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Alvício dos Olhos-D'água
Cicero Galeno Lopes
As duas coisas mais piores entendo que sejam a seca e a guerra.
Nasci e sempre morei nos pagos de por aqui. Não vi outros
mundos. Fui criado aqui mesmo por duas irmãs, solteiras que
eram. Tinham fala arrevesada, mas também falavam brasileiro. Por
isso, acho, minha conversa é também cheia de tranças e retovos.
Me dei por conta do mundo desse modo. Onde fui mais longe, por
força de trabalho de tropa e outros serviços, foi até a capela
do Ipané, dita também Capela. Isso se fazia em tropa de seis pra
sete dias, descansando do anoitecer ao clarear do dia. No trote,
três dias pra quatro.
A seca, seu moço, é desgraça. Nas secas brabas, como a de
quarenta e três, que dessa num de fato até nem me lembro às
claras. Me lembro doído mesmo é da de cinqüenta e sete. Essa foi
de arrepiar os cabelos do cogote. Os mais antigos sempre diziam
que elas vêm de sete em sete anos. Os peçuelos da lembrança
tenho até meio ocos pra de cinqüenta, que por de certo que foi
braba, mas a memória, nesse entremeio, se me corta. Outros
contavam coisas de doer, como as ditas senhoras com quem fui
criado, que nesse então ainda estavam vivas. Eu não tinha soldo.
Tinha cama, bóia, cavalo, roupa. Na safra de lã e na de boi, aí
sim me caía um punhadinho de pelegas. Era o mandalete e o dos
serviços pequenos. De tudo. Era Alvício pra cá, Alvício praquele
outro. Alvício é este seu criado. Alvício sem mais nada. Do que
sei, por ouvir dizer, nasci nos Olhos-Dágua, um puxão de três
léguas daqui, nada mais. Lá havia um guarda-livro, que escrevia
nascimentos, casamentos, mortes. Num incêndio, numa dessas secas
brabas que não sei decerto qual ser, queimou tudo. Ranchinho de
barro, madeira e capim. O que era de queimar virou cinza, que
por supuesto o vento e a água das chuvas carregaram. Por isso os
papéis documentos que o senhor tem não tenho, que são hoje
requisitados até pra se comprar algum traste. Não por outra,
porque assino o nome, com letra feita, corrida quase toda. Tanto
que o que tenho devo a elas, que me deixaram com casa e este
pedacinho de terra, que sempre dá pra quinta, pras arves frutais,
pras tambeiras. Nem elas tiveram colégio, mas liam, escreviam,
contavam, faziam conta no lápis, relatavam histórias de outros
tempos. Contavam, com presença de sentido, falando da mãe, vinda
doutros pagos, como o pai. Minha condução é o carrinho-aranha,
que também era delas. De fato, sempre me diziam pra cuidar dele
como se fosse meu, que tinha sido do pai delas. Nele saíam a mãe
e elas pros passeios de domingo. O pai era homem de longe, como
a mãe. Pelo visto das falas, eram das Europas, que japonês ou
turco não tinham feição de ser. Noutros tempos não tinha bonde,
ônibus, como agora deram pra dizer, mas que até nem gosto. Agora
a moda é um que dizem mico, um bondezinho por metade. Também nem
sempre vem. Chega longe. Sacrificioso pra carregar, ainda que
coisas poucas, que são só as de que tenho precisão. Tive - digo
mal - devo de ter uma irmã, que se criou com família do Sarandi,
daqui são léguas, fazenda dessas que um homem só, de estrela a
estrela, não campereia num dia, a trote, nem a metade. De
presença, vi minha irmã por duas vezes. De ouvir falar conheço
mais. Uma feita, numa primavera lindaça de invejar, apareceu
aqui pra passar três dias comigo. Ficou na casa, com elas.
Noutra ocasião apareceu de passada pra contar da nossa finada
mãe, que tinha falecido. Era moça prendada pra casamento, rosto
claro de não pegar sol e mão fina, cuidada dos rigores, mas que
nunca casou. Era só dos serviços de dentro. Eu também tive
regalias de quartinho puxado do galpão, separado, com cama,
colchão, lençol e acolchoado, lavatório com bacia, jarra d'água
e aparelho pras necessidades. Tive sempre, de próprio ter, meus
avios de mate, pra chimarrear solito e em silêncio, quando
quisesse ou precisasse, que isso faz um homem tarimbeiro pro
pensar. Não quero dizer que seja. Quem sou eu? Sempre escolhi os
cavalos da minha montaria. Arreios sempre meus. De formas que
tivemos sorte na vida. Minha mãe morreu por lá, porque viveu, a
lo largo de toda a vida dela, por lo menos que eu saiba, com
essa irmã. Lucília chama-se ela, minha irmã, de afazeres de
cozinha e copa, como lhe ouvi de própria boca, quando aqui
esteve por primeira vez. Fazia e enchia o mate pra família,
ouvindo o que queria, se queria, mas fazendo que não ouvia, da
confiança. Ia andando em roda deles reunidos, esperando roncar a
cuia de um, que eram dezesseis, enchendo outro, passando
adiante. Moía, passava e servia café, desde o primeiro sinal da
manhã. Sabia também de chocolates, bolos, essas finezas boas que
quem pode tem, que na minha vida de hoje assim solito não tenho.
A não ser o mate, o café passado com leite bom, que isso tenho,
sem modéstia. Nos domingos dou preferências pra um cacau fervido
no leite, que é um gosto meu, e o que é de gosto regala a vida.
Hoje, minha irmã, diz-que, mora na cidade, com uma senhora
solita dessa família Gomelos, que até nem sei ao certo se é
assim mesmo o nome, por estranho. As duas já de idade. Tenho
pedido notícia pra um e pra outro, nas redondezas. Quero ver se
ainda vou ver ela, dizer quem sou. Que por decerto o senhor
mesmo não saiba, como por um acauso, que não vive nestes pagos?
Pra gente, como pros bichos, chega o tempo de tudo. Assim solito,
com a idade, os estranzilhos dos trabalhos, a gente vai meio que
se pondo devagar com tudo. São dificuldades. Os invernos afetam.
É a tosse, dorzinha aqui em cima, desacomodo ali em baixo. Os
olhos já não chegam a contento. Mas nada como a seca. O senhor
talvez por certo nunca pôde ver, ou não quis. Na seca de
cinqüenta e sete foi só quando, uma vez, tive gana de
desarranchar daqui, me ir pra donde nÃo visse tanto sofrimento.
Que sofrer a gente sofre, mas sempre se releva. A gente é pessoa
pensante, sempre tem algum recurso. Com menos ou com mais, a
gente se rebusca. Mas, seu moço, o que dói é o animal. Dói de
chorar. Não lhe falo de palavrório. Falo é de sério, de chorar,
de não dormir, não comer, emagrecer com os bichos. É um desando
de tudo. Primeiro os campos vão amarelescendo, o pasto quebrando
embaixo dos cascos. Os redemoinhos de vento, que é sinal mesmo
de seca, levantam farelo de pasto, polvadeira. Tem quem diga que
é o diabo no cavalo de vento dele, fazendo estrupício aqui e se
indo de volta pros pagos dele. A terra vai se abrindo em fendas,
entra uma chaira. Depois, dois dedos. Depois entra o casco da
ovelha. Vem a bicheira, a deblitação. O animal se assoleiam.
Ficam abombados com o sol e o mormaço, a secura de tudo. Se tem
arve, ali ficam, sombreando até mais de meia tarde. Vão
delgaçando, afinando, emagrecendo, os ossos vão apontando. O
animal caminha se culatreando desgovernado, tropicando, cai. Se
fere de sangue. Vem a mosca-varejeira, abrindo bicheira, a morte
roendo. Se se quebra, que não levante, o campeiro não viu, vem o
corvo. Primeiro um, dois. Depois gurrumina, romas deles. Atirar
não presta. Bala em corvo enferruja o cano. A arma enfraquece,
vai se corroendo de ferrugem. Tem que se envenenar a carniça. Aí
se domina um pouco eles, mas não acaba. Ficam redemoinhando em
cima, ver redemoinho de diabo, que devem de ter parte com ele,
ameaçando os vivos, trazendo receios, pensamentos bobagens que
até nem são próprios de homem de tutano, nos seus conformes. A
arve primeiro derruba uma folha, amarelesce outra, vão caindo.
As das casas, a gente vai cortando galhos, atirando no campo,
matando quem quer matar. Mas tudo acaba. Nem sombra benfazeja
fica. Ficam os paus, as pontas. Ainda que mal compare, até
parece braço de vivente nas despedidas tristes, se apagando. Mas
da memória isso não se vai. A gente vai salvando as tambeiras de
mais leite, a junta de bois mansos. Empeçam a costear a cerca,
bombeiam pro lado da gente, das casas, e berram como gemido, que
vai se afinando, de cortar a alma. Sangram os beiços, lambendo
terra, a casca das arves, as tramas secas da cerca, postes, o
que possa ter que no instinto deles diz que se pode comer. É o
desatino da bóia, e é a falta do sal. Se o senhor der, ele dá
mais sede. A seca é ver o retrato pintado do inferno pros
viventes. Vão deitando, morrendo. Mortos de sede, seu moço, de
fome, de secura dolorida, faimada. Que justiça tem isso? Que dom
têm outros? Ficam magros, que nem fedem de comum. Fica o couro
desmerecido de sol em cima dos ossos, os bichos acabando com os
restolhos ficados daqueles animais que corriam lindos pelo
campo, que se reproduziam, retouçavam. Nos bretes e nas
carreteiras o que se vê é carroça, caminhão lotado de couros e
couros, pelegos e pelegos. Só. Essa vira a safra. Não sobra nada
mais que a brotação da morte, como semeada. Um se sente como no
apartado de quem vive em ilha longe, que deve de ter um viver
por esse rumo, a lo mejor com menos padecimentos. Os viventes
humanos só falam do tempo brabo. O olhar empinado pra cima,
esperando a primeira nuvem. A gente chega a sonhar no sono com o
cheiro da terra molhada da chuva, se levanta direto pra porta. É
nada. Se o senhor vai pro povo, na cidade, como dizem, aí as
pessoas, maioria nem conversam disso. Tem água na torneira. Na
praça, o senhor vai ao quartinho de banho, lá o senhor vê a água
pingando. Desperdício. As casas molham o pasto da frente, que é
sempre verde, flores, banham cachorro, lavam auto, sem
necessidade, que nem barro tem. Senhor já viu? O senhor é feliz
de não ter visto o que é a Campanha na seca. A força da terra,
depois das chuvas, faz rebrotar o verde. Apaga tudo, pra quem
não esteve ali.
A guerra, seu moço, é a outra desgraça. É como se pudesse haver
um poço sem fundo. Ali tudo se some. Nada é de ninguém. Nem as
pessoas próprias. A força vem, de qualquer lado que ser, carrega
com o que precisa e com o que não faz falta pra eles. Força,
malvadezas. Leva os meninos, os montados, com cavalo, levam as
armas, até facas de serviço. Dois palmos de ferro branco vira
arma. Tesoura de tosa, igual. Levam. Aqui pra cima, lindeiro,
tinha uma caudelaria. Só cavalos de trato, comedores de milho,
aveias, alfafa. Com mais cuidados que os homens que tratam. O
encarregado, que cuidava, era um homem já maduro, chamado
Autério Sigal. Cavalos não eram dele, eram de dois irmãos
estancieiros de gados e lavouras, abastados, autos finos,
aviãozinho teco-teco. Quem galopeava os cavalos, levava pro
nado, tocava no tempo pra ver o preparo na cancha, eram três
meninos franzinos, de pouco peso. Montavam só de freio de metal
liviano, as rédeas e a peiteira de pescoço, uma peiteirinha mais
parecendo argola que fosse feita de trança simples de três.
Tinha o Lírio, que vinha a ser o mais velho, o Munho e o Gume,
todos irmãos, todos do mesmo porte. Diziam que filhos do mesmo
Sigal, que não tinha mulher. Diz-que vindo das bandas do Camaquã,
ninguém por ali sabia quando nem por quê. Numa volteada de
revolução, que não lhe sei dizer ao certo por qual propósito,
levaram o Gume, que pegaram na cancha, preparando parelheiro pra
uma domingueada grongueira, de muita plata. De tarde, já quase
noite, sol entrante, fizeram ele de sinuelo, levando três
daqueles incorporados pro galpão da caudelaria e levantaram três
cavalos daqueles, que vieram de tiro, pelo buçal. Um deles, o
dito Gume levava, pra mais do montado. E o menino, sem mais nada
que o calçãozinho que usava. Sem nem chapéu ou boina. Descalço
como estava. Que nos galopes do preparo, quanto menos peso
melhor. Me faz até lembrar do acontecido pra um piazito de nome
Nesto, também conhecido no galpão como Pasto, porque guaxo de
pai e mãe como o Negrinho Pastorejo. Foi numa pegada de mano,
depois de pesarem as pilchas e os corredores - jóquis chamam
hoje. Nesto pesava dois e pouco menos que o outro. Então lhe
puseram uma cinta de couro tipo guaiaca, com chumbadas, até
completar o peso pras igualas. Nesto conduziu impecável. Ganhou
de corpo e luz só levantando o rebenquinho de jerivá pra o
cavalar enxergar, sem bater sequer única vez. Quando o dono da
égua lazona que ele montava abraçou ele, rindo de alegre, ele
cochichou: “Seu Tobia, nem comente, eles não viram, mas eu tirei
o peso de mim, pra ficar menos, e enfiei no lombo da egüinha,
por baixo da perna”. Aquilo foi gracioso. Na hora do festejo da
parceria ganhadora, com cerveja Gazapina, que era parte da
parada, se ouvia a gaitada deles pro modo da história misturada
com o alegrão da ganhada. “Desfalsei de modesto e tirei o peso
de mim” - ele repetia pra um e pra outro.
Quando chegaram aqueles com o Gume a cavalo, mas o cavalo dele
no cabresto, mandaram que os da casa fechassem tudo e não
saíssem nem dessem fé. Um ficou na porta da casa, era já
noitezita, até que os outros fossem um tiro assim como cem
passos. Aí tocou à meia-rédea, deitado sobre o arção, pra
encontrar os comparsas. Levaram o menino Gume, sem recursos de
saber pra donde. Pois lhe conto isto: o menino Gume debandou
três semanas escassas depois. Se mandou mudar pra querência. O
Sigal passou a esconder ele por mais de mês, um dia aqui, outro
ali. Aqui esteve o menino, escondido de todos por um lote de
dias. Desde elas, que ainda movimentavam os afazeres da fazenda,
guardaram o menino, que era então como eu. Pois na volta, quando
já estava em casa e se dava o causo por passado, num fim de
tarde, aqueles da guerra pegaram todos em casa. Dois no galpão
limpando as cocheiras e ajeitando bóia e água pra cavalhada e
dois nas casas, ajeitando bóia de gente, pra eles, que moravam
só eles, machos todos, que faziam então tudo. Chegaram nessa
ocasião seis. Dois na porta da casa, dois na porta do galpão,
dois a uns cem passos. Pegaram o grito: “Que ninguém saia sem
ordem. É ordem. A revolução precisa de cavalo e gente. Os da
casa saiam todos pela porta da casa. Os do galpão saem pelo
portão do nascente. Se alguma nesga de tábua se abrir, a mais da
porta, vai chumbo”. A casa ficava na banda do portão do poente,
de modos que não tinham como não sair. Pro lado norte, tinha,
como um puxado, uma latrina antiga, já meio cariada do tempo, já
sem porta, mas ainda de uso. Ficava no pé dum janelão de
cocheira. Não se enxergava a latrina de donde estavam os dois
que cuidavam a saída da casa. Saíram da casa o dito Sigal e um
dos meninos, de mão na cabeça, olhos nos vultos que mal-mal
viam. Tremiam, encabulados. Na porta do galpão, do lado do
nascente, saiu um, ainda tapado da polvadeira do serviço de
limpeza, sem camisa, de pé-no-chão como estava, sem gorro nem
chapéu. Ouviram: “Era esse...” Um dos sitiantes berrou a
rebentar os bofes: “Se achegue, soldado! A patrulha veio por
você”. Lírio - Lírio era o que saía - teve dificuldade pra
manter o passo, tremia, mas foi indo, assim de mãos pra cima.
“Receba o homem!” - ordenou seco o que gritava - e tapeou o
chapéu pro alto da cabeça. O ordenado troteou até bem quase em
cima do dito Lírio e apeou. Tirou dos arreios uma maneia de
manear redomÃo e prendeu ela nos pulsos do meninote Lírio. O
menino bombeou pra trás, assim nomais de relancina, que atrás
dele, à mão direita, fronteando a casa, estavam o Sigal e o
Munho. O sitiante tirou da cintura um cabrestinho de duas braças
e apresilhou nele a maneia, pelo meio dela. A outra ponta
prendeu no cinchador, junto com a presilha do laço. Quem sabe
que cara fazia o dito Lírio? Que não se passa num homem nessas
horas? Disse o que recebia: “Tô estranhando o soldado, tenente”.
E declarou que aquele não parecia o menino outro, que tinha
debandado. Foi que se deu o cruz-credo-deus-nos-acuda. Ficou um
silêncio. Veio a ordem: “Os dois aí, caminhem pra cá“. Foram
indo aqueles dois. Quem sabe o que lhes passava. Chegaram os
dois. “Receba os homens” - mandou o mandante. O que recebia
tirou o maneador do serigote e foi atando aqueles dois, enleando
um de costas pro outro. Enrolou que enrolou. “Confirme” - foi a
ordem. O que recebia pegou o mango de soiteira larga que tinha
deixado em cima dos arreios, no cavalo, enfiou o fiel no pulso e
desaminou, desaminou aqueles dois, batendo o mango na bota. Não
era nenhum. Aí o mandante queria era saber do Gume.
Fala. Pergunta. Meio que responde. Faz que responde. Grunhe.
Lagrimeia. Pede. Se desculpa. Escarva o chão, olhando nada.
Pergunta.
“São meus filhos” - tenteou como que esgoelado o Sigal, já
tordilho de melena, faltando dente embaixo, de rodada braba de
cancha molhada. “Leve eu”. Se deu outro mudo. Se ouvia mosca
voando. Um gaviãozinho quiriquiri longe, um tachã. Foi quando o
menino Lírio resmungou, de queixo caído, que o Gume recém estava
com ele no galpão. “O moço vai levar a patrulha pra receber o
escondido” - soletrou lento o mandante. “Desmontar!” - anunciou
largo e longo. Apearam todos os chegados. Ficaram onde estavam,
menos um, também meninote, que seguiu o que recebia, no rumo do
galpão. Perguntou: “Tem arma em casa?” Sem mudo, veio a resposta
da boca do Sigal: “Nenhuma. Nunca teve”. “No galpão?” - quis
confirmar. “Nenhuma. Nunca” - repostou o homem. O que recebia e
o meninote, sem barba, bom facão, trabuco curto, entregou o
cabresto do cavalo pra um companheiro, encostou a lança nos
arreios, seguiram pro galpão. Parou no caminho o que recebia.
Fez caravolta e enveredou pro cavalo e soltou a presilha do
cabresto que prendia o menino Lírio no cinchador. “Vem na
frente” - mandou. Assim foram: menino Lírio maneado, seguro pelo
maneador na maneia, atrás os dois chegados. Assim mesmo entraram
no galpão. Dale-que-dale e nada. De fora se ouvia que falavam lá
dentro. Ratos passados, saíram. Informou o que recebia:
“Ninguém, tenente”. “Somos gente boa, de paz, mas guerra é
guerra. Ordens é ordens” - disse o mandante e conferenciou
baixeiro ali com um deles, os da guerra, e aquele deu caravolta
à meia-rédea. Ratos largos, voltou, de pra donde tinha ido, com
mais dois. Era reforço de guarda pra passar a noite. Quando os
recém-chegados botaram o pé em terra, o mandante informou pra
todos: “Os da casa querem nos convidar pra um pouso. Ficamos”.
Começava o momento mais infeliz do cativeiro da humilhação
praqueles ali. O menino maneado pelos pulsos foi mandado
terminar a bóia e fazer mate pra todos. Entrava a noite. Um
daqueles chegados mangueou uma ponta de rebanho que dormia na
mangueirinha e carneou dois borregotes. Fizeram fogo grande e
espetaram em galhos de cinamomos os dois borregotes acabados de
carnear, carne quente. Fumegava o fervido de canjica na panela
de ferro, aromava a carne na labareda, corria o mate, charla
solta. Os dois atados, no olho do vigia, onde ia um ia o outro,
de lado, tropeçando, caindo, sem falar. Pra urinar, urinava um,
outro também. O menino maneado dos pulsos teve que botar a
canjica em caneca e virar na boca dos atados. Os da caudelaria
assim passaram a noite: nas tripas do diabo. Mal-mal veio o
lusco-fusco, se movimentaram os sitiantes. Matearam ligeiro e
foram pras perguntas. Dois deles foram dar a busca. A pé.
Bateram lugar por lugar. Até na latrina velha foram berificar.
Quedele o Gume...
Pois se abisme, moço. O Gume estava ali. Sabe o senhor donde? Na
latrina. Entrou pelo buraco de sentar e se enfiou na porcaria
que subiu nele até o pescoço. Ali foi que ele passou aquele
resto de tarde mais a noite. Vá eu saber como suportou! O que
salvou o menino foi que os da guerra não faziam causo de
latrina; se deslivravam ali nomais por donde andavam, nas
paredes da casa, nos troncos das arves. Outras coisas faziam no
corredor de ponta a ponta que tinha o galpão, entre as
cocheiras, que era de chão de terra.
Quando vi uma vez o Gume, de refilão, no bolicho do Xinga, já
homem feito e afamilhado, ainda carreirista, ele tinha um
costume que até fazia que alguns riam dele. Ele falava um pouco,
piscava forte os dois olhos, dava uns espichos de pescoço como
pato no amor, acompanhava os piscos com a cabeça pra cima e pra
baixo e cheirava a ponta dos dedos, ligeirinho, um depois do
outro, com a mÃo meio fechada, assim como se diz - muitos. Por
isso lhe digo: depois da seca, a pior peste é a guerra.
Mas contar contado com terminação não contei. Ficou de fora uma
parte, que também mossa peito de homem, que não só coração de
moça-donzela. É que assim a uns cem passos da casa tem inda hoje
ali, pro outro lado do dito galpão da dita caudelaria, uma tuna
mui antiga, que se criou cangada com um maricá de tronco oqueado
de velho, que bota flores branquilhas. Junta abelha e
marimbondo. Pois esta é a terminação.
Seu moço, de noite, nalgumas sextas-feiras de verão, em dia
treze, que foi no verão que tudo isso sucedeu, por perto da
meia-noite, quando não tem vento, aparece uma luzinha
esbranquiçada, parecendo flor do maricá. Ela vai subindo,
subindo e crescendo. Quando vai subindo, vai ficando azulada,
pra mais que água de cacimba. Aí se alarga pela ramagem, sem
queimar, vira avermelhada sobre o meio, cor de sangue vai
virando, vai ficando em forma de gota, como quando sangue pinga,
já grosso. Nessas noites, pendendo pra madrugada, quando a
boieira sobe na coxilha céu acima, aquela luz vai virando
luzinha de feitio de estrela. Aí o senhor pode, eu, qualquer
vivente, ficar chuleando, mas sem fala... Aquela tuna vai
abrindo, visível, uma flor comum dessas de tuna, mas a flor,
quando vai murchando, já perto do meio-dia, ela se faz de cor de
sangue. É quando, seu moço, tem gente, como o aramador Pilica e
sia Chiquinha Inhata, que se benzem e baixam a cabeça até se
poder ouvir, isso já bem no ponto do meio-dia, uma calândria,
que ali aparece. Não se vê a avezinha voando, se achegando.
Quando a pessoa enxerga, já lá está ela, no alto da tuna
espinhosa. Não pense em cantar comum das calândrias. É um
assobio como de gente, lamentoso. Ela canta é mais bem um
assobiozinho de chamado, como chamando, sem nunca abrir canto
floreado, que elas têm no de comum, além do assobio que também
sabem. O pessoal da estância, alguns de religião sem reflanos,
levam, na meia-noite da sexta pro sábado, uma velinha que
acendem até queimar toda. Que, quando não queima toda, diz-que a
alma do finado não aceita e fica vagando. Que aquele canto,
aquele assobiozinho tristinho é de fato pedido do morto que ali
está enterrado, ali mesmo degolado. Tem quem diga que aquela
calândria é o espírito sacrificado do Sigal, que vem pedir vela
e reza. Outros dizem que não, que o Sigal não foi degolado
naquele lugar, naquela ocasião, e até que nem mesmo foi degolado
e que ninguém sabe onde morreu. O que todos sabem é que de
repente não foi mais visto. Outros falam, de meia-boca, que
voltou pra terra dele. Por isso digo: qual é o mais destoante -
a seca ou a guerra? Não sou sabedor. Sei, sim, amigo, que a seca
e a guerra são as desgraças piores que conheço e de que ouvi
contar. Pragas do mundo. Que me diz o senhor? Muito me aprazia
ouvir relato de seu parecer, seu pensamento.
CICERO Galeno Urroz LOPES. Natural de Uruguaiana
(1944). Residente em Porto Alegre. Professor titular e
pesquisador no Centro Universitário La Salle, Canoas, RS.
Passagens profissionais: Escolas públicas estaduais e
particulares de ensino médio; Delegacia de Educação; Secretaria
Estadual de Educação; PUCRS; UFRGS. Licenciado (UCP), Mestre
(PUC-RS) e Doutor em Letras (UFRGS). Autor editado de ficção e
ensaios. Colaborador em periódicos especializados e em jornais.
Coordenador do Grupo de Pesquisa Estudos das Culturas Gaúchas.
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