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A confissão de Sarah Winfield
Tarsício Lopes
Só teria classes outra vez às duas e só passavam poucos minutos
depois das dez. À Terça-feira eu não tinha classes de arte.
Essas classes geralmente tomavam conta do dia inteiro,
principalmente as de desenho figurativo que demoravam seis
horas. As aulas de arte começavam às nove, tinham um intervalo
de uma hora para almoçar e acabavam às quatro. Na Primavera de
76 era a segunda vez que tirava uma daquelas classes, à
Segunda-feira. Quando estava sentado no “coffee shop” da
faculdade de letras, depois da minha classe de História
Americana, à minha mesa só estava eu e eu não me importava pois
que tinha de preparar umas coisas para a aula de Literatura
Romântica Inglesa.
Estava assim entretido quando alguém me interrompeu:
- May I have a seat with you?
- Be my guest.
- This winter doesn’t leave us alone!
- True… Have a cup of coffee?
- Please…
Levantei-me e preparei dois copos de café.
- One or two sugars?
- No sugar! Thank you.
Tomámos o café quase em silêncio. Sarah Winfield era uma das
alunas que andava comigo na aula de Desenho Figurativo. Ela não
era grande artista, mas era agradável, pelo menos era aquilo que
eu pensava até aquela Terça-feira, entre o período que ia da
minha aula de História à aula de Literatura Romântica.
Eu tinha que quebrar o silêncio e tentar fazer qualquer tipo de
conversação, doutra maneira o silêncio seria como o Inverno na
altura, longe estava eu pensar daquilo que estava para me
acontecer, a mim que precisava de fazer umas coisas para a minha
aula de literatura. Comecei por falar-lhe da filha. Sarah trazia
de vez em quando a filha com ela,mesmo quando por vezes servia
de modelo nas aulas de desenho figurativo.
Perguntar-lhe pela filha parecia-me portanto natural.
Falar dos filhos é um assunto que geralmente agrada às mulheres
casadas que adoram falar das virtudes e do bem-estar dos filhos,
principalmente com alguém que mais ou menos conhecem. Falar bem
dos dos filhos será assim como um pretexto para não estar
caladas. Já sei, já sei, vão-me chamar insensitivo uns, outros
vão chamar-me “estereotípico”, mas no concerto das coisas há um
grãozinho de verdade nesta afirmação. Bem, temos que descontar
os casos extremos, como o de Katherine Hepburn que diz que
detesta crianças. Ela também nunca foi casada, penso eu.
- How long have been married? – Perguntei eu assim por
perguntar.
- I’m not married.
- Oh! – Soltei eu o mais debilmente possível a minha admiração,
sentindo que tinha metido o pé num assunto delicado.
- Fiquei viúva às 11:10 da noite de 18 de Janeiro de 1973.
Lembro-me bem do dia e da hora, porque a minha vida nunca mais
foi a mesma desde essa altura... A minha vida podia definir-se
desta maneira: antes e depois dessa noite.
- I’m sorry to hear that.
- Antes dessa noite, eu pensava, depois de avaliar a vida dos
outros à minha volta, a minha vida só começaria quando me
casasse.
Sarah pensava que era gorda, ainda que, como modelo mostrasse um
belo corpo, razoavelmente modelado, mesmo para uma mulher que já
tinha tido uma criança.
Por causa desse complexo, dizia ela que tinha tido muitos
“affairs” e consequentemente muitos desapontamentos.
- A certa altura decidi parar e viver uma vida celibata. Depois
de seis meses de trabalho, dormir, comer e trabalhar, uma amiga
minha convenceu-me a ir até à “White Horse Inn”, um lugar muito
popular entre jovens em 1968. Eu tinha então 19 anos.
- Era nova...
- Imagine, tinha 19 anos e pensava que já ficava para tia!
- Compreendo...
- A minha mãe não me largava, toda a gente à minha volta, até o
meu pai...
- Entendo...
- Nessa noite, encontrei aquele que havia de ser o meu marido.
Eu não gostava lá muito dele, mas ele gostava de mim e era
homem.
O homem pediu-lhe o número de telefone e Sarah estava relutante
em envolver-se, mas depois sempre se convenceu que não tinha
nada a perder. Ele começou a chamar incessantemente.
- Mas mesmo assim eu ainda não gostava dele... Devagarinho, ele
lá conseguiu inspirar a minha confiança. Era muito agradável
comigo e acima de tudo, amava-me. Era fantástico!
Contudo, Sarah tinha dúvidas, muitas dúvidas. Muitas vezes
durante o período de noivado rezava para que tudo não passasse
de um sonho e que alguém a acordasse a tempo de a salvar daquilo
que ela pensava ser a sua ruína. Depois de dizer que sim,
imaginava que no último momento diria que não, que não podiam
casar-se. Eventualmente a lavagem ao cérebro foi total.
Imaginava toda a pompa e circunstância associada à cerimónia de
casamento, o vestido branco, as prendas, a recepção, e tudo o
mais que lhe dava volta à cabeça, fazia-a sentir-se uma
princesa, num mundo irreal mas perfeito. Casaram-se no ano
seguinte.
- Então, estávamos casados e tudo decorria muito bem. Decidi que
era tempo de ter um filho. O meu marido pensava que devia ser
muito para mim. Eu pensava que ele não tinha mas era confiança
em mim. Theodore tentava convencer-me de que era uma má ideia,
mas eu nunca lhe prestei atenção.
Theodore devia ser uma figura muito estranha, ela chamava-lhe
“psíquico” ou qualquer assim, porque já antes de se casarem
tinha-lhe dito que ela seria uma viúva jovem. Ela que não
acreditava em profecias na altura e não cedeu e convencida de
que uma criança seria boa para ambos, emprenhou. Foi uma
gravidez cheia de receios. Todas as mulheres que a viam prenhe
não paravam de lhe descrever a suas próprias tribulações
pessoais com todo o detalhe das suas aventuras de parturientes.
Isso enervava-a imenso. Por altura do seu oitavo mês achava-se
tão doente, tão enjoada todos os dias, que pensava que iria
morrer. Fez o testamento e tudo. Era como se tudo andasse mal,
pela encosta abaixo, por onde, dizem, que até os diabos
empurram.
O bebé nasceu, mas as coisas pioraram.
- Eu nunca soube o que estava errado... No dia em que a minha
filha nasceu, fartei-me de chorar. Nunca disse nada a ninguém.
Nunca ninguém soube como me sentia. Como podia eu descrever o
que sentia, se nem eu sabia?
Um tempo passou. Talvez um ano mais tarde, fechou-se na casa de
banho e sem razão aparente começou a gritar, a gritar que nunca
mais parava. O marido chamou o doutor. O doutor pensava que era
dos comprimidos que ela agora tomava contra outra gravidez.
Começou a fazer terapia para ameliorar a sua condição. Durante
uns meses andou bem. Começou a perder peso e como me disse:
- Comecei a fazer planos...
- A fazer planos para quê?
- Queria desaparecer...
- But why?
- O meu marido parou de trabalhar. As coisas começaram a
tornar-se difíceis. No verão de 72, cheguei à conclusão de que o
meu casamento com aquele homem não era para mim.
- But, Sarah, what was the problem? It seems to me that he was a
nice guy…
- Tem razão. Ele tinha-se tornado o meu melhor amigo, mas eu não
era feliz... Eu hoje sei que ele não era bem o problema. O
problema era eu. Sentia que já tinha vivido de mais e que a
minha vida tinha estagnado. Theodore estava doente e
progressivamente piorou. No Outono entrou no hospital.
Disseram-me que era cancro dos ossos e que lhe davam seis meses
de vida...
Na altura a doença fatal do marido não servia os interesses de
Sarah muito bem. Enquanto que Theodore recebia tratamento
convencional para a sua doença, ela gastava os dias no hospital
de manhã cedo com a terapia que ofereciam às famílias de doentes
com cancro. De tarde e no resto do dia, Sarah ficava sentada por
lá à beira do marido. Theodore emaciado, abatido moral e
fisicamente pela doença que progredia, perdia controlo da sua
personalidade, umas vezes parecia violento e desagradável,
outras vezes não parava de chorar sem saber porquê.
- Chegava-se o Natal e o meu marido queria à viva força voltar
para casa. Eu andava, labutava. Dia após dia não tocava comida
nenhuma. Sentia-me como se tivesse cinquenta anos e como se
tivesse perdido cem libras.
O que irritava Sarah fazia parte do seu mundo de fantasia. Ela
tinha lido “Love Story”, um romance muito popular naquela altura
em que a heroína enfrentava a morte com muita coragem e
dignidade. Ainda me lembra que no filme Ali McGrow, com aquelas
sobrancelhas cerradas que eram o ex-libris da sua beleza,
definhava, fazendo chorar a audiência, ainda que com rasgos de
mediana actriz. Theodore pelo contrário, na sua longa e
agonizante morte, chorava e gritando desesperado, pedia a Sarah
que fizesse alguma coisa por ele. Enquanto que Sarah, eu nem
acreditava no que ouvia, fartava-se de rezar para que ele
morresse. E ele morreu.
E ela continuava:
- Depois dessa noite, descobri a vida. Nunca mais fui a mesma
desde então...
Sarah sentara-se mesmo na minha frente e eu podia ver bem o
delinear daquela boca que desenhara algumas vezes. Podia mesmo
imaginar completamente aquele corpo. Mas por dentro estava a
enojar-me com aquela história triste. Quem vê caras não vê
corações e é bem certo. Estava pasmado demais para abrir a boca.
Sarah continuou:
- ... Eu tinha feito vinte e quatro anos e a minha filha tinha
dois anos e meio... Se o meu marido sobrevivesse eu
divorciava-me. Agora sou viúva!...
Sarah anunciava isso com um certo desapontamento. Para ela ser
viúva tinha-a deixado numa posição de mulher sem homem
permanente, mas não era a mesma coisa que ser divorciada, um
facto que ela acentuava com um não sei quê de amargura. Dizia
ela que quando dizia que era viúva a gente parecia que actuava
como se ela tivesse lepra, que era qualquer coisa impura. Tão
nova e já viúva! Uma vez um homem derreteu-se de amores por ela.
Ainda andaram uns tempos juntos. Quando ela lhe disse que era
viúva, começou a desculpar-se que não podia aturar a miúda, que
não podia com a filha e desapareceu. Outra vez na conversa, um
homem numa festa começou a engraçar com ela, mas quando soube
que ela era viúva, começou a dizer que ela o assustava, que ela
lhe parecia uma alma do outro mundo. Ela concordava que então
estava macilenta e abatida. E era isso, não era outra coisa, no
entanto a viuvez começou a ser quase que o seu estado de
espírito, algo que como a sua pretensa gordura a dominava e
dirigia o seu destino. Toda a gente lhe aconselhava que se
casasse depressa por causa da filha de quem tinham muita pena
por ter perdido o pai. Também manifestavam pena dela. Pobre
mulher, tão nova e já sem homem.
- Mas agora sou viúva, quando eu precisava de ser era
divorciada... Quando me sentia deprimida frequentava clubes e
encontrava gente nova, desconhecida... A conversa ia sempre
parar ao mesmo, que fazia todo dia, se era casada...
- And you, what did you tell them?
- Que era viúva, claro! - Respondeu ela com um sorriso matreiro.
- Good for you. – acrescentei eu para não estar calado.
- Era sempre quando já não podia mais, já estava chateada com a
conversa e zás: Sabia que sou viúva? Era infalível.
Ela começou deliberadamente a usar o poder da viuvez e a
desfazer-se dos pretendentes que não lhe agradavam. Dizia ela
que tinha ultrapassado a fase em que a viuvez lhe parecia uma
deficiência social, um estigma, para torna-la numa arma de acção.
E prosseguia:
- A vida é muito mais preciosa quando se vê alguém perde-la. Ser
viúva possibilitou-me frequentar a universidade. Para mim foi um
desafio que aceitei. E se quer que lhe diga, poderia ser
estudante toda a vida.
Eu só podia imaginar porquê. Os dormitórios e apartamentos de
Purchase eram misturados. O que se passava por lá de noite era
lendário.
Sarah soava mais positiva agora.
- Posso dizer, sem sombra de dúvida, que hoje sou uma mulher
diferente, uma mulher nova. O destino deu-me uma segunda
oportunidade para ser feliz, sem a vergonha de um divórcio. Sou
livre, tão livre quanto pode ser livre uma mulher no papel de
mãe solteira. As viúvas são temidas, respeitadas e basicamente,
posso dize-lo, têm quem tome conta delas. Estou agora bem
agradecida pelas oportunidades que me têm sido dadas.
- I see...I see…
- Basta, basta! Não sou só viúva ou mãe ou mulher sozinha. Sou
Sarah Winfield uma combinação das três. Tenho ido na onda, tenho
tolerado a maré, mas sabe, isto está a ficar chato. Estou farta
que tenham pena de mim. Francamente, digo-lhe, não posso trocar
a maneira como a sociedade vê as viúvas, mas posso muito bem
escolher a maneira como me vejo a mim própria.
- Bravo. That’s the right attitude! – A hora da minha próxima
classe estava a aproximar-se. Havia pouco que eu pudesse fazer
que contribuísse para a felicidade daquela mulher. Não era que
eu tivesse medo da viúva, porém, casado como era, já tinha
problemas suficientes. Ela ainda continuou:
- Theodore tratou-me tão bem como qualquer outro humano podia.
Foi sempre meu amigo e eu nunca me esquecerei disso. Morreu sem
saber que eu o ia deixar. Que alívio! Afinal ele é que me
deixou!
Quando acabamos a conversa, o meu respeito por Sarah aumentou um
pouco, todavia, fiquei sempre com a impressão de que ela, apesar
das suas últimas palavras, nunca perdoou a Theodore ter-lhe
negado a satisfação de ter sido ela a abandona-lo,
divorciando-se, mesmo agora que o seu complexo de ser gorda
começava a desaparecer. Era uma preocupação a que filha parecia
fora de questão. Valha-nos isso! Porque francamente, há gente
que nunca se contenta com aquilo que tem. Sarah não era fácil de
entender!
TARSÍCIO LOPES nascei em Portugal, vive nos EUA e é
também artista plástico.
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