a balada breve de Jou, o Mole,
e em episódios curtos e bastante repetitivos,
para se acudir à juventude

João Inácio Paiva

- intro -

Eu sou um tipo fácil. Sou ligeiro. Não tenho grandes pretensões, e é por isso que, aos 31, me acho satisfeito com o que tenho. Perguntam-me às vezes, admirados (incomodados, até) com a minha pacholice, o que é, afinal, que quero da vida. Respondo invariável e impassível: nada. Se tenho algum objectivo na vida é exclusivamente ter objectivo nenhum. Quero nada, peço coisíssima nenhuma. Se me perguntam se sou feliz, respondo imperturbável: a felicidade não existe. Basta-me o que me basta; o extraordinário é demais para mim. E é por isso, e por alguma arrelia com o destino que me calhou, que narro a estória que segue.

Chamam-me Jou. Chamo-me Jou, também, que o meu nome é para mim uma coisa indefinida e inconsequente. Sou carteiro. Vai para 12 anos que me levanto antes que o Sol nasça. Muitas vezes não durmo de todo, pelo que não me atrapalha a alvorada precoce. O que faço não me incomoda. É-me absolutamente indiferente ter 10 ou 10000 cartas para entregar. O que faço, faço sempre da mesma maneira arrítmica, o que me valeu, no trabalho, o cognome “Jou, o Mole”. Não tenho amigos, embora conheça muita gente. Questiono-me às vezes sobre se isto terá alguma coisa que ver com o facto de ser de Peniche. Não me questiono muitas vezes, sobretudo porque largo as questões a meio. Desabituei-me de pensar num mesmo assunto por períodos superiores a dois minutos.

Ocupo-me, para lá disto, no mar. Todas as tardes de todas as estações, passo-as no mar, sobre uma prancha. Dá-me amiúde para ficar por lá até à noite. Gosto do mar: o mar não tem leituras, tem marés. Tenho uma gata, que é a única fêmea que acho razoável manter. Não me lembro de sonho algum, desde que tenho lembrança. Já ouvi dizer que isto se poderá dever ao que fumo antes de deitar. Ao que tenho de fumar. De tabaco, não gosto. Tresanda e calcina os pulmões. Escolhi, aos 15, as drogas leves. E destas, elegi há tempos a merda seca de vaca sagrada da Índia. Desde então não deixo de maldizer a minha sorte.

 

- midro -

Foi num fim-de-tarde de Agosto, esse mês miserável de canícula ensurdecedora, que se abeirou de mim, na praia, um tipo de aspecto duvidoso. Barba de semana, melena escura a encobrir os olhos vidrados, pele tisnada do sol e um bizarro jogo de cores no trajar. Falou lento e firme: quieres mierda? Hispânico. Não percebi. Mierda!, insistiu. Não estou a ver. Mierda!, puta madre! Não sou de levantar ondas e não estava para sair a correr; descansava na areia morna de três horas de mar. Alinhei. É da boa? Lo mejor que alguna ves te ha pasado a Gibraltar. Estendeu-me uma dose. Ganza. Merda seca de vaca sagrada da Índia. A ambrósia de sultões e faquires. Paguei e arrecadei. Ia a pedir-lhe posologia, virei-me e já não o encontrei. Como tivesse um interruptor, o tipo apagou-se. Palpei a areia onde se tinha sentado, não fosse achar-me em terreno movediço. Nada. Andava a químicos na altura, pelo que não estranhei o episódio. Peguei a trouxa e fiz-me ao caminho.

Cheguei a casa, pus-me em cuecas e pendurei a farda num cabide, como todos os dias. Não tenho outra roupa, e isso agrada-me. Dez segundos são o bastante para a escolha da indumentária: ou meia manga ou manga comprida. Gosto do cinzento e vermelho assim arranjado para o carteiro pela Ana Salazar. Não me queixo. Peguei uma maçã, que me tinha acabado o dentífrico e o estômago ronronava. Pus a chaleira ao lume para fazer chá de umas ervas que trouxe dos Cucos. Ainda não sei o nome dessas ervas, mas são muito aromáticas e óptimas para rematar o dia. Não gosto de Martini. Sentei-me na cadeira de verga que passo para a varanda no Verão. A noite instalava-se e nem uma brisa, ligeira que fosse. Peguei o saquinho da merda e o enrolador e preparei-me um cigarro. O dia ia longo, esgotara-me. Precisava dormir. Desenrolei uma esteira e estendi-me logo ali, sobre a tijoleira. Findavam os entretantos. O céu era uma coberta azul-sujo comida das traças. Acendi o cigarro de merda. O hispânico não me enganara. Era deliciosa, muito perfumada, macia. Magnífica. Amolecia. As persianas fechavam-se-me. Dormi.

Acordei dali a pouco, talvez nem duas horas depois. Estava recomposto. Achei a boca fresca e isso satisfez-me. Levantei-me e fui fazer café, para empurrar umas bolas de Berlim que eu mesmo fizera no Domingo anterior. Os olhos ainda faziam por desembaraçar-se das remelas, e foi assim que falhei a bancada ao pousar a cafeteira de água fervente. A cafeteira caía, mas a coisa desenrolava-se lenta, como se a visse num filme, fotograma a fotograma, com dois segundos de separador. Deu-me para tudo. Assustei-me - e ainda me queimaram uns fios de água -, praguejei e insurgi-me. Sem lhe tocar, de mão aberta e braço estendido, como vi no cinema, disse à cafeteira não. Ela parou. Disse e ela retomou a queda. Não! Estacou novamente. Puxei-a de volta à bancada ainda sem lhe mexer. Sentei-me. Percebi que havia encetado um calvário qualquer. Os meus dias pacatos de carteiro rural extinguiam-se ali.

 

- outro -

Isto é muito simples, meu amigo: a droga inibe-lhe o cepticismo - anula-lhe a capacidade de duvidar; é daí que lhe vêm os superpoderes, como lhes chama. O senhor doutor da mula ruça - uma 4L velhinha maquilhada para os ralis -, piloto de fim-de-semana e meu médico de família. Não dormira para conseguir a consulta manhã cedo e levava os nervos em franja, que a malfadada merda seca de vaca sagrada da Índia virara-me o quotidiano de pantanas, pelo que não me sobejava paciência para filosofias de algibeira: doutor. Não dormi para conseguir a consulta manhã cedo e trago os nervos em franja, que a malfadada merda seca de vaca sagrada da Índia virou-me o quotidiano de pantanas, pelo que não me sobeja paciência para filosofias de algibeira. Jou, meu amigo, a coisa vai como lhe digo: o corpo, trá-lo impecável; é a mente, formidável! Agora falava-me em quadra de rima empobrecida. Perdi as estribeiras. Sem mover um cabelo, sentado na cadeira de paciente, mas pouco, e olhando-o nos olhos, arranquei-lhe o estetoscópio do pescoço e enterrei-lho fundo ouvidos adentro. Apertei-lhe as hastes de tal modo que o metal lhe comprimia violentamente as bochechas. Gemia e balbuciava em verso, o doutor, tentando livrar-se, aflito, da mandíbula refulgente. Eu sou um tipo fácil, doutor. Sou ligeiro. Não tenho grandes pretensões, e era por isso que, aos 31, me achava satisfeito com o que tinha. O que quero dizer é que não tenho vocação para super-herói, entende, doutor? Retomemos portanto a rima branca e o léxico clínico. Libertei-o do colar. Recobrou o fôlego. Jou!... Seja razoável, por Deus! Pense comigo: está de perfeita saúde, como sempre, de resto; diz ter fumado a tal droga uma só vez; diz ter preparado um cigarro dela a uma velhinha sua cliente, que o fumou e não padece dos mesmos sintomas; Jou, você é o Escolhido! É o Tal! Do caos renascerá a ordem, e por sua acção! Caos? Mas qual caos? Como se o bastante não bastasse. O doutor da mula ruça sugeria-me uma consciência política. Passava das marcas. Agarrei um daqueles pauzinhos com que nos empurram a língua para espreitar a garganta, desembrulhei-o e larguei-o. Direitinho à goela do doutorzeco, bem entalado a meio caminho, para que não lhe fosse possível engoli-lo nem cuspi-lo. Caos, doutor? Mas qual caos? Basta-me o que me basta; o extraordinário é demais para mim. Não quero saber de políticas, doutor. Não há efeito sem causa; de resto, tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos possíveis. Permiti que se desembaraçasse do pauzinho. Tossia, mal recomposto: a filosofia panglossiana!... Meu bom amigo, seja razoável! Pois não é precisamente Pangloss quem ensina que o que existe não pode ser diferente, porque, tendo tudo sido criado para um fim, tudo é necessariamente para o melhor dos fins? Desarmou-me. Pus-me em convulsões, aterrorizado pela argumentação do doutor. Desmaiei. Do caos renascerá a ordem, por minha acção. É o meu fim. Sou Jou, o Mole, carteiro e super-herói.

 

- o Oráculo -

Era uma manhã sorna de Outono, um vale promocional de sol morno que vinha com as chuvadas da semana. Despachara cedo o giro, ainda que procurasse deixar na cama, quando saía para o trabalho, os superpoderes da minha nova condição. De papo para o ar na areia fresca, o mar recolhia a rebentação, dezenas de gaivotas inchadas de calanzice guardando-me o sossego. Os bombeiros soavam o meio do dia, e a praia ainda por minha conta e dos bichos. Estava como um painel de energia solar, a luz desenxabida repondo e acumulando-me paciência. Andava numa lufa-lufa desde a assunção do meu fado extraordinário. Tomara posse da imposta heroicidade findava o estio e não me largavam da mão. Sabia bem que era de pouca dura o remanso daquele sol outonal.

Jou! Jou! Abre a pestana, pá! A primeira do DN é por tua conta! Só deixaram um cantinho para mostrar o ar apalermado do nosso Primeiro posto com dono! Tás a ouvir ou quê, Jou? Puxei da nuca uma das mãos para proteger os farolins e acendi o direito, contrariado e frouxo. Era o Vaz, um tipo enfezado, comido dos nervos que trazia sempre à mão de semear, meu colega de ofício e o que mais alarde fazia de ser “amigo” do super-herói. Por aqueles dias a imprensa sanguessugava-me as ideias, esquadrinhando-me o quotidiano, inventando-me um passado. Andava meio descolorado dos flashes ávidos daquela gente faminta de aberrações. Vinha de baixo, a histeria: o Jornal da Região jogara-me ao circo. 24 Horas, Correio da Manhã, A Capital e agora o Diário de Notícias. Entrevista larguíssima e maçuda, que não tinha que dizer e irritava-me aquele frenesim em meu redor. Ademais não fizera até então que se visse, para lá das benfeitorias imberbes do herói noviço. Mas lá ia permitindo que me colhessem, as investidas dos jornaleiros, que era herói contrafeito mas assumido e à vista.

Tás a ouvir ou quê, Jou? Os tipos chamam-te o Encoberto! «Do caos renascerá a ordem, por sua acção.» As parangonas, Jou, a primeira página, homem! Sentou-se - já as gaivotas haviam desinchado e debandado - e pôs-se folheando o jornal cuspindo bitates. E a páginas tantas do fim do maço de papel rugoso, caiu-lhe na expressão uma carranca e calou-se. Deixou-se estar um bocado, parecia pasmado com a leitura. Largou o diário e acendeu-se um cigarro tremelicante. Jou. Um tipo de duzentos anos e que viaja pelos tempos, chamado Lorlei, diz aqui que foi ao ano que vem. O nosso Primeiro e o da Defesa vão ensandecer à conta da dissolução da Assembleia da República. O tal Lorlei diz que para o ano, por esta altura, não haverá nestes oitenta e nove mil quilómetros quadrados senão carvão e indivíduos de cabeleira farta e gravata azul-limpinho atada à Full Windsor capitalista. Bonito. Era só o que me faltava.

 

- Napes, Lotas e os oupãespeices -

Um Earl Grey fervente e denso, temperado de leite, um farrapinho, e de açúcar, não mais que um polegar. Era o meu xarope para a acalmia, naqueles tempos de rodilha. Andava uma pilha, obrigado ao estudo com detalhe do enredo político de então, a ver se achava a ponta à meada e aferia o rigor da profecia do tal Lorlei, um tipo de duzentos anos que viajava pelos tempos e escrevia para o DN Jovem, apesar da idade. Que para o ano, por esta altura, não haveria nestes oitenta e nove mil quilómetros quadrados senão carvão e indivíduos de cabeleira farta e gravata azul-limpinho atada à Full Windsor capitalista. Como se o bastante não bastasse. Política. Bonito serviço.

Comecei lendo, de modo aturado, tudo que narrasse as estórias fantásticas de toda a sorte de super-heróis. Cedo entendi que era de excepção, a minha sorte. Não havia história de confronto com coisa tão vil e insidiosa, tão inelutável e escorregadia, tão desalmada e atomizada, e ainda assim com tantas caras e máscaras e personas distintas, como o poder político. Fosse. E adiante. Larguei-me aos calhamaços da ciência do governo das nações e da história contemporânea do país, e passei a seguir, com pasmo e horror, tudo que contasse da situação política que estava. Queria saber o que houvesse, para dispor na tijoleira enregelada do meu T1 as entranhas dessa gente e entender, afinal, a natureza do seu combustível. E quanto mais sabia mais inflava aos meus olhos aquele Golias terrível que era a minha tarefa.

Nada daquilo fazia sentido. Os factos eram barro nas mãos sabidas daqueles oleiros da intrujice e fato bem posto, a verdade como uma carteira de fósforos para cigarro: esfarela-se a cabeça a uns, outros quebram-se, alguns acendem e ardem-se velozes. Não havia que se deixasse ao acaso. Era tudo pensado, arranjado, ensaiado e orquestrado por hordas de teorizadores e marquetingueiros, quase todos sem nome nem rosto, como duendes de fato escuro labutando noite e dia, consumando uma hipnose colectiva qualquer que os tinha ali, nos oupãespeices, entregues à montagem dos chous do líder, como não houvesse porquê nem amanhã. Nada daquilo fazia sentido. Era tudo plástico, postiço, como não fosse gente, como tivessem um interruptor. Pior é que existia há muito um contrapoder, que só formalmente e na aparência contrapodia. De resto, era o mesmo batalhão de gravatas mal atadas e interesse calado.

O Vaz, meu colega de ofício e o que mais alarde fazia de ser “amigo” do super-herói, lera do Diário de Notícias que haveriam de ser o nosso Primeiro e o da Defesa a carbonizar-nos o futuro. Napes e Lotas. Tremia, sussurrando os nomes entre tragos de Earl Grey fervente e denso, temperado de leite, um farrapinho, e de açúcar, não mais que um polegar. Napes e Lotas. Isto era tudo muito para lá do meu entendimento. Napes e Lotas. Se me apanhasse num oupãespeice, talvez. Faltava-me um fato. E uma gravata azul-limpinho.

 

- o Mole recarregado -

Havia cinco dias de ano novinho a estrear sem novidade. Havia cinco dias que considerava alternativas, como quem joga paciências. A ligeireza do meu carácter aleijava-me as ideias: descobrira desconhecer o mundo até então. E o mundo revelou-se-me todo, num repente, muito para lá do meu entendimento. Descobrira desconhecer até então a podridão sôfrega deste mundo fétido. Aliás, havia uns dias largos que me cheirava a merda por toda a parte. Isso não é o mundo, meu amigo, é uma crise intestinal à antiga. Já se sabe, chegam as festas e a boquinha esquece-se de ser amiga. Cuidadinho com a rima empobrecida, doutor. Olhe que os meus nervos… Caíra numa angústia sem fundo, pelo que nunca mais acabava de cair. Descobrira desconhecer até então que a Humanidade tinha os dias contados. Pois claro que tem os dias contados! Eu não lhe disse já que do caos renascerá a ordem, por sua acção? Doutor. Há cinco dias que considero alternativas, como quem joga paciências. E então? Chega a arrumar os naipes? Naipes, doutor? Só tenho duas cartas. E vou tomar uma atitude.

A coisa afinal era simples. Ou fazia como via fazer, para ganhar destaque lorleico, ou mandava à fava os choradinhos e as verdades de lapa Alice atafulhadas em criptas textuais, e fazia o que era meu de fazer. De maneiras que acabei de cair e levantei-me.

Comprei um fato preto, liso, como a gravata. A camisa era vermelha, de colarinho generoso. O verniz pontiagudo dos sapatos pretos reluzia como o meu escalpe, que mandara escanhoar. Pasta de pele sinteticamente preta na direita, cigarro mesclado de tabaco, cacau e açúcares na esquerda - metera-me nestes havia cinco dias -, saí para Lisboa. A pré-campanha eleitoral estava por dias, tinha de me pôr a mexer se queria misturar-me com as gentes do Napes. Que a alternativa era juntar-me às gentes do Zetes, o contrapotente formal que nada contrapodia e era da laia do outro. Não. Não era alternativa. Aquilo era apanhar-me num oupãespeice e fazer como via fazer, para ganhar destaque napista.

Jou? É o Che. Onde é que você anda, homem, que são 7 da manhã e ainda não se apresentou ao serviço? Andei considerando alternativas como quem joga paciências, e agora estou em supertrabalhos. E que é que vai? Assistência à família? Nem mais. Obrigadinho.

Fora num quiosque de Internet, nos Correios de Peniche, que me alistara no Partido, havia cinco dias de ano novinho a estrear sem novidade. Manhã cedo, ao sexto dia, fazia retinir a sineta do oupãespeice-general, barbeado e impecável. Abriu-se uma tirinha de metal, ali por alturas do meu Full Windsor, no grande portão laranja-ferrujento. Por detrás da tirinha, uns farolins miúdos de fuinha ligavam os máximos, em frente, depois para cima, à vista do meu colarinho vermelho-generoso. Faz favor. Sou militante. E a senha? A senha? A senha está no sítio virtual do Partido. Amadores. «Não deixe que os terríveis agentes RosaOids da Corrupção e do Clientelismo dêem cabo do universo.» O grande portão laranja-ferrujento abriu-se lento, uivando agonia. Entrei. Um jardim tenebroso de ciprestes e chorões guardava o palacete faustoso. O portão fechou-se-me nas costas e o uivo agoniado instalou-se-me nos miolos, como um augúrio final. Cinco dias considerando alternativas como quem joga paciências. Paciência. Já não havia volta a dar.

 

- recordações da casa laranja -

- Jou.

- Deve ser engano.

- Nunca me engano. És o Mole, sim senhor, que raramente tenho dúvidas.

- Deixe lá. Qualquer um se pode enganar, lá dizia o ouriço-cacheiro, descendo da escova dos sapatos.

- Isso não era o João de Deus?

- Também. O dos filmes.

Pausa. O tipo tira-me o resto das medidas.

- És o Encoberto, pois.

- Não senhor, sou militante e um simples carteiro rural.

- De Peniche.

- Por acaso.

Pausa. Agora é que foi. O tipo inclina-se-me como um girassol e baixa o volume.

- Deixa-te de merdas, Mole, que eu cá leio do DN. Vens de lunetas grossas a abreviar-te os farolins e de escalpe escanhoado, mas comigo ninguém faz farinha.

Lá isso. Malvadas lunetas, que desde que me instalara no oupãespeice-general do Partido não via coisa com coisa.

- Há que tempos que te espero.

- Andei considerando alternativas.

- Como quem joga paciências?

- Pode ser.

- Leste as profecias?

- Foi.

Pausa, que ele há coisas.

- Lorlei?...

- É nome artístico, para ganhar destaque.

- E a lapa Alice das criptas textuais?

- Há que condescender. A vida não está fácil para ninguém.

- Ui.

- Chamam-me Cova. Chamo-me Cova, também, que o meu nome é para mim uma coisa indefinida e inconsequente.

- Tem graça.

- Lá isso.

Pausa. Isto vai.

- E se for o Mole?

- Que é que tem?

- Que é que passa?

- Papinha feita.

- Ai sim?

- A vida não está fácil para ninguém. Há que tempos que te espero.

- E então?

- Estás a ver a gota de água?

A gota de água? Mas qual gota de água? Este tipo parecia um tâperuere. Estive para perder a compostura, que me enfadava o discurso hermético e às tantas ninguém achava a ponta à meada. Mas não.

- Mas qual gota de água?

- O discurso hermético da incubadora e das estaladas e pontapés no bebé, foda-se!

- Temos tento na linguazinha ou amarfanho-te como a papel de alumínio?

Pausa. O tipo amarelece.

- Sê razoável, por Deus e os trezentos traques de Júpiter.

- Isso não era o Rei Ubu?

- Também. O da Comuna.

- Mas que é que tem o discurso hermético da incubadora e das estaladas e pontapés no bebé, foda-se?

- Então isso é assim?

- Amarfanho-te como a papel de alumínio?

Pausa. O tipo alaranja.

- Sou assessor de imprensa do Napes. Escrevi o discurso hermético da incubadora e das estaladas e pontapés no bebé, foda-se, e meti-lho à socapa entre as notas.

Pausa. Avermelho.

- Papinha feita.

- A vida não está fácil para ninguém. Vai, e dá-lhes trabalho.

- Isso não era o Lívio?

- Também. Para o João de Deus.

- Serás o meu Lívio.

- Fica assim.

 

- as paixões de Napes -

A campanha para a pré-campanha da campanha começara havia uns dias. O Napes e o Zetes, mortinhos por ferrar o dente na carne eleitoral, cavalgavam a égua doida e estavam por toda a parte. As gentes dum e doutro encetavam a troca de galhardetes, à laia de preliminares, que é como se faz nas jogatanas de bola e no sexo, que era coisa, de resto, que havia muito não fazia passar pelo estreito do femeaço. Ouve cá, isso não era o - era, era. O Lotas tinha-se calmo, fazia por não levantar grandes ondas, esse gajo é carta fora do baralho, arrumamos o Napes, arrumamos o Lotas. Sim senhor. Até se falava em dérbi eleitoral. Por alturas dessas já eu estava farto de saber que era a comunicação social que distribuía jogo. E as cartas pobres não iam à mesa, pois claro. O Lívio Cova andava na lufa-lufa, pois claro, que era assessor de imprensa do Napes e não o largavam da mão. Era um tipo cheio de graça, o Cova. Sempre muito bem posto, melena armada de laca, como um barrete que enfiasse à saída da cama, espumava da verborreia pelos cotovelos da boca lacónica e caminhava veloz e firme, fazendo esvoaçar os recortes de jornal que lhe atafulhavam os bolsos.

E cá o super-herói era encarregue de envelopar propaganda, pelo que trazia a língua numa miséria, que nem para todas as modernices havia dinheirinho. Chegava a lamber às doze horas duma vezada. Não me apoquentava, que tudo ia pelo melhor no melhor dos mundos possíveis: as lunetas grossas a abreviar-me os farolins e o escalpe escanhoado guardavam-me a identidade, e ademais tinha papinha feita. E foi num certo dia de sol invernoso que, necessitado de papinha da boa, a ver se descolava a língua do palato, o Cova me levou ao Tavares Rico, onde lhe faziam fiado e tratavam nas palminhas, e revelou, enfim, o desenlace possível.

Era um fartote de como tem passados, faz favores, ora essas e que é que vai hoje senhor professores.

- Ora vamos cá ver. Subtilezas de bacalhau cru, temperado com perfumes daqui e dali, azeitonas verdes picantes, tomate confeito em azeite e manjericão. Marcha?

Perfumes daqui e dali? Cozinha de meias tintas. Fosse. Ia bem com as entradas políticas.

- Marcha?

- Vamos lá ver.

- Um Martinizinho para enganar?

- Disse o que tinha a dizer. Azeitoninhas besuntadas de mel, e e.

Pausa. Besunto de mel as azeitoninhas. Olha que primor.

- Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto.

- Isso não era o…

- Era, era.

Olha que Carvalho.

- Sabes, Jou, o Napes é um tipo apaixonado.

- E onde é que cai a conversa?

- Cai-lhe na fraqueza.

- Caiu-te bem, esta.

- Foi.

Pausa. Olha que chatice.

- Pareces um tâperuere. Estou para perder a compostura, que me enfada o discurso hermético e às tantas ninguém acha a ponta à meada.

- Não se fala mais nisso.

- Por falar nisso, por que é que não se tem uma conversazinha que se entenda?

- É por causa do sainete.

Pausa. Respiro para as fundezas.

- E os efectivamentes?

- Pois. Sabes, Jou, o Napes é um tipo apaixonado.

- Pois. Cai-lhe na fraqueza.

- Pois. O que quero dizer é que é pela boca que o peixe morre.

- Isso bem explicadinho.

- O que quero dizer é que o Napes alimenta duas paixões fervorosas: o Napes, ele próprio, e o femeaço.

- Ouve cá, isso não era o Jóni?

- Também. Se o mundo não fosse assim. Também não ajudas.

- Adiante.

- Revelo, enfim, o desenlace possível.

Pausa. Vai uma sorvedela de tinto com notas de especiarias.

- O que quero dizer é que a única coisa capaz de distrair o Napes do seu umbigo e desencaminhá-lo é uma mulher. Ele não há coisa melhor.

- Bem vejo… Era tê-lo apaixonado e eia!, a toque de caixa… Cenouras a burros.

- Pérolas a porcos.

- Fica assim.

 

- revoluções -

Andava de pulga atrás da orelha. A estória ia pouco consistente e já me fedia. Andava fedido, é como é, que aquilo nem bota com perdigota nem casa com botão, e ultralevures à mão-cheia que nada de cozer em tocos os restos de bolo alimentar. Era um fedor que não se podia. Ora o Oráculo vinha a ser o Lorlei, que vinha a ser nome artístico para ganhar destaque ao Lívio Cova. Brincamos. Que o Napes e o Lotas haviam de ensandecer e etecétera e dali a um ano é que havia de ser o bom e o bonito. Mas que entretanto o Lotas já não, que era carta fora do baralho, e eu que sim senhor, que até se fala em dérbi eleitoral. E que no fim de contas fica assim ao quadrado, que ele não há melhor que o femeaço para distrair o Napes do seu umbigo e desencaminhá-lo, que cenouras a porcos e pérolas a burros, dê-se as voltas que queiram está o país cumprido. E no fim de contas venho eu de tão longe numa carreira que sabe Deus, para me deixar tomar de enfados herméticos e perder a ponta à meada, um tipo fácil que é ligeiro de tão longe que sabe Deus onde isso me ficou, eu que venho de tão longe para que o caos parisse a ordem e o que se vê é a montanha parindo um rato. Ele nem superpoderes nem paciências nem mais considerandos, que a estória no fim de contas é uma merda, que o que este país quer é gente séria e isso não vai lá com mandíbulas refulgentes a juntar as bochechas dos senhores doutores.

Tinha de me recompor. Eu sou um tipo fácil, sou ligeiro. Eu sou um tipo fácil, sou ligeiro. Eu sou um tipo fácil, sou ligeiro e tinha de me recompor. No fim de contas estava a um episódio de voltar ao meu ramerrame e a coisa não havia de ficar assim, que às tantas nem sim nem sopas e isso já não me podia ser.

- Isto já não me pode ser.

- Fica assim.

- Não há-de ficar assim, macacos me mordam.

- Sê razoável, por Deus e os trezentos traques do Rei Ubu.

- Brincamos.

- Amarfanhas-me como a papel de alumínio, queres ver?

- Cuidadinho com a estória empobrecida, Cova. Olha que os meus nervos…

- Repete-te quanto queiras, Jou. És um tipo fácil e vieste ligeiro meter-te na boca do lobo.

- Mas -

- Não há desenlace possível. O Napes não é vilão para ninguém. É comigo que tens de te haver.

- Mas -

- Era, era. O tipo que já foi Primeiro de maioria absoluta ao quadrado e falhou a presidência. Mas desta não me escapa.

- Então mas -

- Daqui só sais de sobretudo, e na horizontal.

- Olha que carvalho.

- Pode ser. Acabou-se.

Estava possesso com o logro e a ligeireza do meu carácter. Saltei para cima da propaganda por lamber e, duma vezada, arranquei a indumentária militante que me guardava o cinzento e vermelho arranjado para o carteiro pela Ana Salazar. É um róquer!, é um carteiro!, é o Mole! Pôs-se tudo em debandada, quais gaivotas desinchadas, que isto quem tem cu tem medo. Estava bom de ver que a comédia ia dar para o torto.

 

- a comédia é um lugar estranho e dá para o torto -

- Sê razoável, Mole, por Deus e os teus trezentos traques.

- Ai já deste por ela?

- É um fedor que não se pode.

- Tanto dá. Estou possesso com o logro e a ligeireza do meu carácter.

- A comédia vai dar para o torto. Não podes vencer-me.

- Vamos lá ver.

Estava pior que estragado, que no fim de contas a estória era uma merda e inconsequente. Não fosse a ligeireza do meu carácter e ter-me-ia apercebido que nem Napes nem Lotas, aquilo são vilões para ninguém, e acontecia, de facto, uma tramóia à antiga para me lixar com efes e tudo, e eu que vim de tão longe que sabe Deus meter-me ligeiro na boca do lobo. É estúpido! É estúpido e é urso! Ó Lívio da mula ruça, macacos me mordam se isto fica assim. Levas-me com os superpoderes e no fim de contas é o bom e o bonito.

Sem mover um cabelo, de pé na propaganda por lamber, mas pouco, e olhando-o nos olhos, tentei apertar-lhe apertadinho o Full Windsor da gravata azul-limpinho. Nada. Que raio. E outra vez. E nada.

- Mas -

- Não podes vencer-me. A estória é uma merda mas deu para reabilitar-te a capacidade de duvidar.

- Mas -

- Mas virou-se a cabeça ao prego. Isto não é para quem pode, é para quem quer.

- Então mas -

- Acabou-se.

E nisto o Cova esfrega um olho e eu vejo-me arremessado à parede nas minhas costas, com tais desumanidade e força que ui as minhas cruzes.

- Ui as minhas cruzes. Então mas -

- Não foi por falta de aviso, Mole. Ainda não há três episódios te disse que raramente tenho dúvidas; é daí que me vêm os superpoderes, como lhes chamas.

- Que raio -

E nisto o Cova esfrega um olho e eu vejo-me arremessado para o jardim tenebroso de ciprestes e chorões pela janela do oupãespeice que para lá dá e parti pelo caminho, que ui as minhas cruzes. Estando eu sacudindo-me dos vidrinhos, lá volta o Cova à carga, de mãos nos bolsos e risinho de bruxa.

- Que desumanidade e força.

- Daqui só sais de sobretudo, e na horizontal.

E nisto o Cova esfrega um olho e eu vejo-me arremessado de encontro à laranjeira, que é a única, com tais desumanidade e força que ui o escalpe escanhoado, cai-me o laranjame em cima.

- Só arremessas, só arremessas.

- Amarfanho-te como a papel de alumínio?

- Quero ver isso e que olho esfregas agora.

E nisto o Cova esfrega as mãozinhas de contente e eu vejo-me amarfanhado como o papel de alumínio e o laranjame, e aquilo é uma tal javardice que já me custa respirar e o que vai é o suco laranja-redondo pela goela abaixo, pelo que é aflitinho que balbucio

- Ó Cova… Sê… razoá… vel…

- Isto assim nem tem piada.

E ele então vai e desamarfanha-me, e eu cuspo o suco laranja-redondo que sai avermelhado entre tossidelas, e estou tão fulo que já nem me lembro que duvido, e tão piurso fiquei com os arremessos e o amarfanhanço que toma vai buscar que aqui vai disto. Uma laranja sai disparada do laranjame, direitinha à boca lacónica do meu antagonista, com tais desumanidade e força que gadunfas, fica o Cova como porco rosa-capitalista acabadinho de sair do forno. E cospe-a com dificuldade para retorquir

- Isso do gadunfas não era -

E gadunfas, a laranja outra vez a rolhá-lo, que

- Está mas é caladinho.

E eu vai daí arremesso-o a um chorão, e salta-lhe a rolha e a laca, e aperto-o apertadinho ao tronco gordo com as braçadas da árvore choramingas, e ele vai e desata na choraminguice.

- Ui as minhas cruzes.

- Que a estória era uma merda e o vilão era invencível, não era?

- Eu só queria ser Presidente…

- E vai-se a ver no fim de contas, isto é uma estória sem moral.

- Mas ó Jou -

- Está mas é caladinho. Eu que venho de tão longe para que o caos parisse a ordem e o que se vê é a montanha parindo um rato.

- Mas ao menos pára com as repetições!

- Está caladinho, já disse, que isto está para acabar. E mais te digo que te desenmerdes, e Napes e Lotas e Zetes, que o que este país quer é gente séria e isso não vai lá com mandíbulas refulgentes a juntar as bochechas dos senhores doutores.

- Lá isso.

E vim-me embora para Peniche, que comigo ninguém faz farinha, e hoje sou presidente de câmara e é por isso que tenho tempo para narrar baboseiras, estas e outras que me aprouverem, que isto ou há moralidade ou papam todos do dinheirinho das velhas. Acabou-se.

JOÃO INÁCIO PAIVA Nasci em 1978 na fábrica de lisboetas de São Sebastião da Pedreira. Notei-me sempre um apelo velado das coisas da arte, o que quer que isso seja não me interessa por aí além, que fui engordando às escondidas como quem aleita um gatinho que se não pode ter. E ele há um ano, mais coisa menos coisa, que me desavergonhei e mandei às malvas o empregozinho em empresa meio pública meio privada, é conforme se lhes arrima, para assumir na praça, alto e a bom som lá chegaremos, a minha sexualidade literária. Não publiquei nada, é pena mas não chega a ser dramático, temos tempo, descontando, como devo, os excertos duma estória um bocado alarve estampados no DN Jovem, que foi suplemento que já deu uvas, poucas e de que se fez daquele carrascão do piorio, mas deu. Escrevi uma peça de teatro, a que chamei com grande presunção A Árvore Das Pipocas, que julgava ter conseguido impingir à Companhia de Teatro de Braga ― a única que me respondeu ao quilo de imeiles ―, mas agora o director parece que não me fala. É pena, porque qualquer dia não tenho sequer para um moscatelzito e isto há que ir adocicando as ideias. Mais me quer parecer que assim não vou muito longe, que em Portugal apreciamos sobremaneira a coitadinhice e eu para esse peditório não dou. Paciência. Temos tempo, haja saudinha.