Não vá se perder por aí

Michelle Horovits

Ouvindo meus próprios passos na rua, eu andava. Não poderia parar senão o mundo poderia se silenciar. Os postes ainda estavam em seus respectivos lugares com seu amarelo cru e ressentido, andando eu somente aplacava o silêncio do mundo e também me ressentia com os postes. Gostaria de acabar com tudo isso agora. Ele não pode ser mais forte do que eu, posso decidir, sei que posso. Antes preciso de ajuda. Mas quem me ajudaria?Porque não ser lógico e procurar a polícia? Eles me ajudariam. Colocá-lo atrás das grades seria uma saída, talvez assim eu conseguisse viver em paz. Já são três da manhã e eu continuo a andar, mesmo sentindo que meu corpo já não consegue. Com as pálpebras pesadas, uma náusea angustiante perpassa meu estômago. Não vou agüentar isso por mais tempo. Vou até a polícia, eles vão entender, eles precisam entender, essa situação para mim é inaceitável. Se eles não me ajudarem talvez eu deva tomar decisões mais sérias. Pensar me fez parar, não consigo mais andar e pensar, ou eu continuo andando e fugindo ou paro e penso. Mas o silêncio, o que fazer com esse silêncio? Não se trata do silêncio pleno de possibilidades que ultrapassa a palavra, mas da mudez vazia, sem forças para alcançar qualquer sinal do entendível. Um silêncio insípido e doente. Os postes enfim se apagaram e o seu cinismo cessou, junto com aquelas cores repulsivas que fingem iluminar vagamente as trevas. As ruas escuras reforçam a ilusão da aparência. De dia elas mais parecem rios fluindo entre as casas e levando seus passageiros em barcos invisíveis. Por isso quando alguém tropeça é simplesmente seu barco que afundou, visto que o melhor a ser feito é pegar o barco de um outro alguém e continuar. Os bêbados e desprovidos que na sarjeta passam seus dias, se afogam nas águas desse rio cintilante que flui entre as margens das casas. Eles somente se embriagam com suas águas e por ficarem assim tão dentro dela, são os únicos que nela sabem nadar. Talvez eu deva me juntar a eles ou me afogo num rio real ou me afogo na sarjeta das ruas, seria um modo de fugir de tudo isso. A pedir e rogar um instante de calma, eu corria às vezes ruas inteiras, e minha voz desvairada só ecoava metálica. Perco-me e então ele ainda está em meu encalço. Enchendo as trevas de um clamor desgraçado e delirante. Enfim a delegacia, Delegado Macedo vai me ajudar e me mostrar o que fazer. Ao ver o delegado forte, de nariz aquilino e cabelos beirando o grisalho. Vi ali meu velho amigo de pelada, minhas pupilas não resistiram a cintilar. Cumprimentei-o, ele parecia feliz por me ver e logo se pôs a relembrar os velhos tempos em que jogávamos e não tínhamos tantas cruzes para carregar. Descobrimos com o tempo que a vida é como Leminsky escreveu, "Ninguém paga meia". Sem querer assustá-lo logo de cara com meus sérios problemas, deixei a conversa seguir seu curso. Ele logo percebeu que meu olhar era aflitivo e denunciador. Eu estava pálido e fraco, o desespero se aproximava. Macedo vendo que a situação não era de visitas tratou de polidamente me perguntar o que me afligia. Sem mais delongas eu comecei a falar desenfreadamente. - Sinto uma ânsia, não posso mais. Será que se eu o matasse seria um crime passional? Algo precisa ser feito para deter isso. Não respondo mais por meus atos. Não me arregale os olhos assim Macedo. Não estou doido, não estou. Ele me perturba e me aflige o sono. Fez-me perder o emprego e a Amarildinha que eu tanto amo. A pobrezinha não agüentou, chorava noites adentro por culpa dele, definhava a olhos vistos e por isso me deixou. Ele tem de parar. Você tem de acreditar em mim homem, pelo amor de Deus. Ajude-me. Eu estou entrando em desespero, ele me persegue e me deixa fora do tino. É difícil não poder contar com ninguém, nem comigo mesmo em uma situação como esta. Um choro doído desce pela garganta. Eu tento esconder essas lágrimas, contudo ele vê, ri delas e me chama de fraco. Você pode acreditar nisso? Sei que meus olhos parecem os olhos de um lunático, que minha voz trêmula já não denuncia o rapaz que você lembra dos jogos de pelada. Mas ainda sou eu, pode parecer que minha sanidade está abalada. Entretanto depois de tudo o que ocorreu, eu vejo tudo bem mais claramente. A culpa é dele, todas as minhas desgraças são culpa dele. -Água, não eu não quero água. Não preciso de água, a não ser que eu me afogue para me livrar desse suplício. Você tem razão às coisas não têm dado certo para mim, por essa razão eu vim aqui e quero que você me prenda. Não eu repito que não estou louco. Não perdi o juízo, na verdade depois dos acontecimentos acho que o recobrei. Exijo como cidadão ciente dos meus direitos que o senhor me prenda, pois eu sou um ameaça para mim mesmo. Não precisa nem ler os meus direitos, pois eu os conheço de ambos os lados. Como acusado e como réu. Se minha sombra sair correndo pegue-a não a deixe solta ela é um perigo contra mim contra a sociedade, não só ela, eu também. Pois bem!Chegou minha hora da vingança. Ate meu tempo de criança ele tentou matar. E de segunda feira até Domingo, amarrado no horror de tua rede. Deu-me fogo quando eu tinha sede. Deixa estar canalha que eu me vingo. Macedo não me olhe assim espantado! Não precisa chamar ninguém para me ajudar, eu só preciso achar um jeito de me separar de mim mesmo. Como posso pedir o divórcio de mim mesmo, Macedo?Tem jeito? Deixa-me tentar te explicar, eu tenho idéias e meu corpo não atende meus comandos. Eu faço coisas com as quais não concordo. Você entende não é Macedo?Eu acho que eu vou ter de trancar as portas para você me escutar e para que ninguém nos interrompa. Não eu não vou embora antes de você me levar para a cela. Eu preciso de ajuda, por favor, me escute! Pelos velhos tempos de pelada. O quadro de aflições que me consome é vasto. Para pintá-lo seria preciso a tinta feita de todos os tormentos do homem. Não precisa gritar por socorro! Eu sempre achei que nos entendíamos bem. Pare com isso. Sinto-me estrangulado por rodas brutas. Que bom que você retornou a si. Não precisa se exaltar. Sabe Macedo é como se eu tivesse desejos secretos, eu não quero te machucar, mas sinto vontade. Não, não vou te fazer nada de mal, e só que vem um desejo de fazer. Mas eu sei que não é certo, por isso não faço. É duro viver em um embate comigo mesmo, não sou um bom guerreiro às vezes perco a batalha e meu corpo não me responde. E como se eu não fosse dono dele. Hoje é amargo tudo quanto eu gosto, fico com medo de mim, então tento não me distrair, para que não cometa algo impensado ou então muito bem pensado contra mim mesmo. A benção matutina que recebo também me é amarga. E é tudo; o pão que como, a água que bebo, o velho tamarindo em que me recostava nos fins de tarde. Ele destruiu tudo que eu mais amava. Devorou os meus sentidos e eu já não me importo comigo. Você deveria me ouvir e parar de gritar, não vai adiantar. Tudo bem eu aceito um julgamento, qualquer juiz em sã consciência me daria voz de prisão. Que bom que você está mais calmo Macedo. Você ainda não parou de tremer, eu não entendo não tem corrente de ar na sala, você está com frio?Não fique com medo de mim. E se não der certo a prisão, e se eu continuar a me fazer mal, o que eu faço?Eu acho que eu vou embora, você só quer gritar não quer me ajudar. Eu vou começar a ir. Isso mesmo. Por que tantas dúvidas? Garanto que você não deve ter a metade delas, eu não quero ficar sentindo isso. Macedo chega mais perto deixa eu te falar um segredo, gosto da sua sala. Simpática, tem um jeito de casa, as persianas nesse meio tom azul ficaram bonitas. De nada. Eu modéstia parte, a única parte que eu conheço de mim que é bem pouca, têm certo bom gosto. O que você acha dessa minha calça branca de flanela?Eu fico bem assim? Esta minha barba por fazer não esta muito elegante admito, mas acho que tenho belos olhos que melhoram a aparência do conjunto. E você Macedo engordou uns quilos, mas ainda tem aquele porte atlético que as meninas tanto gostavam na nossa época. Eu sempre fui meio mirrado lembra?Mas corria bastante. Naquela época eu ainda tinha as rédeas de mim mesmo. Sei que você pensa que eu estou louco, a verdade é que tenho partes e idéias que talvez sejam meio desconexas, mas não formam por assim dizer um louco. Tudo bem eu destranco a porta se é isso que você quer. Eu to indo você não precisa se alterar, eu sei que você tem de trabalhar, é que eu achei que você talvez pudesse me ajudar, mas vejo que foi um engano. O delegado deixado para trás com cara de parvo, e com as mãos ainda tremendo diante do impecável teatro de horror. Nada falou. Meio perdido Juvenal saiu da delegacia, acendeu um toco de vela que estava no bolso, gritou que seria seu farol. Colocou a vela de lado. Sentou agoniado no meio fio, virou-se para um lado, virou-se para o outro, passou as duas mão pela cara, esmagando os dedos de encontro aos olhos, quis falar, quis chamar. Parou, pousou o olhar na chama da vela. Um tremor tomou-o, sacudiu-o, abriu-lhe a boca, como que lhe esgarçou os músculos. As mãos crisparam-se. E de chofre caiu para frente, sem apoio no chão, com a face de encontro ao chão, ficou no chão estalado de tanto temer suas atitudes. Levantou-se, com o rosto sujo de terra, foi pelo jardim, pisando na grama recém colocada. Como se ainda houvesse esperança de ser preso por pisar na grama. Meio desnorteado foi andando até a sarjeta e seguiu por ela um caminho invisível que só ele conhecia. Nadando em águas de um azul enfim entendível. Eu sou só um passante que prestou atenção na balburdia que ocorria na delegacia. E que viu os olhares seguirem aquela figura pálida e já fraca da luta da vida, que em vão pisava na grama com esperança de se salvar de si mesmo. Na manhã seguinte sentado na praça lendo meu jornal e prestando atenção vez por outra, no busto quebrado de quem deveria ter sido importante, no centro daquela mal cuidada praça. Li no jornal, estampado como manchete que um maluco havia entrado na casa de um juiz federal e após mantê-lo como refém toda a noite, foi preso. Nos autos a acusação não foi seqüestro, ele foi acusado de perturbar a paz dele mesmo. Condenado a pena leve por crime passional contra a própria pessoa, ele pode ser solto dentro de um curto tempo, se apresentar bom comportamento. Quanto a mim que entrei na história sem me apresentar, eu sou só um andante. Assisti a tudo que aconteceu e como Juvenal não pôde mais relatar sua história, pois conseguiu o que queria, eu vim aqui para terminar. Nunca com a mesma beleza que Juvenal faria, todavia fica aqui minha tentativa. Depois de conhecer Juvenal vou tomar mais cuidado comigo mesmo. Para não me perder por aí.

MICHELLE HOROVITS é estudante de jornalismo da universidade Católica de Brasilia.