Conexões

Vanessa Mello

Enquanto observava o técnico da TV a cabo fazer as conexões, Marina ficava cada vez mais entediada. “Será que alguém sentiria falta dele? Casado ele não é, não tem aliança, e com esse barrigão não deve ter namorada. Tem cara de poucos amigos, ninguém no trabalho deve saber o nome dele”. Marina pegou o castiçal antigo que era da avó. “Pesado. Hoje em dia não se fazem mais castiçais assim, maciços, de qualidade. É quase uma arma. Um golpe no lugar certo e já era”. Filmes policiais e de suspense sempre intrigaram Marina. Ela gostava de ver até onde a mente humana poderia ir. Às vezes se perguntava se seria capaz de cometer um crime perfeito e enganar a todos. Desses que nem Maigret e Poirot desvendariam. “Na verdade eu estaria fazendo um favor à sociedade, abrindo espaço para um jovem pai de família que busca desesperadamente um emprego e não encontra”.

– Senhora – disse o homem com um ar humilde – quer que eu ligue sua televisão no aparelho de som? Assim vai parecer que a senhora está no cinema.

– Ah, sim, se o senhor puder fazer isso agradeço muito.

“Puxa, como ele está sendo atencioso. Coitado, não parece má pessoa, dá uma chance pra ele, Marina. É, mas desse jeito não vou saber nunca como é a sensação. Assim não dá, não posso ficar sempre com pena, tenho que parar de procurar o lado bom das pessoas. Ou é agora ou não é nunca, Marina! Ninguém vai sentir falta dele. Coragem!”

– Será que a senhora se importa se eu terminar a instalação amanhã? O conector está com defeito, vou ter que buscar outro na empresa e como está anoitecendo e meu horário de trabalho já acabou, se a senhora não se incomodar, volto amanhã cedo para terminar.

– Se não tem outro jeito, está bem, afinal quem ficou até agora sem televisão a cabo fica mais uma noite. Mas o senhor vai trabalhar no feriado?

– Ah sim, tenho que terminar a sua instalação, se o chefe sabe que deixei para amanhã já levo uma bronca.

– Tudo bem, pode vir amanhã, depois das oito. Não vou reclamar para o seu chefe.

– Muito obrigado, senhora, e tenha uma boa noite.

– Boa noite.

Marina até achou bom que ele voltasse no dia seguinte, assim teria uma noite inteira para planejar a melhor forma de matar. Sim, Marina decidira que iria matar sua curiosidade, mas para isso era preciso tomar todas as providências para que tudo fosse perfeito, sem vestígios. “Bom, para ele trabalhar no feriado é porque não tem família, se não iria querer ficar com os filhos. E também não deve ter planos para jogar futebol ou encontrar os amigos que provavelmente não tem. E definitivamente não tem namorada, caso contrário não se levantaria antes das oito horas num feriado”. Marina foi para o quarto com o castiçal da avó na mão, sentindo todo o peso da decisão. Abriu a porta do armário e sentou na cama, fixando o olhar na pilha de blusas coloridas, tentando escolher a melhor roupa para a ocasião. Deveria ser algo confortável, que lhe desse mobilidade, mas também tinha que ser um pouco provocante para prender a atenção da vítima e assim disfarçar suas intenções. Deixou a roupa separada na poltrona em frente à cama. Pegou a escova de formato redondo e cerdas finas, parou diante do espelho e experimentou diversos penteados. Franja para um lado, franja para outro, sem franja, com rabo de cavalo, cabelo um-pouco-preso-um-pouco-solto. Já passavam das duas horas e Marina ainda esquematizava o passo a passo do dia seguinte. “Não posso deixar correr sangue para o chão, porque mesmo limpando com alvejante a perícia descobre, eles usam luz especial, como naquele seriado. Acho que nem precisaria me preocupar com isso, ninguém vai dar falta dele e nem desconfiar de mim já que na empresa não vão saber que ele volta aqui amanhã. Posso colocar um tapete embaixo da TV, depois lavo e vendo para um bazar daqueles do centro. Isso, resolvido.” Enquanto acendia uma vela, como para iniciar um ritual, Marina examinava sua cabeça com a mão para encontrar um ponto mais sensível. “Bom, nos bebês devemos ter cuidado com a tal moleira o que não dever sumir por completo depois de adultos e deve ser por aqui…É, parece mais mole, mais frágil. Para ser na nuca tem que ser com muita força, mas não sei se o peso desse castiçal me permite ir até a altura necessária para desferir o golpe perfeito. Eu sei que no boxe, um jab bem dado, de baixo pra cima, bem no meio do queixo derruba o cara. Talvez eu consiga acertar com essa base maciça de metal.” Faltava decidir o que fazer com o corpo. Para colocar no lixo ou no incinerador do edifício era preciso fazer um picadinho antes e isso Marina não estava disposta a fazer. “Na primeira vez é preciso ir com calma. Uma vez sabendo qual a minha reação com sangue e toda aquela carne, posso programar algo mais audacioso para a próxima. Ainda bem que faço ginástica, porque não será nada fácil carregar aquela montanha humana. Marina, deixe de ser boba, vai ser impossível! Um peso morto, inerte, todos aqueles quilos vão se multiplicar e se transformar em toneladas. É melhor levá-lo até o seu destino final e para isso vou seduzi-lo. Acho que finalmente vou utilizar aquele vidro de ácido que comprei. Sabia que um dia teria coragem. Depois é só lavar bem a banheira e pronto.” Com tudo resolvido, Marina foi deitar, mas não conseguiu dormir profundamente, a ansiedade era grande demais para descansar, mal podia esperar pelo amanhecer. Quando o despertador tocou, Marina já estava de pé começando os preparativos. Correu por meia hora na esteira, tomou um banho rápido, vestiu a roupa escolhida na noite anterior, tomou um café leve, só frutas e um pouco de cereais, não queria comer nada pesado para não correr o risco de enjoar. Fora os filmes, nunca tinha visto uma pessoa se esvair em sangue. O interfone tocou, era chegada a hora. Antes de abrir a porta, uma última conversa com o espelho. “Coragem! A decisão já está tomada, todos os detalhes estão acertados, vai ser uma experiência única e não tem como dar errado!”

– Bom dia, senhora.

– Pode passar para a sala, por favor.

– Espero não ter acordado seus filhos com a campainha.

– Não tenho filhos.

– Seu marido não ficou chateado por eu ter deixado para finalizar o serviço hoje?

– Ah, não, não sou casada.

Enquanto pegava sutilmente o castiçal, Marina notou que aquele homem quase invisível de ontem parecia mais seguro hoje.

– Então a senhora mora sozinha? Tem algum parente para vir assistir aos novos canais com a senhora?

– Como? – Marina achou o homem um pouco metido, mas respondeu para satisfazer seu último desejo – Minha família é do interior.

– E amigos, a senhora tem? – perguntou, enquanto pegava uma chave de fenda de ponta afiada na maleta.