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o doce vermelho das
beterrabas
João Batista Ferreira
Meus dentes estão vermelhos das beterrabas que acabei de comer.
Gosto de comê-las todas as manhãs, na hora do café.
- Nosso vizinho vai soltar mais um balão negro - meu irmão vem
avisar, correndo.
Todas as manhãs, acontece assim: meu irmão fica observando o
vizinho e avisa quando ele solta seus balões. Algumas pessoas
estranham, meu irmão adora.
Minha irmã está na mesa, comigo. Perdeu o sono. Contou
carneirinhos a noite toda.
- Carneirinhos? - pergunto, desinteressado.
- É. Contei quase trinta mil.
- E adormeceu?
- Não. Amanheceu - ela tenta sorrir. O olhar escuro de quem
ficou muito tempo acordada.
- Eram todos tão brancos - diz, acompanhando uma formiga perdida
na toalha da mesa.
Mastigo outra beterraba. Mais doce do que a anterior.
Meu irmão grita da janela.
Nosso pai geme no seu quarto. Ficou assim desde que foi
assaltado na rua. Encostaram uma faca no pescoço dele. Não sai
da cama faz três dias. Descobriu que pode morrer, imagino.
Sempre acompanhou com interesse a morte de familiares e
conhecidos. Ou então é a saudade de nossa mãe que bateu de novo.
Nossa mãe morou nesta casa. Ela foi embora há quatro anos. Um
dia ficou muito nervosa e arrancou os cabelos. Não gritou, como
disseram os vizinhos maldosos. Apenas arrancou alguns cabelos,
que ficaram espalhados pela sala.
Lembro de ouvi-la repetir diante do espelho, quase todos os
dias:
- Preciso dar um jeito no meu cabelo. Um dia desses, ainda dou
um jeito no meu cabelo.
Sempre dizia isso.
A tristeza de ficar sem nossa mãe foi grande. Eu não entendia
porque não ela quis que a gente fosse com ela. Foi pior do que
se tivesse morrido.
Meu irmão grita mais alto da janela.
Minha irmã corta no meio a formiga perdida na toalha. Agora são
dois pedaços, perdidos na toalha. Ela ri das metades tentando se
reencontrar.
- A faca está sem fio - reclama - É de tanto cortar beterrabas –
e retoma uma de nossas discussões desanimadas.
- São todas cozidas e macias - respondo, mostrando uma parte de
meus dentes, cobertos de vermelho. É assim que costumo mostrar
meu desagrado.
Ela muda de assunto.
- Alguém precisa tirar a poeira dos olhos abertos de nosso pai.
Finjo que não é comigo.
Meu irmão faz silêncio, agora. O balão negro subiu, com certeza.
Meu irmão descobriu a alegria dos balões. É outra pessoa de uns
tempos para cá. Fico feliz por ele.
No banheiro, quando meu cabelo, lembro de nossa mãe. Talvez um
dia também mexa no meu cabelo. Mas ainda não chegou a hora.
Plantei muitas beterrabas em nosso quintal. A colheita será
grande. Melhor do que no ano passado.
Eu cuido da casa, de meu pai – esquecido no quarto - de minha
irmã, que nos maltrata. Cuido de tudo.
Quando todos dormem, às vezes parece que escuto as beterrabas
crescendo no escuro. Nestas horas, penso mais do que nunca em
nossa mãe, na alegria de meu irmão e em deixar a casa.
A cada noite que passa, sinto que está mais perto o dia em que
vou pegar nossas coisas, um pouco do que resta do dinheiro da
casa, acordar meu irmão e lhe contar aquela história, tantas
vezes repetida - da viagem para um lugar cheio de balões.
Sei que ele vai estar com sono. Mas sei que vai segurar minha
mão e me acompanhar. Vou mostrar o bilhete encima da mesa,
escrito para nossa irmã: agora é sua vez de tomar conta do nosso
pai e da casa. Não se preocupe, a gente vai se cuidar e mandar
notícias. Gostamos de você, apesar de tudo.
Sinto que este dia está cada vez mais perto. Talvez hoje.
JOÃO BATISTA FERREIRA é gaúcho de Porto Alegre. Psicólogo,
contista. Participou de antologias e oficinas de contos
coordenadas por Charles Kiefer e Caio Fernando Abreu (antologia
Paulistanos Desvairados, inédita). Mestrando em Psicologia
Social e do Trabalho pela Universidade de Brasília. Vive em
Brasília.
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