se inciou.
"esse ó!", diz, com o indicador ao alto, apontando o nada.
olho acima, procuro nos galhos, não acho. um canto de três notas
curtas soa sob nossas cabeças. abre um sorriso, "viu? sabe o que
ele diz?".
furtivos, meus olhos procuram resposta.
"ele tá dizendo 'jesus nasceu, viu?'".
"em aramaico?", debocho, secamente. "não, em português". "ahn...".
o animal volta a soar. "ó, viu? 'jesus nasceu, viu?'", canta num
dueto com o pássaro. "ele só aparece nessa época do ano, pra
avisar que jesus nasceu".
queixo franzido, boca arqueada, confirmo. caio sobre o livro,
onde pássaros não falam com pessoas e não anunciam o nascimento
de carpinteiros judeus.
VITOR DIEL teve seu conto "Um Dia na Vida" publicado na
antologia "101 Que Contam", lançada em outubro de 2004. Seus
contos "Hollywood" e "Tio Sam e o Homem-Bala" figuram na Vitrine
Literária do site do escritor Charles Kiefer -
www.charleskiefer.com.br/oficina. Além destes três, os contos
"gozo no silêncio", "J." e "Uma Ousadia no Espaço", bem como os
artigos "A Importância da Beleza" e "Dogville, o Mundo é um
Canil", podem ser lidos na edição #17 da revista online
www.ocaixote.com.br. Outros textos do autor podem ser conferidos
no seu blog http://bumerangue.pitas.com.
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