Canção do coletivo

 

André Castro

Diga que você me adora
Que você lamenta e chora
A nossa separação.
Noel Rosa – Último Desejo.

 

O sonífero mais poderoso do mundo é a visão de uma mulher grávida entrando no ônibus pela porta da frente. É, no fundo no fundo, somos todos semelhantes, mesmo. Podemos mudar um pouquinho com o tempo, podemos sair antes ou só no fim da linha, acordados pelo cobrador. Mas somos todos passageiros deste ônibus e, por isso, não muito diferentes. Daqui, do meio do veículo, eu posso ver com clareza as pálpebras baixando, enfeitiçadas pelo poder do ventre dilatado. Os olhos fecham-se um após o outro, numa reação em cadeia até deterem-se na terceira fila de bancos, após os assentos vermelhos e os desenhos estilizados de cadeiras de rodas.  O guri que veste a camisa do Zaffari levanta-se e cede seu lugar.  A barriga enorme se mexe um pouco e um obrigado sai da boca banguela.  Ele sorri, e o comentário irônico, a julgar pela cara que faz, não chega à gorda de cabelos enormes que estava a seu lado antes. O ronco do motor abafa as palavras dele e a gorda permanece concentrada, lendo a bíblia e ajeitando o cabelo preso por um laço ridículo. O guri se irrita um pouco, inspeciona os outros rostos. Ninguém retribui seu olhar.  Então, ele retira o walkman do bolso e coloca os fones no ouvido.  Mesmo de onde estou, posso escutar a música. A rádio não é muito boa. Eldorado.  Eu sempre espero que eles toquem um Noel Rosa, mas isso nunca acontece. 

 Mais uma olhada nos passageiros. A miopia não me deixa ler. As caras que as pessoas fazem quando estão aqui! O coletivo é a melhor oportunidade de ver quanta mediocridade se senta em volta da gente, todos os dias.  Aceitamos viver nossas vidas de lá para cá, pisando uns nos calos dos outros dentro deste veículo, que é tão velho quanto eu.  Daqui a pouco o motor estraga e aí começa tudo de novo: a gente vai ter de desembarcar, sabe-se lá onde, e esperar até que a Empresa traga outro ônibus para que possamos nos entupir nele como sardinhas, à espera de novas discussões, reclamando do cheiro do sovaco alheio. 

Sem contar que hoje é dia de jogo.  E, puta que pariu, hoje é a final.  Posso até ver a briga que vai dar daqui a exatas duas paradas.  Na primeira, entram os torcedores do Inter, na segunda, os inimigos gremistas.  É, são inimigos sim, não venham com essa ladainha de esporte não.  Mesmo fora do campeonato, o jogo nunca é amistoso.  O que as torcidas querem mesmo é ver os dentes dos outros espalhados no corredor.  A última vez foi assim: um homem de olho vermelho de cachaça embarcou e, ao tentar passar para a frente, fez um escarcéu porque alguém pisou no branquinho do nike chinês dele.  Uma voz rouca proferida por ninguém relevante falou o óbvio, dizendo que só um idiota viria com um tênis claro para um ônibus que sempre bota os negos pelo ladrão de tão cheio.  Aí, como sempre, ele não gostou e as torcidas viram ali a oportunidade de começarem a briga. Uma defendeu o direito do cara usar a merda do tênis onde quisesse e a outra acusou o sujeito de ter um q.i. de ostra.

E é incrível: sempre acham um tênis branquinho ou um guarda-chuva com a cara da Madonna que molha algum dedão de algum pé e aí o pau começa.  E sempre aproveitam para fazer um quebra-quebra e esperar que a Empresa lhes dê um veículo melhor, dizendo que se ele fosse mais espaçoso teria lugar para todo mundo e não haveria mais nikes sujos ou pés molhados. 

Gentinha.  É só esse o nome que merecem. Mesmo com a desculpa da ignorância, veste que, às vezes, é fantasia para a festa eventual e, noutras, não pára no guarda-roupas, transformada em uniforme de trabalho.  Gentinha. Lutam em nome de deuses da bola que nunca dão nada para eles, a não ser, talvez, noventa minutos de esquecimento. Droga mais barata que loló, aspirada com facilidade através da coréia: a gurizada se apertando, os olhos vidrados no jogo, enquanto o resto do Beira-Rio torce numa boa, podendo até abrir os braços para as coreografias das organizadas.     

E o pior é que eu não tenho carro.  Ainda não consegui o dinheiro para poder comprar um novo e fazer minhas viagens sozinho. Se eu ainda tivesse o meu fusquinha, eu não precisaria mais tomar este ônibus e ter de lidar com estes homenzinhos. Gosto dessa palavra. Li ela uma vez, num livro do Spinoza - não, não é o técnico de futebol - : “que calor, meu homenzinho!” Eu já digo ainda “que fedor, meu homenzinho! Já estou até sentindo a merda que vocês vão fazer”.

 Mas não dá para ficar sem ninguém, né? Nós somos que nem as notas de um samba: solitos na partitura, não formamos música.

Não, pensando melhor, a volta do fusquinha não ia mudar nada. O que eu queria mesmo era fazer de novo acorde com a minha nota linda. Mas ela já desembarcou deste mesmo ônibus, há muito tempo, e nunca mais voltou para casa. Nem para lugar nenhum. E tudo  só por causa de vinte reais e um carburador estragado.

Ah, se alguém atendesse ao meu último desejo e me levasse até ela... Daí, daria samba:

Nosso amor que eu não esqueço, e que teve o seu começo, numa festa de São João...

Gritos. A porta abre e a torcida do outro time entra. Fazem uma balbúrdia que acorda até o verme do defunto.   Ba, é muita gente.  Como é que este ônibus agüenta tantos passageiros assim?  E eu nunca sei por que a Empresa não coloca de uma vez um veículo maior nas ruas.  Talvez até trouxesse realmente um pouco de paz, embora eu não a reprima por não fazer nada. A cada briga que sai, um monte de vidro é quebrado. Eles depredam tudo, esses vândalos. Ainda mais que o dólar está caro, e esses ônibus são importados da Alemanha.  E volta e meia alguém morre, obrigando a Empresa a prestar os serviços funerários, para não pegar mal. Aí, não sobra nem dinheiro nem vontade de investir em nada, mesmo.

Melhorias. Melhorias para quê? Se esses jogos nunca param, e a violência dessas brigas, oculta por uniformes coloridos, continua causando tristeza? 

O outro exército, atrás da roleta, começa a entoar os hinos de guerra, batendo palmas e no teto do ônibus: “Tu vai morrer, tum, tum, tum. Tu vai morrer, tum, tum, tum”.  A tropa deste lado não se intimida. Um bêbado segura uma Sete Campos e retribui a ameaça, erguendo alto a garrafa:

- Vamos ver quem é que vai morrer primeiro hoje então.

Eu paro para olhar esse homem.  Têm muitas cabeças entre ele e eu, mas há algo estranho em seu rosto, bem no meio da testa, acima do nariz achatado a socos.  Eu me esforço um pouquinho para ver, sem dar muito na vista, pois senão ele pode pensar que eu sou da torcida adversária e aí estou ralado.  Parece que é uma espécie de tatuagem.  Ba, o idiota não deve nem ter um emprego decente e faz uma tatuagem na testa. 

Mas, olhando bem, não deixa de ser curiosa, a do sujeito: é uma nota musical. 

Eu já vi tudo quanto é tatuagem numa pessoa.  Desde as velhas cobras em volta de espadas ou rosas às tribais, que é um monte de desenho cheio de voltas com umas pontas que ninguém entende o significado.  Alguns tatuam figuras de índios sem nem mesmo saber de onde eles são; outros gravam os nomes das fuleiras que amam com caneta esferográfica.  Mas nota musical eu nunca vi.  Confesso até que a idéia é bem interessante.  E a nota que ele tatuou é uma fusa.  Não sei por que diabos ele tatuou logo esta.  Esse homem nem deve saber que ela equivale a um dezesseis avos do tempo do metrônomo.  É, eu sei disso porque estudei um pouco de teoria musical, no tempo em que o samba ainda era arte no Brasil.  Não era todo mundo que podia tocar flauta que nem o Plauto Cruz ou cantar como o Noel Rosa.

Os ânimos ficam em brasa e o pessoal lá da frente desafia os de trás a cruzarem a muralha da roleta.  Fazem todos os rituais como bons guerreiros, tirando a concentração dos inimigos com insultos e empunhando os cabos das bandeiras como espadas.  Não, não vale insultar a mãe.  Mas ninguém respeita.  O maior exemplo de uma das torcidas corre até aqui no meio e faz um último desafio ao objeto de seu ódio. Está devidamente uniformizado com boné, cerveja, camiseta e almofadinha para sentar a bunda flácida no chão duro da arquibancada. Feito capitão, toca uma corneta vermelha para iniciar o combate, esquecendo-se que  o instrumento é para comemorações, não para comandar exércitos.

Todo mundo se prepara para a guerra.

O capitão também tem uma nota musical na testa.  Uma semicolcheia, que eu não vou dizer aqui seu valor para não me chamarem de esnobe.  Mas, que estranho!  Eu tomei uns martelinhos lá que outros antes de pegar o ônibus, mas não estou imaginando coisas não. Cada uma das caras acima das camisetas do seu time possui notas nas testas, a maioria semicolcheias e fusas. A primeira idéia que me vem à cabeça é que isto seja mais uma loucura das organizadas, sempre achando uma maneira de arrancar dinheiro desses guris loucos. 

Só que, aí, a surpresa: todas as pessoas aqui do coletivo possuem semicolcheias ou fusas ou alguma outra nota na testa.  Cada uma possui a sua, mas ninguém percebe. Continuam suas rotinas indiferentes ao que está na cabeça dos outros, seja cedendo lugares, lendo bíblias ou enchendo a cara.  O homem de rosto grave e casaco escuro, o qual reclama do carro estragado; a mulher que segura a bolsa entre as mãos cheias de manchas, se perguntando por que tem de conviver com esses animais; a velha apavorada que, de tempos em tempos, dá um olhar de esguelha para as torcidas; todos eles possuem as estranhas notas.  Até mesmo o jovem atrás de mim, que não presta atenção a ninguém no ônibus.  Vê a noite através do vidro, mas os olhos-de-gato do asfalto não o atraem, mesmo brilhando como estrelas.  Seu rosto está preso no reflexo da janela. Uma semibreve brilha na testa dele. Mas o rapaz também não a percebe. Está mais preocupado em esconder suas lágrimas dos outros passageiros, para que não façam chacotas de sua fraqueza.  Ele bem que podia ser meu filho, esse rapaz. Se parece comigo quando jovem.  Ah, eu sei bem por que você chora.  Eu já chorei pelo mesmo motivo. Se eu conseguisse falar, diria: “Ei, filho, olha para mim. Eu choro também.” É por isso que eu escuto Noel Rosa. Ninguém gosta de despedida, de ver sua sacerdotisa esvair-se dos braços e regressar à mesma matéria dos sonhos que a moldaram e a fizeram divina. Mas tudo bem, né? Um dia, outro samba virá, e você vai achar alguém que te compreende e te quer bem. 

A batalha começa. O ônibus sacode do chão ao teto, e os ferros de nada valem para segurar as pessoas nos lugares.  Todos são espremidos, socados.  E cada um, por gosto ou não, chuta, geme ou morde.  Muitos gritam para o condutor, exigindo que ele pare no próximo posto de polícia. Os passageiros das janelas grudam mãos e rosto nos vidros, implorando por ajuda aos carros lá fora. Mas aqueles que os dirigem, ou não entendem o pedido, ou não se importam. E ultrapassam o ônibus, deuses da estrada velozes como cometas.

No calor da briga, um dos torcedores chega a agredir o próprio condutor.

É aí que o ônibus dá uma guinada e todo o mundo pára por um momento, para observar os faróis anunciarem a tragédia.  O caminhão não consegue desviar, e bate de frente com o veículo, que despenca morro abaixo.

Tem bíblia, bandeirinha e cabeça por todos os lados.  A mulher grávida não está mais ao lado da crente. Mas não faço questão de procurar. Não quero ver o estado de sua barriga no meio disso tudo. Eu não sinto os pés, embora ainda possa ver a camisa do Zaffari e a nota no rosto que ela abriga.  Mal dá para ver a mínima em meio ao sangue. Quem ainda está vivo, lamenta, amaldiçoa. Uns até riem, nervosos. Mas todos manifestam a sua dor. O resultado é uma longa, imensa cacofonia.

Até que tudo acaba num samba. Não em feitio de oração, mas de tristeza:

Morre hoje sem foguete; sem retrato, sem bilhete; sem luar, sem violão.

 Vem de longe e demoro para entendê-lo, mas, aos poucos, o som inconfundível das cordas do instrumento e da voz conhecida vence a cacofonia. É bálsamo triste, como água salobra que mata a sede de um enfermo. Porém, os gemidos e lamentações cessam a cada dedilhado, diminuindo cada vez mais. Até os sapatos dele produzem música enquanto caminha, pobres mas graciosos, envolvendo a ginga malandra dos pés que os calçam. Ele aparece do outro lado dos vidros, um homem de meia estatura, jovem e todo vestido num terno branco. Chega perto de mim. Já posso ver seu rosto de queixo quase imperceptível. Nos seus olhos, não há traços de dor, mas um córrego de lágrimas parece escorrer de cada corda do violão.  Eu reconheço o músico amigo. Não há nota em sua fronte.  Ele pára e fica olhando para mim. Mas não xinga, não julga. Só canta. 

E me comove:

Perto de você me calo.  Tudo penso e nada falo.  Tenho medo de chorar...

Já não sinto mais nem dor no peito nem angústia.  Eu só olho para o músico e seus dedos, percorrendo o braço do violão, colhendo com maestria os sons que compõem seu samba mágico. Ele olha para cada um de nós, suspira e toca, como se estivesse lendo nossas vidas para em seguida remoldá-las, compondo-as num arranjo melhor. Uma melodia perfeita, cheia de sentimento, onde cada nota, seja rápida como uma fusa ou longa como uma semibreve, tem a beleza de uma vida inteira. E ele continua tocando, incansável. Dedilha as cordas como só ele é capaz. Alterna entre notas e pausas, para extrair da nossa partitura uma canção coletiva que acolhe e alivia.

- Toca, Poeta.  A vida é um samba, mesmo. Mas vê se toca em dó, viu?

ANDRÉ CASTRO é estudante de Letras da UFRGS. Nasceu em Cruz Alta, fonte inesgotável de inspiração literária, mas mora em Viamão.