Última faixa de areia antes do mar

Olavo Amaral

Encontrou a concha no chão, trazida por uma onda mais forte, ao lado de um pedaço de madeira quase podre. Não era como as outras, logo percebeu. “Essa tem caranguejo”, pensou. Desde criança era insuperável em achar o ermitão escondido. Esticou o braço e apanhou-a.

– Não põe a mão nessa água suja – disse Lívia, deitada ao seu lado.

Não deu ouvidos ao conselho. “Não é suja, é só escura”, pensou sem responder.

Segurou o caramujo, uma casca redonda e avermelhada que traçava uma bonita espiral. Pensou em mostrar a Lívia, mas desistiu ao ver que ela permanecia estirada na areia, o ventre crescido entregue ao céu azul. Quanto a ele, o desconforto começava a pesar: a ardência do sol ganhava suas faces e ele sentia as gotas de suor se acumularem em suas sobrancelhas.

Não sabia quanto tempo mais ia agüentar na costa. Já fazia semanas que o tempo não mudava, o calor era insuportável, mas Lívia insistia nos banhos de sol diários. Ajudaria o bebê a nascer forte, dizia ela. Quanto ao mar, tinha sido interditado a ambos por causa das algas marrons que tinham surgido na água: vai que elas lhes trouxessem alguma doença, o que ia ser então do filho?

Mas ainda tinha confiança em sua capacidade de achar o caranguejo, se procurasse bem fundo. Catou um pauzinho no chão e começou a enfiá-lo concha adentro. Depois da primeira estocada, esperou pra ver se o bicho saía. Nada. Estranho, uma concha bonita e redonda daquelas sem caranguejo dentro.

– O que é que tu tá fazendo?

– Procurando um caranguejo-ermitão.

– Um caranguejo-quê?

Seis meses morando naquele lugar e Lívia não havia aprendido ainda. Mas a mudança do clima já se sentia há tempos. Logo que haviam chegado, as chuvas e os caranguejos ainda eram fartos. Desde o início de setembro, porém, o sol se tornava cada dia mais forte, o corpo amolecia ao menor movimento. E o esforço era cada vez maior.

Colocou o graveto de novo dentro do caramujo. Dessa vez empurrou forte, novamente sem encontrar o ermitão. Foi entrando cada vez mais, até sentir que arranhava o fundo da concha, mas nada havia além da casca. Nem sequer uma lesma.

– Esse calor tá me matando, será que não dá pra gente ir?

Olhou pra Lívia com ar de súplica enquanto perguntava. Mas ela permanecia imóvel. Parecia feliz sob o sol.

Baixou a cabeça e acariciou a areia. Mais conchas ao alcance da mão. Pensou em buscar outra, mas sentiu o cansaço se apoderar do corpo. O suor acumulado nas sobrancelhas correu de repente pelas pálpebras, recobrindo-as com um véu morno e espesso. Deixou-se cair sem oferecer resistência, e sentiu alívio quando a areia úmida tocou o lado esquerdo do rosto. Deitado, olhou pra além-mar e achou que divisava uma nuvem. Quem sabe do outro lado?

Fechou os olhos e escutou o barulho das ondas. Fazia tempo. E falta. Depois escutou a voz de Lívia:

– Não chega tão perto da beira. Essa areia molhada vai acabar deixando ele doente. – E, sem abrir os olhos, enxergou-a acariciando a própria barriga, com o olhar fixo na proeminência que já alcançava a linha do umbigo.

Foi então que tudo vacilou. O mar trouxe um sopro espesso e ardente. Pareceu-lhe que o céu se abria em toda sua extensão, deixando chover fogo. Todo seu ser se retesou, e ele crispou a mão contra a concha.

O caramujo despedaçou-se com um ruído quase imperceptível, e ele sentiu os fragmentos arranhando os dedos. Sacudiu o suor e o sol, e compreendeu que destruíra o equilíbrio do dia, o silêncio excepcional de uma praia onde havia sido feliz.

Levantou-se e fitou Lívia com um olhar já estrangeiro. Abriu a mão, deixando os caquinhos caírem. E com um grande bocejo de quem, cansado do dia, sabe que finalmente vai dormir, deu as costas pra ela, pro sol, pros pedaços de concha espalhados na areia. Viu a nuvem do outro lado chover caranguejos. Tirou a roupa e pulou a primeira onda.

O estrangeiro, de Albert Camus, é uma das maiores obras literárias do século XX.

OLAVO AMARAL
nasceu em Porto Alegre em 1979. É autor de Estática (IEL, 2005).