Alvício dos Olhos-D'água

Cicero Galeno Lopes

As duas coisas mais piores entendo que sejam a seca e a guerra. Nasci e sempre morei nos pagos de por aqui. Não vi outros mundos. Fui criado aqui mesmo por duas irmãs, solteiras que eram. Tinham fala arrevesada, mas também falavam brasileiro. Por isso, acho, minha conversa é também cheia de tranças e retovos. Me dei por conta do mundo desse modo. Onde fui mais longe, por força de trabalho de tropa e outros serviços, foi até a capela do Ipané, dita também Capela. Isso se fazia em tropa de seis pra sete dias, descansando do anoitecer ao clarear do dia. No trote, três dias pra quatro.

A seca, seu moço, é desgraça. Nas secas brabas, como a de quarenta e três, que dessa num de fato até nem me lembro às claras. Me lembro doído mesmo é da de cinqüenta e sete. Essa foi de arrepiar os cabelos do cogote. Os mais antigos sempre diziam que elas vêm de sete em sete anos. Os peçuelos da lembrança tenho até meio ocos pra de cinqüenta, que por de certo que foi braba, mas a memória, nesse entremeio, se me corta. Outros contavam coisas de doer, como as ditas senhoras com quem fui criado, que nesse então ainda estavam vivas. Eu não tinha soldo. Tinha cama, bóia, cavalo, roupa. Na safra de lã e na de boi, aí sim me caía um punhadinho de pelegas. Era o mandalete e o dos serviços pequenos. De tudo. Era Alvício pra cá, Alvício praquele outro. Alvício é este seu criado. Alvício sem mais nada. Do que sei, por ouvir dizer, nasci nos Olhos-Dágua, um puxão de três léguas daqui, nada mais. Lá havia um guarda-livro, que escrevia nascimentos, casamentos, mortes. Num incêndio, numa dessas secas brabas que não sei decerto qual ser, queimou tudo. Ranchinho de barro, madeira e capim. O que era de queimar virou cinza, que por supuesto o vento e a água das chuvas carregaram. Por isso os papéis documentos que o senhor tem não tenho, que são hoje requisitados até pra se comprar algum traste. Não por outra, porque assino o nome, com letra feita, corrida quase toda. Tanto que o que tenho devo a elas, que me deixaram com casa e este pedacinho de terra, que sempre dá pra quinta, pras arves frutais, pras tambeiras. Nem elas tiveram colégio, mas liam, escreviam, contavam, faziam conta no lápis, relatavam histórias de outros tempos. Contavam, com presença de sentido, falando da mãe, vinda doutros pagos, como o pai. Minha condução é o carrinho-aranha, que também era delas. De fato, sempre me diziam pra cuidar dele como se fosse meu, que tinha sido do pai delas. Nele saíam a mãe e elas pros passeios de domingo. O pai era homem de longe, como a mãe. Pelo visto das falas, eram das Europas, que japonês ou turco não tinham feição de ser. Noutros tempos não tinha bonde, ônibus, como agora deram pra dizer, mas que até nem gosto. Agora a moda é um que dizem mico, um bondezinho por metade. Também nem sempre vem. Chega longe. Sacrificioso pra carregar, ainda que coisas poucas, que são só as de que tenho precisão. Tive - digo mal - devo de ter uma irmã, que se criou com família do Sarandi, daqui são léguas, fazenda dessas que um homem só, de estrela a estrela, não campereia num dia, a trote, nem a metade. De presença, vi minha irmã por duas vezes. De ouvir falar conheço mais. Uma feita, numa primavera lindaça de invejar, apareceu aqui pra passar três dias comigo. Ficou na casa, com elas. Noutra ocasião apareceu de passada pra contar da nossa finada mãe, que tinha falecido. Era moça prendada pra casamento, rosto claro de não pegar sol e mão fina, cuidada dos rigores, mas que nunca casou. Era só dos serviços de dentro. Eu também tive regalias de quartinho puxado do galpão, separado, com cama, colchão, lençol e acolchoado, lavatório com bacia, jarra d'água e aparelho pras necessidades. Tive sempre, de próprio ter, meus avios de mate, pra chimarrear solito e em silêncio, quando quisesse ou precisasse, que isso faz um homem tarimbeiro pro pensar. Não quero dizer que seja. Quem sou eu? Sempre escolhi os cavalos da minha montaria. Arreios sempre meus. De formas que tivemos sorte na vida. Minha mãe morreu por lá, porque viveu, a lo largo de toda a vida dela, por lo menos que eu saiba, com essa irmã. Lucília chama-se ela, minha irmã, de afazeres de cozinha e copa, como lhe ouvi de própria boca, quando aqui esteve por primeira vez. Fazia e enchia o mate pra família, ouvindo o que queria, se queria, mas fazendo que não ouvia, da confiança. Ia andando em roda deles reunidos, esperando roncar a cuia de um, que eram dezesseis, enchendo outro, passando adiante. Moía, passava e servia café, desde o primeiro sinal da manhã. Sabia também de chocolates, bolos, essas finezas boas que quem pode tem, que na minha vida de hoje assim solito não tenho. A não ser o mate, o café passado com leite bom, que isso tenho, sem modéstia. Nos domingos dou preferências pra um cacau fervido no leite, que é um gosto meu, e o que é de gosto regala a vida. Hoje, minha irmã, diz-que, mora na cidade, com uma senhora solita dessa família Gomelos, que até nem sei ao certo se é assim mesmo o nome, por estranho. As duas já de idade. Tenho pedido notícia pra um e pra outro, nas redondezas. Quero ver se ainda vou ver ela, dizer quem sou. Que por decerto o senhor mesmo não saiba, como por um acauso, que não vive nestes pagos?

Pra gente, como pros bichos, chega o tempo de tudo. Assim solito, com a idade, os estranzilhos dos trabalhos, a gente vai meio que se pondo devagar com tudo. São dificuldades. Os invernos afetam. É a tosse, dorzinha aqui em cima, desacomodo ali em baixo. Os olhos já não chegam a contento. Mas nada como a seca. O senhor talvez por certo nunca pôde ver, ou não quis. Na seca de cinqüenta e sete foi só quando, uma vez, tive gana de desarranchar daqui, me ir pra donde nÃo visse tanto sofrimento. Que sofrer a gente sofre, mas sempre se releva. A gente é pessoa pensante, sempre tem algum recurso. Com menos ou com mais, a gente se rebusca. Mas, seu moço, o que dói é o animal. Dói de chorar. Não lhe falo de palavrório. Falo é de sério, de chorar, de não dormir, não comer, emagrecer com os bichos. É um desando de tudo. Primeiro os campos vão amarelescendo, o pasto quebrando embaixo dos cascos. Os redemoinhos de vento, que é sinal mesmo de seca, levantam farelo de pasto, polvadeira. Tem quem diga que é o diabo no cavalo de vento dele, fazendo estrupício aqui e se indo de volta pros pagos dele. A terra vai se abrindo em fendas, entra uma chaira. Depois, dois dedos. Depois entra o casco da ovelha. Vem a bicheira, a deblitação. O animal se assoleiam. Ficam abombados com o sol e o mormaço, a secura de tudo. Se tem arve, ali ficam, sombreando até mais de meia tarde. Vão delgaçando, afinando, emagrecendo, os ossos vão apontando. O animal caminha se culatreando desgovernado, tropicando, cai. Se fere de sangue. Vem a mosca-varejeira, abrindo bicheira, a morte roendo. Se se quebra, que não levante, o campeiro não viu, vem o corvo. Primeiro um, dois. Depois gurrumina, romas deles. Atirar não presta. Bala em corvo enferruja o cano. A arma enfraquece, vai se corroendo de ferrugem. Tem que se envenenar a carniça. Aí se domina um pouco eles, mas não acaba. Ficam redemoinhando em cima, ver redemoinho de diabo, que devem de ter parte com ele, ameaçando os vivos, trazendo receios, pensamentos bobagens que até nem são próprios de homem de tutano, nos seus conformes. A arve primeiro derruba uma folha, amarelesce outra, vão caindo. As das casas, a gente vai cortando galhos, atirando no campo, matando quem quer matar. Mas tudo acaba. Nem sombra benfazeja fica. Ficam os paus, as pontas. Ainda que mal compare, até parece braço de vivente nas despedidas tristes, se apagando. Mas da memória isso não se vai. A gente vai salvando as tambeiras de mais leite, a junta de bois mansos. Empeçam a costear a cerca, bombeiam pro lado da gente, das casas, e berram como gemido, que vai se afinando, de cortar a alma. Sangram os beiços, lambendo terra, a casca das arves, as tramas secas da cerca, postes, o que possa ter que no instinto deles diz que se pode comer. É o desatino da bóia, e é a falta do sal. Se o senhor der, ele dá mais sede. A seca é ver o retrato pintado do inferno pros viventes. Vão deitando, morrendo. Mortos de sede, seu moço, de fome, de secura dolorida, faimada. Que justiça tem isso? Que dom têm outros? Ficam magros, que nem fedem de comum. Fica o couro desmerecido de sol em cima dos ossos, os bichos acabando com os restolhos ficados daqueles animais que corriam lindos pelo campo, que se reproduziam, retouçavam. Nos bretes e nas carreteiras o que se vê é carroça, caminhão lotado de couros e couros, pelegos e pelegos. Só. Essa vira a safra. Não sobra nada mais que a brotação da morte, como semeada. Um se sente como no apartado de quem vive em ilha longe, que deve de ter um viver por esse rumo, a lo mejor com menos padecimentos. Os viventes humanos só falam do tempo brabo. O olhar empinado pra cima, esperando a primeira nuvem. A gente chega a sonhar no sono com o cheiro da terra molhada da chuva, se levanta direto pra porta. É nada. Se o senhor vai pro povo, na cidade, como dizem, aí as pessoas, maioria nem conversam disso. Tem água na torneira. Na praça, o senhor vai ao quartinho de banho, lá o senhor vê a água pingando. Desperdício. As casas molham o pasto da frente, que é sempre verde, flores, banham cachorro, lavam auto, sem necessidade, que nem barro tem. Senhor já viu? O senhor é feliz de não ter visto o que é a Campanha na seca. A força da terra, depois das chuvas, faz rebrotar o verde. Apaga tudo, pra quem não esteve ali.

A guerra, seu moço, é a outra desgraça. É como se pudesse haver um poço sem fundo. Ali tudo se some. Nada é de ninguém. Nem as pessoas próprias. A força vem, de qualquer lado que ser, carrega com o que precisa e com o que não faz falta pra eles. Força, malvadezas. Leva os meninos, os montados, com cavalo, levam as armas, até facas de serviço. Dois palmos de ferro branco vira arma. Tesoura de tosa, igual. Levam. Aqui pra cima, lindeiro, tinha uma caudelaria. Só cavalos de trato, comedores de milho, aveias, alfafa. Com mais cuidados que os homens que tratam. O encarregado, que cuidava, era um homem já maduro, chamado Autério Sigal. Cavalos não eram dele, eram de dois irmãos estancieiros de gados e lavouras, abastados, autos finos, aviãozinho teco-teco. Quem galopeava os cavalos, levava pro nado, tocava no tempo pra ver o preparo na cancha, eram três meninos franzinos, de pouco peso. Montavam só de freio de metal liviano, as rédeas e a peiteira de pescoço, uma peiteirinha mais parecendo argola que fosse feita de trança simples de três. Tinha o Lírio, que vinha a ser o mais velho, o Munho e o Gume, todos irmãos, todos do mesmo porte. Diziam que filhos do mesmo Sigal, que não tinha mulher. Diz-que vindo das bandas do Camaquã, ninguém por ali sabia quando nem por quê. Numa volteada de revolução, que não lhe sei dizer ao certo por qual propósito, levaram o Gume, que pegaram na cancha, preparando parelheiro pra uma domingueada grongueira, de muita plata. De tarde, já quase noite, sol entrante, fizeram ele de sinuelo, levando três daqueles incorporados pro galpão da caudelaria e levantaram três cavalos daqueles, que vieram de tiro, pelo buçal. Um deles, o dito Gume levava, pra mais do montado. E o menino, sem mais nada que o calçãozinho que usava. Sem nem chapéu ou boina. Descalço como estava. Que nos galopes do preparo, quanto menos peso melhor. Me faz até lembrar do acontecido pra um piazito de nome Nesto, também conhecido no galpão como Pasto, porque guaxo de pai e mãe como o Negrinho Pastorejo. Foi numa pegada de mano, depois de pesarem as pilchas e os corredores - jóquis chamam hoje. Nesto pesava dois e pouco menos que o outro. Então lhe puseram uma cinta de couro tipo guaiaca, com chumbadas, até completar o peso pras igualas. Nesto conduziu impecável. Ganhou de corpo e luz só levantando o rebenquinho de jerivá pra o cavalar enxergar, sem bater sequer única vez. Quando o dono da égua lazona que ele montava abraçou ele, rindo de alegre, ele cochichou: “Seu Tobia, nem comente, eles não viram, mas eu tirei o peso de mim, pra ficar menos, e enfiei no lombo da egüinha, por baixo da perna”. Aquilo foi gracioso. Na hora do festejo da parceria ganhadora, com cerveja Gazapina, que era parte da parada, se ouvia a gaitada deles pro modo da história misturada com o alegrão da ganhada. “Desfalsei de modesto e tirei o peso de mim” - ele repetia pra um e pra outro.

Quando chegaram aqueles com o Gume a cavalo, mas o cavalo dele no cabresto, mandaram que os da casa fechassem tudo e não saíssem nem dessem fé. Um ficou na porta da casa, era já noitezita, até que os outros fossem um tiro assim como cem passos. Aí tocou à meia-rédea, deitado sobre o arção, pra encontrar os comparsas. Levaram o menino Gume, sem recursos de saber pra donde. Pois lhe conto isto: o menino Gume debandou três semanas escassas depois. Se mandou mudar pra querência. O Sigal passou a esconder ele por mais de mês, um dia aqui, outro ali. Aqui esteve o menino, escondido de todos por um lote de dias. Desde elas, que ainda movimentavam os afazeres da fazenda, guardaram o menino, que era então como eu. Pois na volta, quando já estava em casa e se dava o causo por passado, num fim de tarde, aqueles da guerra pegaram todos em casa. Dois no galpão limpando as cocheiras e ajeitando bóia e água pra cavalhada e dois nas casas, ajeitando bóia de gente, pra eles, que moravam só eles, machos todos, que faziam então tudo. Chegaram nessa ocasião seis. Dois na porta da casa, dois na porta do galpão, dois a uns cem passos. Pegaram o grito: “Que ninguém saia sem ordem. É ordem. A revolução precisa de cavalo e gente. Os da casa saiam todos pela porta da casa. Os do galpão saem pelo portão do nascente. Se alguma nesga de tábua se abrir, a mais da porta, vai chumbo”. A casa ficava na banda do portão do poente, de modos que não tinham como não sair. Pro lado norte, tinha, como um puxado, uma latrina antiga, já meio cariada do tempo, já sem porta, mas ainda de uso. Ficava no pé dum janelão de cocheira. Não se enxergava a latrina de donde estavam os dois que cuidavam a saída da casa. Saíram da casa o dito Sigal e um dos meninos, de mão na cabeça, olhos nos vultos que mal-mal viam. Tremiam, encabulados. Na porta do galpão, do lado do nascente, saiu um, ainda tapado da polvadeira do serviço de limpeza, sem camisa, de pé-no-chão como estava, sem gorro nem chapéu. Ouviram: “Era esse...” Um dos sitiantes berrou a rebentar os bofes: “Se achegue, soldado! A patrulha veio por você”. Lírio - Lírio era o que saía - teve dificuldade pra manter o passo, tremia, mas foi indo, assim de mãos pra cima. “Receba o homem!” - ordenou seco o que gritava - e tapeou o chapéu pro alto da cabeça. O ordenado troteou até bem quase em cima do dito Lírio e apeou. Tirou dos arreios uma maneia de manear redomÃo e prendeu ela nos pulsos do meninote Lírio. O menino bombeou pra trás, assim nomais de relancina, que atrás dele, à mão direita, fronteando a casa, estavam o Sigal e o Munho. O sitiante tirou da cintura um cabrestinho de duas braças e apresilhou nele a maneia, pelo meio dela. A outra ponta prendeu no cinchador, junto com a presilha do laço. Quem sabe que cara fazia o dito Lírio? Que não se passa num homem nessas horas? Disse o que recebia: “Tô estranhando o soldado, tenente”. E declarou que aquele não parecia o menino outro, que tinha debandado. Foi que se deu o cruz-credo-deus-nos-acuda. Ficou um silêncio. Veio a ordem: “Os dois aí, caminhem pra cá“. Foram indo aqueles dois. Quem sabe o que lhes passava. Chegaram os dois. “Receba os homens” - mandou o mandante. O que recebia tirou o maneador do serigote e foi atando aqueles dois, enleando um de costas pro outro. Enrolou que enrolou. “Confirme” - foi a ordem. O que recebia pegou o mango de soiteira larga que tinha deixado em cima dos arreios, no cavalo, enfiou o fiel no pulso e desaminou, desaminou aqueles dois, batendo o mango na bota. Não era nenhum. Aí o mandante queria era saber do Gume.

Fala. Pergunta. Meio que responde. Faz que responde. Grunhe. Lagrimeia. Pede. Se desculpa. Escarva o chão, olhando nada. Pergunta.

“São meus filhos” - tenteou como que esgoelado o Sigal, já tordilho de melena, faltando dente embaixo, de rodada braba de cancha molhada. “Leve eu”. Se deu outro mudo. Se ouvia mosca voando. Um gaviãozinho quiriquiri longe, um tachã. Foi quando o menino Lírio resmungou, de queixo caído, que o Gume recém estava com ele no galpão. “O moço vai levar a patrulha pra receber o escondido” - soletrou lento o mandante. “Desmontar!” - anunciou largo e longo. Apearam todos os chegados. Ficaram onde estavam, menos um, também meninote, que seguiu o que recebia, no rumo do galpão. Perguntou: “Tem arma em casa?” Sem mudo, veio a resposta da boca do Sigal: “Nenhuma. Nunca teve”. “No galpão?” - quis confirmar. “Nenhuma. Nunca” - repostou o homem. O que recebia e o meninote, sem barba, bom facão, trabuco curto, entregou o cabresto do cavalo pra um companheiro, encostou a lança nos arreios, seguiram pro galpão. Parou no caminho o que recebia. Fez caravolta e enveredou pro cavalo e soltou a presilha do cabresto que prendia o menino Lírio no cinchador. “Vem na frente” - mandou. Assim foram: menino Lírio maneado, seguro pelo maneador na maneia, atrás os dois chegados. Assim mesmo entraram no galpão. Dale-que-dale e nada. De fora se ouvia que falavam lá dentro. Ratos passados, saíram. Informou o que recebia: “Ninguém, tenente”. “Somos gente boa, de paz, mas guerra é guerra. Ordens é ordens” - disse o mandante e conferenciou baixeiro ali com um deles, os da guerra, e aquele deu caravolta à meia-rédea. Ratos largos, voltou, de pra donde tinha ido, com mais dois. Era reforço de guarda pra passar a noite. Quando os recém-chegados botaram o pé em terra, o mandante informou pra todos: “Os da casa querem nos convidar pra um pouso. Ficamos”. Começava o momento mais infeliz do cativeiro da humilhação praqueles ali. O menino maneado pelos pulsos foi mandado terminar a bóia e fazer mate pra todos. Entrava a noite. Um daqueles chegados mangueou uma ponta de rebanho que dormia na mangueirinha e carneou dois borregotes. Fizeram fogo grande e espetaram em galhos de cinamomos os dois borregotes acabados de carnear, carne quente. Fumegava o fervido de canjica na panela de ferro, aromava a carne na labareda, corria o mate, charla solta. Os dois atados, no olho do vigia, onde ia um ia o outro, de lado, tropeçando, caindo, sem falar. Pra urinar, urinava um, outro também. O menino maneado dos pulsos teve que botar a canjica em caneca e virar na boca dos atados. Os da caudelaria assim passaram a noite: nas tripas do diabo. Mal-mal veio o lusco-fusco, se movimentaram os sitiantes. Matearam ligeiro e foram pras perguntas. Dois deles foram dar a busca. A pé. Bateram lugar por lugar. Até na latrina velha foram berificar. Quedele o Gume...

Pois se abisme, moço. O Gume estava ali. Sabe o senhor donde? Na latrina. Entrou pelo buraco de sentar e se enfiou na porcaria que subiu nele até o pescoço. Ali foi que ele passou aquele resto de tarde mais a noite. Vá eu saber como suportou! O que salvou o menino foi que os da guerra não faziam causo de latrina; se deslivravam ali nomais por donde andavam, nas paredes da casa, nos troncos das arves. Outras coisas faziam no corredor de ponta a ponta que tinha o galpão, entre as cocheiras, que era de chão de terra.

Quando vi uma vez o Gume, de refilão, no bolicho do Xinga, já homem feito e afamilhado, ainda carreirista, ele tinha um costume que até fazia que alguns riam dele. Ele falava um pouco, piscava forte os dois olhos, dava uns espichos de pescoço como pato no amor, acompanhava os piscos com a cabeça pra cima e pra baixo e cheirava a ponta dos dedos, ligeirinho, um depois do outro, com a mÃo meio fechada, assim como se diz - muitos. Por isso lhe digo: depois da seca, a pior peste é a guerra.

Mas contar contado com terminação não contei. Ficou de fora uma parte, que também mossa peito de homem, que não só coração de moça-donzela. É que assim a uns cem passos da casa tem inda hoje ali, pro outro lado do dito galpão da dita caudelaria, uma tuna mui antiga, que se criou cangada com um maricá de tronco oqueado de velho, que bota flores branquilhas. Junta abelha e marimbondo. Pois esta é a terminação.

Seu moço, de noite, nalgumas sextas-feiras de verão, em dia treze, que foi no verão que tudo isso sucedeu, por perto da meia-noite, quando não tem vento, aparece uma luzinha esbranquiçada, parecendo flor do maricá. Ela vai subindo, subindo e crescendo. Quando vai subindo, vai ficando azulada, pra mais que água de cacimba. Aí se alarga pela ramagem, sem queimar, vira avermelhada sobre o meio, cor de sangue vai virando, vai ficando em forma de gota, como quando sangue pinga, já grosso. Nessas noites, pendendo pra madrugada, quando a boieira sobe na coxilha céu acima, aquela luz vai virando luzinha de feitio de estrela. Aí o senhor pode, eu, qualquer vivente, ficar chuleando, mas sem fala... Aquela tuna vai abrindo, visível, uma flor comum dessas de tuna, mas a flor, quando vai murchando, já perto do meio-dia, ela se faz de cor de sangue. É quando, seu moço, tem gente, como o aramador Pilica e sia Chiquinha Inhata, que se benzem e baixam a cabeça até se poder ouvir, isso já bem no ponto do meio-dia, uma calândria, que ali aparece. Não se vê a avezinha voando, se achegando. Quando a pessoa enxerga, já lá está ela, no alto da tuna espinhosa. Não pense em cantar comum das calândrias. É um assobio como de gente, lamentoso. Ela canta é mais bem um assobiozinho de chamado, como chamando, sem nunca abrir canto floreado, que elas têm no de comum, além do assobio que também sabem. O pessoal da estância, alguns de religião sem reflanos, levam, na meia-noite da sexta pro sábado, uma velinha que acendem até queimar toda. Que, quando não queima toda, diz-que a alma do finado não aceita e fica vagando. Que aquele canto, aquele assobiozinho tristinho é de fato pedido do morto que ali está enterrado, ali mesmo degolado. Tem quem diga que aquela calândria é o espírito sacrificado do Sigal, que vem pedir vela e reza. Outros dizem que não, que o Sigal não foi degolado naquele lugar, naquela ocasião, e até que nem mesmo foi degolado e que ninguém sabe onde morreu. O que todos sabem é que de repente não foi mais visto. Outros falam, de meia-boca, que voltou pra terra dele. Por isso digo: qual é o mais destoante - a seca ou a guerra? Não sou sabedor. Sei, sim, amigo, que a seca e a guerra são as desgraças piores que conheço e de que ouvi contar. Pragas do mundo. Que me diz o senhor? Muito me aprazia ouvir relato de seu parecer, seu pensamento.

CICERO Galeno Urroz LOPES. Natural de Uruguaiana (1944). Residente em Porto Alegre. Professor titular e pesquisador no Centro Universitário La Salle, Canoas, RS. Passagens profissionais: Escolas públicas estaduais e particulares de ensino médio; Delegacia de Educação; Secretaria Estadual de Educação; PUCRS; UFRGS. Licenciado (UCP), Mestre (PUC-RS) e Doutor em Letras (UFRGS). Autor editado de ficção e ensaios. Colaborador em periódicos especializados e em jornais. Coordenador do Grupo de Pesquisa Estudos das Culturas Gaúchas.